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Íntegra: Lula fala de Alca e da ajuda aos países pobres
Leia abaixo a terceira e última parte da transcrição completa da entrevista exclusiva concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à BBC Brasil. BBC - Robert, de Atlanta (Estados Unidos), pergunta: que mensagem o senhor tem para os americanos que temem um governo de esquerda no Brasil? Luiz Inácio Lula da Silva - Bom, primeiro os americanos não têm que temer um governo de esquerda, de direita ou de centro no Brasil. Os americanos têm que temer o governo deles, o governo que eles elegerem, seja um governo democrata ou republicano. O governo do Brasil é um problema do povo brasileiro, portanto tem que prestar contas é ao Brasil. Eu acredito que durante muito tempo se criou fantasmas e sofismas com relação aos governos de esquerda em outros países e sobretudo no Brasil. Veja, qualquer governo que for eleito no Brasil terá que ter a responsabilidade de atender a vontade do povo brasileiro, essa sim é que é a prioridade de qualquer governo. E para que isso aconteça é preciso que você mantenha uma relação diplomática com todo o mundo, com todos os países. E qualquer governo brasileiro sabe a importância que têm os Estados Unidos na sua relação política, na sua relação econômica. É o nosso maior parceiro individual, portanto o que nós queremos é manter uma excepcional política de relações diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos, mas obviamente que queremos ter a nossa soberania que nos permita tomar nossas decisões de manter relações com quem nós quisermos manter relações. BBC - Aristides Garcia, de Amsterdã, quer saber o seguinte: o senhor não teme que os Estados Unidos venham a sabotar suas políticas em favor da justiça social? Lula - Não acredito. Eu acho que o meu papel é convencer os Estados Unidos e também a Inglaterra, a Alemanha, a França e a Itália de que eles precisam efetivamente assumir a responsabilidade de ajudar nas políticas sociais dos países mais pobres. Se é verdade que o século 20 foi o século em que a Europa e os Estados Unidos tiveram uma recuperação econômica, um crescimento sustentável, o século 21 pode ser um século em que se pode ter um pouco de distribuição da riqueza acumulada ao longo desses anos. Por exemplo, se você ajuda a África a se desenvolver, ou se você ajuda a América do Sul a se desenvolver, você estará facilitando até uma política de comércio exterior dos países desenvolvidos para vender os seus produtos. Então, eu acho que esse é o papel que os países ricos têm de desempenhar a partir de agora, e eu quero aproveitar todas as viagens que eu fizer para tentar convencê-los de que, por exemplo, a integração da América do Sul, que tem 220 milhões de habitantes, tem um PIB de quase US$ 1 trilhão e é um mercado importante para a Inglaterra, é um mercado importante para os Estados Unidos, assim como para a toda a União Europeia. Agora, para a América do Sul se desenvolver, é preciso que haja investimento em infra-estrutura. Então, esse é o desafio que está colocado para os países ricos, até porque se quiserem combater o narcotráfico, se quiserem combater o crime organizado, se quiserem combater o terrorismo a melhor forma é fazer política social na parte mais pobre do planeta Terra. BBC - Ingacio Adriassola, de Shiba, no Japão, pergunta: o senhor acredita que uma América Latina unida não pode impor uma política diferente da dos Estados Unidos? Lula - Veja, nós não somos obrigados a ter uma agenda política idêntica a dos Estados Unidos. Nós queremos uma América do Sul unida. Porque nós temos interesse comuns, porque nós temos fronteira com quase todos os países, menos com o Equador e com o Chile, e porque temos interesses políticos econômicos e sociais na América do Sul. Porque nós acreditamos que quanto mais unidos estivermos mais força nós teremos para negociar, ora com os Estados Unidos, ora com a União Européia. Ao mesmo tempo, temos que procurar parceiros que não estão estejam diretamente ligados ao Primeiro Mundo, como a África do Sul, a China, a Índia, a Rússia, todos têm muitas similaridades com o Brasil, similaridades tecnológicas, na produção agrícola, similaridade no PIB, na população. Então, nós precisamos procurar outros parceiros até para que, quando formos lutar com a União Européia para reduzir os subsídios agrícolas na OMC, tenhamos mais parceiros e mais companheiros como eu chamava no movimento sindical. Eu nasci na vida política dizendo em porta de fábrica que a união faz a força, e isso vale para a política também. Se cada país da América do Sul ou cada país da África tentar encontrar sozinho as soluções para seus problemas não conseguirá. É