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Rádios colombianas fazem programas para seqüestrados
Há mais de um ano, Juan Carlos Lecompte não recebe qualquer informação sobre o paradeiro da mulher dele, a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, seqüestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em fevereiro de 2002. Mas, a exemplo dos familiares e amigos das mais de mil pessoas que se encontram seqüestradas no país, Lecompte não desanima. Ele costuma enviar mensagens para Ingrid através dos programas de rádio criados para manter um elo entre aqueles que se encontram no cativeiro e suas famílias. "Nós estamos bem. Você é que precisa resistir e agüentar. Se cuida meu amor. Te amo muito e te espero em breve", disse Lecompte no final de sua mensagem a Ingrid, na última semana, durante transmissão do Vozes do Seqüestro, o mais antigo desses programas. Vozes foi criado pelo jornalista Herbin Hoyos em abril de 1994, depois de ele ter passado duas semanas no cativeiro das Farc. No início, contava com apenas 15 minutos de duração em uma única rádio. Hoje, 163 rádios colombianas passaram a transmitir seis horas de programa. 'Mensagens diferenciadas' Também é possível escutá-lo em Londres, Nova York, Miami, Paris, em cidades argentinas, chilenas e panamenhas. Participam pessoas de todas as idades e de todas as partes do país. As mensagens têm grande carga emocional e são diferenciadas. Desde o menino que avisa ao pai que perdeu um de seus dentes-de-leite, à mulher que culpa o governo por não negociar com a guerrilha a libertação de todos os seqüestrados, até o amigo preocupado em avisar a um dos seqüestrados que a mulher dele engravidou de outro. "Para muitos reféns, levados para as selvas ou montanhas por meses e, em alguns casos, por cinco ou seis anos, esse é o único contato com o mundo exterior. É o que mantém viva entre eles a esperança de liberdade", assinala Hoyos. Segundo Hoyos, tanto os criminosos comuns, quanto os guerrilheiros de esquerda e os paramilitares de direita seqüestram sem levar em consideração sexo, idade ou profissão das vítimas. Entre os que se encontram no cativeiro das Farc, responsável por um terço dos seqüestros no país, estão crianças, militares, policiais e um grupo de parlamentares. Para que sejam libertados, a guerrilha pede entre US$ 25 e US$ 30 milhões. 'Castigo' As dentistas Sandra Patricia Gil e Sandra Marisol González, seqüestradas durante oito meses, confirmam. "Sofremos muito com a perda da liberdade, a saudade dos familiares e amigos. O programa era o nosso conforto, nossa única esperança", diz Sandra Marisol. "Quando recebi a primeira mensagem da minha filha, de seis anos, fiquei tão emocionada que quase não escutei nada", lembra. "Através do programa, podia lembrar que tinha uma família, pessoas esperando por mim." Sandra Patricia diz que seus captores compraram o rádio e informaram a ela e à amiga sobre horários e emissoras que transmitem programas para seqüestrados. Também se encarregaram para que nunca faltassem pilhas nos 11 acampamentos em que as duas foram obrigadas a estar. Segundo Hoyos, os guerrilheiros já sabem que as mensagens confortantes da família fazem com que os seqüestrados tenham força para enfrentar as longas caminhadas e a depressão. "Eles também podem ser cruéis", diz José Alfonso Villamizar, seqüestrado por quase dois anos. "Muitas vezes, eles diziam que minha família tinha se esquecido de mim e que não queria pagar o resgate. Mas, quando eu escutava o programa, sabia que eles estavam fazendo de tudo para me libertar." Conforme Hoyos, a guerrilha também usa o rádio para castigá-los. De acordo com ele, quando um seqüestrado se comporta mal, perde o direito de escutar os programas. Insatisfeito e triste, faz qualquer coisa que os captores pedem para poder ouvir novamente a voz de sua família. Viviana Esguerra, apresentadora do Em Busca da Liberdade Perdida, veiculado numa emissora estatal, diz que é muito triste a existência desses programas. Mas, de acordo com ela, que também trabalha com a Fundação País Livre, uma organização não-governamental surgida há mais de uma década para ajudar vítimas de seqüestro, projetos como esse são necessários. Ela diz que 75% dos delitos desse tipo ocorrem no país. "Passamos de uma média de oito seqüestros por dia em 2002, para cinco diários nos primeiros quatro meses desse ano. No ano passado, conseguimos baixar a média de 3 mil casos. De janeiro a abril de 2003, registramos uma redução de 40% em relação a igual período de 2002, finalizz Viviana. |
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