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Atualizado em: 14 de julho, 2003 - 20h51 GMT (17h51 Brasília)
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Caio Blinder: Falta de inteligência

George Tenet
George Tenet, diretor da CIA, é 'bode expiatório' de Bush.

Por estes dias, George W. Bush pode estar na Casa Branca, Botsuana, Pólo Norte ou na Lua e os repórteres irão assediar o presidente americano com perguntas sobre o Iraque, não apenas sobre as ameaças no pós-guerra, mas sobre como o governo dos EUA armou o arsenal de justificativas para ir à guerra.

E Bush enfrenta o assédio como o mais convencional dos políticos.

Sua decisão de fazer do diretor da CIA, George Tenet, o bode expiatório por enganar ou confundir a nação sobre a ameaça iraquiana talvez tenha êxito como tática política de curto prazo, mas não é uma estratégia inteligente ou eficiente para resolver a crescente crise de credibilidade da administração Bush.

A linha oficial do governo americano é de que está se fazendo muita onda com 16 palavras inseridas no discurso feito por Bush em janeiro sobre “O estado da União” acusando o Iraque de Saddam Hussein de tentar contrabandear urânio da África.

Sagrado

A polêmica sobre uma denúncia não corroborada por sólidas evidências não é exagerada porque o discurso anual é sagrado.

Esse é o momento em que o presidente presta contas ao país.

Ademais, é evidente que a polêmica sobre meras 16 palavras não teria irrompido com tanta virulência se em primeiro lugar não existisse o questionamento sobre as razões de Bush para ir à guerra.

Na contabilidade de Bush, a guerra no Iraque era um ativo. Agora se converte em um passivo.

Para conter o prejuízo e proteger sua credibilidade, o presidente culpou Tenet, numa jogada que teve um intenso engajamento de Condoleeza Rice, a assessora de segurança nacional.

Foi um espetáculo primoroso de maquiavelismo palaciano.

Urânio africano

Tenet assumiu a culpa (a outra opção era pedir demissão imediatamente), e, publicamente, exonerou o presidente no fiasco do urânio africano, mas ao mesmo tempo direcionou parte da responsabilidade de volta à equipe de Rice, dizendo que em ocasiões anteriores a CIA havia bloqueado a Casa Branca de fazer referências ao urânio africano nos discursos presidenciais.

Uma lição fundamental no episódio é que o governo Bush acredita no que quer acreditar.

É óbvio que o regime de Saddam Hussein era execrável e não tinha escrúpulos para desenvolver e usar armas de destruição em massa, mas a questão é se quando Bush deu o sinal verde para guerra a ameaça iraquiana era clara e imediata.

Já as ameaças ao projeto americano para o pós-guerra são claras e imediatas.

Soldados estão morrendo em incidentes quase diários e existe o custo semanal da ocupação, na faixa de US$ 1 bilhão.

O recado do Pentágono perdeu o tom de autoconfiança. A mensagem agora é de que a ocupação pode ser longa, a resistência talvez seja organizada e mais tropas sejam necessárias para pacificar o país.

Com um certo pudor, a revista Time desta semana reconhece que a maioria do mundo nunca aderiu à lógica da Casa Branca, mas o Congresso, a opinião pública e a imprensa compraram o projeto iraquiano do presidente.

No entanto, quatro meses após o início da guerra, são crescentes os sinais de desconforto dentro dos EUA.

Para não mentir, está aí a própria capa da Time, com a seguinte manchete: “Inverdade & Conseqüências”.

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