preciso juntar forças, ter uma política comum para que a gente possa enfrentar os nossos parceiros mais ricos como Estados Unidos e União Européia. BBC - O seu governo deu bastante importância à unificação da América Latina, fortalecendo o Mercosul antes da criação da Alca, e também exigindo que os Estados Unidos abram seu mercado. Agora, quando o senhor esteve recentemente nos Estados Unidos, deu a impressão de ter abandonado esta posição para adotar a posição americana... Lula - Veja bem, primeiro os Estados Unidos não são donos da Alca. O Brasil é co-presidente da Alca e, portanto, existe um protocolo que diz que devemos tomar uma decisão até 2005, e essa decisão pode ser de mandar todos os principais problemas para a OMC. Os Estados Unidos querem mandar todos os problemas sensíveis para serem discutidos fora da Alca, ao mesmo tempo em que querem preservar sua agricultura, mas querem, por exemplo, que os países pobres negociem suas compras governamentais. Então, em negociação externa, negociação comercial, cada país tem que negociar de acordo com os interesses econômicos daquele país, de acordo com os interesses de seu povo e de acordo com os interesses de sua soberania, e disso nós não abrimos mão. Os Estados Unidos são um país muito forte. Eles têm um PIB de 10 trilhões, um PIB que representa quase 80% do PIB de todo o continente, têm hegemonia tecnológica e numa negociação de um país fraco com um país mais forte, se não existir nenhum critério de proteção ao mais fraco, a hegemonia do mais forte vai prevalecer e nós não queremos isso, nós queremos é uma negociação em que efetivamente ela seja igual. Se é verdade que os países ricos falem tanto em livre comércio, é preciso então que eles abram mão de todas as tarifas que eles impõem sobre o comércio, sobre os produtos agrícolas dos países do terceiro mundo e sobretudo da América do Sul e da África. Então, nós queremos uma negociação paritária. Nós achamos que nenhum país do mundo respeita um outro país que não se respeita. Ou seja, qualquer negociador que negociar de cabeça baixa não será respeitado. É importante os Estados Unidos saberem que o Brasil tem interesses econômicos, interesses políticos, interesses sociais, interesses militares e interesses tecnológicos e isso, nós queremos dar igualdade na discussão da Alca e, se não der certo, vai para a OMC. E lá nós vamos resolver isso, vamos brigar mais, vamos envolver mais gente nessa luta. Por isso é que estamos defendendo a união da América do Sul em torno do Mercosul para termos força para negociar a Alca. BBC - Alfonso J., de Nova York (Estados Unidos), quer saber por que o senhor continua dando apoio ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que - de acordo com o internauta - aprovou uma "Constituição sectária". Lula - Veja, eu tenho muito interesse no desenvolvimento da Venezuela. Já há algum tempo o Brasil vem trabalhando em parceria com a Venezuela, o Brasil tem investimentos na Venezuela, e o Brasil tem interesses econômicos, interesses políticos e estratégicos na Venezuela. Quando houve um golpe contra o governo do presidente Chávez, propusemos a constituição do grupo dos amigos, propusemos a participação do Brasil, propusemos a participação do Chile, dos Estados Unidos, da Espanha, porque não queríamos criar um grupo de amigos do Chávez - queríamos sim fazer um grupo de amigos da Venezuela. E graças a isso nós fizemos um acordo com a Venezuela, coordenado pelo Gavíria, secretário-geral da OEA. O que nós queremos é que a Venezuela dê certo. Agora, o que temos que fazer é respeitar a decisão do povo da Venezuela. O Chávez foi votado duas vezes. Ele teve 60% dos votos. Ele é o presidente da República. As pessoas que querem derrotá-lo que derrotem nas eleições. Não dá é para as pessoas dizerem 'eu não gosto' e, por isso, ele não pode ser presidente. Então, não vote. O que nós queremos é que a democracia seja respeitada na América Latina e seja respeitada na Venezuela. O Chávez foi eleito duas vezes, portanto ele tem que terminar o seu mandato. Quem quiser derrotá-lo que não o faça através de um golpe, vença-o num processo eleitoral. É isso que ele está propondo e é isso que todos nós queremos que aconteça na Venezuela, no Brasil e em qualquer país do mundo. BBC - Rivestre Cahachedri, de Jacarta (na Indonésia), pergunta: o que o senhor pensa em fazer sobre a questão da segurança pública se o Rio de Janeiro ganhar o direito de ser a sede dos Jogos Olímpicos de 2012? Lula - Bom, primeiro eu vou rezar muito para que o Rio de Janeiro seja a sede das Olimpíadas de 2012. Eu acho que o povo do Rio de Janeiro é um povo extraordinariamente maravilhoso. Acho que o Rio de Janeiro é efetivamente um Estado