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Debate sobre transposição envolve política e meio ambiente
Desde os tempos do imperador Dom Pedro 2º, a transposição das águas do São Francisco para "molhar terras mais ao norte" é um tema que desperta muitas discussões e poucas conclusões. Com aplausos de um lado e vaias de outro, o governo Lula deu mostras - nem sempre muito claras, é verdade - de que tomou uma decisão: a de tocar a obra. Para seus opositores, o desvio da água pode acabar com o Velho Chico e criar problemas mais do que resolvê-los. Para a Fundação Nacional de Ciências, Aplicações e Tecnologia Espacial (Funcat, a instituição que desde 1997 estuda esse assunto para o governo), o São Francisco pode doar quase sem sentir os 65 metros cúbicos de água (65 mil litros) por segundo necessários para o abastecimento dos canais de transposição. Licitação "A vazão média do rio abaixo da represa de Sobradinho, onde o projeto prevê a captação da água, é de 2.030 metros cúbicos por segundo. A retirada de 65 metros cúbicos teria pouco impacto", diz o coordenador do projeto na Funcat, brigadeiro José Armando Varão Monteiro. O militar diz que os estudos de impacto ambiental já foram enviados ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e que o pedido de liberação da água está nas mãos da Agência Nacional de Águas (ANA). "Resolvidas essas questões, podemos fazer uma licitação. A primeira fase pode ficar pronta em dois anos, e a obra toda, que envolve 700 km de canais, demoraria cinco anos." O brigadeiro não fala em orçamento - "Custaria menos do que o metrô de São Paulo" -, mas cifras extra-oficiais prevêem um gasto de cerca de US$ 6 bilhões (R$ 18 milhões). Enchentes Mas, para os críticos do projeto, o Velho Chico já foi muito alterado pelo intenso uso de suas águas, e isso agora poderia acabar com o rio de vez. Às margens do rio, o que mais se ouve é que o Velho Chico perdeu sua histórica capacidade de ter cheias e assim molhar as terras e encher lagoas em suas várzeas. "Muitas barragens foram feitas no rio para a construção de usinas hidrelétricas que acabaram com as cheias do São Francisco. Uma das primeiras conseqüências disso é a redução do número de peixes", conta o biólogo da Universidade Federal de Minas Gerais Alexandre Godinho. O pesquisador explica que, em geral, as cheias carregam os filhotes de peixes para um crescimento mais seguro nas lagoas marginais do rio, para que, mais desenvolvidos, eles possam voltar depois à calha principal na enchente do ano seguinte. "Com enchentes artificiais poderíamos tentar recuperar a fauna fluvial", diz Godinho, levantando mais um possível uso para as disputadas águas do São Francisco. Revitalização O brigadeiro Monteiro concorda que, mais para o lado da nascente - o chamado Alto São Francisco -, há problemas de falta de água. "Mas o noso projeto prevê a captação de água perto das cidades de Cabrobó (PE) e Itaparica (BA), onde já não há mais desse problema", garante o militar. "A represa de Sobradinho é um enorme lago artifical que, faça chuva ou faça sol, despeja em média 2.030 metros cúbicos de água na calha do rio." E o militar diz que o atual plano do governo não trata só da transposição, mas também da revitalização do rio. "Desde que esse plano é discutido, há mais de cem anos, sempre se fala do transporte de água do São Francisco para o chamado coração da seca, no norte do semi-árido brasileiro", explica. "A diferença agora é que o governo também está preocupado com a revitalização do rio através da recuperação da mata ciliar, de obras de sanamento básico nas grandes cidades das margens e da contrução de barragens em Minas Gerais para regularizar o curso do rio." Tocantins O brigadeiro diz que está no fundo da gaveta o projeto de captar águas da bacia do rio Tocantins para abastecer a bacia do São Francisco. "Por enquanto temos água suficiente no rio São Francisco para tudo o que precisamos, mas, se for necessário dar uma reforço hídrico, à medida que os anos avançarem, já temos o projeto pronto", explica. Para outros, no entanto, despejar água do Tocantins no São Francisco é essencial para que a transposição seja feita e o Velho Chico sobreviva. Há até no Banco Nacional de Desevolvimento Econômico e Social (BNDES) um cálculo que prevê um orçamento de R$ 24 bilhões para obra, que, por sinal, enfrenta a oposição dos políticos dos Estados da Bacia Amazônica. "Desastre ambiental" Para o biólogo do Projeto Manuelzão - uma ONG focada em questões sócio-ambientais da bacia dos rios das Velhas e São Francisco -, Carlos Alves, tirar água do Tocantins ou de alguma outra fonte seria essencial para que se pudesse captar algo depois. Mas Alves adverte que, se usar o rio Tocantins pode, por um lado, resolver o problema de falta de água, também pode, por outro, causar um desastre ambiental. "Tirar água do Tocantins significa criar grandes canais e túneis por onde também viriam muitos peixes. Misturar peixes de duas bacias diferentes pode ter um efeito desastroso para a fauna", diz. O biólogo também têm dúvidas a respeito dos efeitos sociais positivos da transposição no longo prazo. "Se contruírmos 700 km de canais pelo Sertão brasileiro, onde há pouca água, a tendência das populações vai ser se aglomerar em torno do canal, usar a água de maneira pouco eficiente e até poluir o canal", teme. Evaporação Já o agronomista da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Luiz Bassoi acredita que o risco é outro: a água ser usada apenas nas pontas do canal e não em toda a sua extensão. "Se esses canais forem contruídos, temos de ver se as terras em seu caminho são irrigáveis porque, se o uso acontecer só na ponta, muito vai ser perdido com a evaporação", disse. Mas o agronomista, mesmo sendo especialista em água e irrigação, reclama que tem dificuldes para definir sua opinião sobre a obra. "Cada estudo técnico vem com uma visão diferente, de acordo com os interesses de quem está fazendo o estudo. A discussão sobre a transposição das águas do São Francisco é um tema muito mais político do que técnico", diz o agronomista, que trocou o interior de São Paulo pelo desafio de fazer o semi-árido produzir na cidade pernambucana de Petrolina. "Irrigação e água são instrumentos de justiça social que têm de ser muito bem usados. Só espero que este governo estude bem a questão em todos os seus aspectos técnicos, não se deixe levar por interesses políticos menores e faça o que for melhor para a população tão necessitada do Sertão." |
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