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Atualizado às: 29 de julho, 2003 - 01h27 GMT (22h27 Brasília)
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Grã-Bretanha dificulta entrada de estudantes brasileiros

Terminal 1 do aeroporto de Heathrow, em Londres
Alguns estudantes são mandados de volta horas após desembarcar no aeroporto de Heathrow, em Londres

O endurecimento dos controles de imigração da Grã-Bretanha tem causado problemas aos brasileiros que viajam ao país para estudar inglês.

São cada vez mais freqüentes os casos de pessoas que pagam uma escola, chegam a Londres com cartas confirmando a matrícula mas, mesmo assim, são barradas no aeroporto e obrigadas a voltar no primeiro vôo para o Brasil.

"Atualmente, por volta de 50% dos brasileiros que chegam com carta da escola não são autorizados a entrar e são retornados ao Brasil ou ao país de origem", disse Vitória Nabas, consultora jurídica da Casa Latino-Americana, instituição que presta assessoria gratuita aos brasileiros que enfrentam problemas com a imigração.

"Infelizmente o Home Office (Ministério do Interior britânico) está verificando que o número de brasileiros tem aumentado muito, e desconfia que eles estão vindo para cá para trabalhar e não para estudar."

Barrada

Há cerca de duas semanas a cearense Cláudia Camarço Lustosa foi mais uma brasileira que não conseguiu convencer os britânicos de que viajava ao país para estudar, e não trabalhar.

Cláudia não fala inglês e, aos 36 anos, viajava pela primeira vez ao exterior. Ela tinha pago uma escola de idiomas, mas não descartava a possibilidade de encontrar um emprego e ficar na Grã-Bretanha.

"Fui passar um mês de férias e estudando, a imigração me barrou, me tratou feito uma marginal, uma traficante", contou ela, ainda muito irritada, de volta à sua casa em Fortaleza.

"Pegaram minha bagagem, me revistaram toda, me trancaram numa sala com outras pessoas sem o direito de me comunicar com ninguém. Isso não se faz. Isso aí é que é país de primeiro mundo?", questionou.

 A imigração me barrou, me tratou feito uma marginal (...) Isso aí é que é país de primeiro mundo?

Cláudia Camarço Lustosa

Cláudia reclamou do prejuízo - desembolsou R$ 3,6 mil à toa na passagem aérea - e da desilusão. "Meu sonho era um dia poder conhecer Londres. Aí, no dia que apareceu a oportunidade, deu no que deu."

Dados

O governo da Grã-Bretanha só deve divulgar no mês que vem os dados oficiais sobre quantas pessoas têm a sua entrada no país negada.

O aumento no número de casos testemunhados por pessoas como Vitória Nabas, que lidam diretamente com o assunto, seria um indício de que os brasileiros têm sido barrados com maior freqüência que no passado.

Um porta-voz do Home Office disse que os oficiais de imigração possuem autoridade para proteger as políticas da Grã-Bretanha.

Segundo ele, “os estudantes não são um alvo mais ou menos visado que qualquer outro grupo de pessoas”.

“Nosso trabalho é evitar a entrada no país daqueles que não estão autorizados a entrar, seja quem for”, acrescentou.

Na opinião de Nabas, parte da explicação sobre o endurecimento no tratamento dado pelo serviço de imigração britânico aos brasileiros está nos atentados de 11 de setembro de 2001.

Após aquela data, os Estados Unidos dificultaram a entrada de estrangeiros, temendo novos ataques. Impedidos de ir para lá, muitos brasileiros que buscam trabalho em moeda forte no exterior passaram a bater nas portas da Grã-Bretanha.

Escolas

Cientes do rigor dos agentes britânicos com visitantes indesejados, muitos brasileiros passaram a se matricular em escolas de inglês baratas com a finalidade de conseguir obter um visto de estudante e, assim, entrar para trabalhar no país.

Brasileira lê jornal da comunidade
Juliana Matos procura emprego em jornal brasileiro de Londres

As autoridades britânicas se deram conta do truque e, agora, não se satisfazem apenas com a apresentação da carta da escola e de uma passagem de volta para conceder o visto estudantil no aeroporto.

O escritor britânico Tony Saint, que trabalhou no controle de entrada de estrangeiros por dez anos, disse que muitos brasileiros já burlaram o sistema de imigração utilizando cartas de escolas.

Agora, observou ele, muitas pessoas que vêm genuinamente estudar sofrem as consequências e são barradas.

Saint ganhou notoriedade ao escrever um livro em que retrata os bastidores do controle de imigração no aeroporto de Heathrow.

Boa reputação

Ele recomenda aos interessados em estudar em Londres que levem provas de que possuem dinheiro suficiente para se sustentar sem trabalhar enquanto estiverem na cidade.

Além disso, Saint sugere às pessoas que escolham escolas de boa reputação, para evitar aquelas já famosas por servir de fachada para a imigração ilegal.

O estudante mineiro de Uberaba Vinícius Maia foi barrado recentemente no aeroporto de Gatwick, perto de Londres.

Ele havia pago uma escola de inglês e diz que não tinha planos de trabalhar. "Os funcionários da imigração disseram que eu não os convencia de que não havia vindo para trabalhar", contou ele.

Segundo ele, os agentes o deixaram passar para dormir no saguão do aeroporto, mas ficaram com seu passaporte e a sua bagagem.

Acompanhado de outro brasileiro, Vinícius pegou um trem e fugiu para a cidade, onde se encontra ilegal. Agora, distribui panfletos e faz outros bicos para juntar dinheiro e voltar ao Brasil.

"Só fiquei com minha roupa do corpo e o dinheiro. Estou numa situação ilegal aqui, como eu não queria ficar", afirma Vinícius.

Nova taxa

O governo britânico está dificultando também a vida dos estudantes que já se encontram na Grã-Bretanha e planejam prorrogar sua permanência.

A partir de primeiro de agosto, o Ministério do Interior passa a cobrar 150 libras (aproximadamente R$ 721) para renovar vistos de estudante pelo correio, ou 250 libras (cerca de R$ 1,2 mil), para quem tiver urgência e for pessoalmente ao ministério.

É um valor alto para um serviço que costumava ser gratuito. Para economizar a taxa, alguns estudantes brasileiros planejam viajar a outros países da Europa e tentar renovar o visto ao voltar à Grã-Bretanha.

"Meu visto vence agora no fim de setembro, acho que vou viajar para renovar quando voltar", disse a mineira Waldinéia Nunes Costa, que há seis meses estuda inglês em Piccadilly Circus, no centro da capital britânica.

"Mas estou com medo porque a imigração está pegando no pé de todo mundo e fechando o cerco. Eles querem menos imigrantes aqui."

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