que tem condições de fazer as Olimpíadas. Acho que a cidade do Rio de Janeiro, pela beleza natural que Deus lhe deu, merece ser sede das Olimpíadas e obviamente que nós vamos cuidar de fazer que os Jogos Olímpicos sejam realizados com toda a segurança possível. Esse é o compromisso do governo brasileiro, ou seja que não ocorra nenhum incidente durante as Olimpíadas, a não ser os incidentes da própria disputa, ou seja, alguém vai certamente perder e outros ganharão. Mas, do ponto de vista da segurança pública, do governo brasileiro, se o Rio de Janeiro for a cidade vitoriosa, nós iremos assegurar que todos os participantes terão tranqüilidade e serão tratados como se estivessem em sua própria casa, com muito amor e carinho. BBC - Gary Dreamer, de University City, nos Estados Unidos, pergunta: o Brasil vai liberar o consumo de alimentos transgênicos para não perder em produtividade para a Argentina e os Estados Unidos e poder fornecer comida em maior quantidade e a preços mais baixos à população? Lula - Creio que a pergunta carrega uma dose de desinformação muito grande. Neste ano, o Brasil superou os Estados Unidos na produção de soja. E, no ano que vem, vamos superar ainda mais, pois pretendemos chegar em 2004 a 120 milhões de toneladas de grãos. Essa não é a nossa preocupação. Não queremos fazer um debate ideológico sobre os transgênicos. Queremos fazer um debate científico. O governo está promovendo um grande debate científico coordenado pelo Instituto de Planejamento Estratégico, e quando tivermos um resultado tomaremos uma decisão política. Não é uma questão ideológica contra ou a favor, simplesmente, aceito ou não aceito, pensando puramente do ponto de vista econômico ou do ponto de vista ideológico. Não, nós queremos saber simplesmente os efeitos que podem ter a plantação de soja transgênica no Brasil. Nós queremos saber qual é o valor do mercado consumidor da soja transgênica ou da soja orgânica. Portanto, faremos o debate e depois tomaremos uma decisão. Se os Estados Unidos ou se a Argentina entendem que a soja transgênica é boa para a produção é a auto-determinação de cada país. No nosso caso, queremos fazer um debate bem feito, envolvendo toda a comunidade científica envolvendo os trabalhadores, os empresários, o governo, o Congresso, e quando tivermos um resultado científico tomaremos uma decisão política, sem nenhuma pressa porque esse é um problema que nós temos competência para resolver. BBC - Um internauta de Genebra, na Suíça, quer saber como as empresas podem ajudar no combate à fome e como o senhor pode convencê-las de participar nesta batalha. E Terry Barry, do País de Gales, pergunta que "garantia o senhor dá aos brasileiros que votaram no senhor de que não vai abandonar a busca por uma sociedade justa e menos desigual em benefício dos interesses econômicos globais". Lula - Primeiro, eu não fui um candidato inventado, não fui um candidato que alguém tirou do bolso do colete e falou: 'esse é o nosso candidato'. Eu sou o resultado da evolução política de uma parcela da sociedade brasileira. Portanto, o meu compromisso com essa gente não é programável, está no sangue. E, quando eu deixar a Presidência da República, não vou vir para a Inglaterra nem para a França. Vou ficar no Brasil, em São Bernardo do Campo, onde construí minha vida política, freqüentando os mesmos companheiros e quero olhá-los de cabeça erguida, pois esta é uma conquista minha e que não pretendo abandoná-la nunca, olhar os meus companheiros olho no olho, com a certeza do dever cumprido. E vou fazer o que o Brasil entende que deva ser feito. Nós temos clareza do que precisa ser feito. Temos certeza de como fazer as coisas e vamos fazê-las. Podem ficar certo de que vamos fazer. Quanto à pergunta do companheiro na Suíça, gostaria de lembrar que uma empresa suíça, a Nestlé, tem participado ativamente do programa Fome Zero, tem participado do programa de primeiro emprego, assumiu o compromisso de gerar 600 empregos para jovens como forma de ajudar o nosso programa de primeiro emprego que deverá ser iniciado dentro de 30 ou 40 dias. As empresas podem ajudar participando do Fome Zero. Nós temos milhares de empresas que estão doando alimentos, dinheiro e não precisa dar para o governo, não, pode escolher uma comunidade e levar para lá os alimentos. Tem muitas empresas fazendo isto. No último dia 5, eu participei de um encontro promovido por uma ONG que foi criada para ajudar o programa Fome Zero e que reuniu 80% do PIB brasileiro, banqueiros e empresários. Combater a fome não é um problema somente do governo brasileiro. É um problema ético e moral de todo o mundo que vive no planeta Terra. |
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