A queda no índice de desenvolvimento humano (IDH) de 54 países é reflexo da globalização "neoliberal" dos anos 1990, segundo a economista Sakiko Fukuda-Parr, autora do relatório sobre o assunto divulgado nesta terça-feira pela ONU.
Segundo Fukuda, o impacto negativo da "abertura de mercados sem o fortalecimento do setor público" só está aparecendo agora, dez anos depois da introdução de políticas de abertura de mercado.
"O mundo ficou mais rico de uma forma geral, mas nós estamos vivendo uma crise de desenvolvimento", afirmou Sakiko Fukuda-Parr em entrevista à BBC Brasil.
O criador do Consenso de Washington, o economista John Williamson, no entanto, ressalta que a renda per capita média mundial aumentou. Para Williamson, não é possível dizer que a qualidade de vida no mundo caiu.
"A renda aumentou na China e na Índia que, sozinhas, concentram 40% da população mundial", afirmou.
Desigual
Sakiko Fukuda-Parr diz que, no Brasil, esse fenômeno ocorreu dentro do próprio país.
"Alguns lugares do Brasil têm IDHs equivalentes ao da Europa e outros com IDHs típicos da África", afirmou Fukuda-Parr, lembrando que o país continua sendo um dos recordistas de desigualdade social.
A economista explicou, por exemplo, por que, embora tenha subido quatro posições em relação ao último relatório, o Brasil continua atrás da Colômbia.
"O nível de alfabetismo e a expectativa de vida ainda são mais altos na Colômbia."
O Brasil ficou em 65º lugar na lista que relaciona 175 países com base em fatores como saúde, educação e renda.
Educação
A economista diz, no entanto, que o Brasil avançou muito no campo da educação.
A avaliação é baseada principalmente no aumento do número de crianças matriculadas na escola e na redução dos índices de analfabetismo.
Ainda assim, Fukuda ressalta que as melhoras foram muito irregulares.
"O analfabetismo caiu em média de 12% a 18%, mas na região Norte caiu só 1%."
Por outro lado, a renda per capita no Brasil caiu, graças ao que Fukuda chamou no relatório de baixo crescimento da economia brasileira.
América Latina
No entanto, o Brasil não foi o único país a crescer pouco. "A América Latina teve um crescimento muito irregular (nos últimos anos)", afirmou.
Fukuda diz acreditar que uma das causas das crises que atingiram a região tenha sido a aplicação de políticas liberais, embora ressalte que essas políticas só foram tão prejudiciais porque não foram seguidas de investimentos públicos em setores não atendidos pelo mercado.
O economista John Williamson concorda com a necessidade de uma revisão das políticas que ele mesmo recomendou há 14 anos, no que ficou conhecido como Consenso de Washington.
No entanto, Williamson discorda que a liberalização das economias latino-americanas tenha sido a origem das crises.
"Foram crises causadas por políticas econômicas inadequadas para tentar controlar a inflação", afirmou Williamson à BBC Brasil.
Caso brasileiro
No caso brasileiro, o economista do Instituto Internacional de Economia, de Washington, acredita que a crise decorreu principalmente de um erro do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso ao manter o câmbio sobrevalorizado por tanto tempo e, com isso, criar um enorme déficit na balança de pagamentos.
"Essa política criou as condições para a crise do fim a década de 1990, a do o início desta década e o pânico no ano passado."
Williamson diz acreditar que o atual governo está no caminho certo, ao "fazer sacrifícios" para recuperar a confiança do mercado.
Para o economista, só será possível investir em programas sociais quando o país voltar a crescer.