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Analistas: Lula é bom 'patrão'
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está se saindo bem na posição de "patrão", ao enfrentar sua primeira greve dos funcionários públicos, na avaliação de especialistas. "Ele está fazendo o melhor possível, tendo uma conduta moderada", afirma José Pastore, professor da USP e especialista em relações do trabalho. A cientista política Sonia Fleury, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (Ebape-FGV), também aprova a maneira como a greve está sendo conduzida. "O governo está se saindo muito bem como patrão", afirma. "Encarando a paralisação de forma tranqüila e não tentando desqualificar o movimento, como fez o presidente Fernando Henrique Cardoso." Democracia Sonia acha que a greve não representa a rejeição dos funcionários públicos ao presidente que ajudaram a escolher, mas um sinal da maturidade da democracia no Brasil. "Os trabalhadores não deixaram de apoiar o governo, só estão reivindicando os seus direitos dentro do processo democrático", afirma. Ela acha que "faz parte do jogo político" o alinhamento de algumas centrais sindicais com o governo, enquanto outras se colocam como oposição. A greve dos funcionários públicos federais, que começou na terça-feira, está sendo organizada pela Cnesf (Coordenação Nacional de Entidades de Servidores Federais), uma central recém-criada, fruto de uma cisão na Central Única dos Trabalhadores (CUT), que não apóia o movimento. O risco maior, na avaliação de Pastore, é de um descasamento justamente entre a cúpula da CUT e a base de trabalhadores. "A direção entende que deve participar das decisões do governo, mas a base não é politizada", afirma. Pastore lembra que, como presidente, Lula se transformou de sindicalista no maior empregador do Brasil. Incluindo as empresas controladas pelo governo, são cerca de 1,5 milhão de trabalhadores. Ele lembra que o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, enfrentou uma situação semelhante quando chegou ao poder, em 1997. O Partido Trabalhista também tem suas origens nos sindicatos, mas Blair manteve em seu governo várias políticas adotadas pelo governo anterior. O risco enfrentado agora pelo presidente Lula, diz Pastore, é que a parte do funcionalismo público que está decepcionada com Lula se expanda para os trabalhadores do setor privado. Mas ele acha que esse risco, por enquanto, é remoto. A principal causa da insatisfação dos funcionários públicos, o não-reajuste dos salários com exceção de aumentos para algumas categorias específicas durante todo o governo Fernando Henrique, foi agravada com o projeto de reforma da Previdência proposta pelo governo. Os servidores reivindicam perdas acumuladas de 43,97%. Para o especialista em Finanças e Administração José Cezar Castanhar, também da Ebape-FGV, a greve é mais um dos testes que o governo teria que enfrentar. "Isso só mostra a complexidade de se administrar o país", afirma. Reforma Sonia Fleury diz que a timidez da proposta do governo para a reforma da Previdência torna difícil convencer os funcionários públicos de sua necessidade. "O governo está perdendo a oportunidade de fazer uma reforma mais inclusiva", diz. Ela acha que o governo deveria ter aproveitado a reforma da Previdência para incluir no sistema a parcela de trabalhadores (57,7% do total, pelas estimativas oficiais) que não paga e não tem cobertura da Previdência. Ela acha que, se o presidente Lula tivesse incluído benefícios mais abrangentes na proposta de reforma, teria sido mais fácil convencer os funcionários públicos de que eles deveriam dar sua contribuição e perder direitos. "Mas até agora a reforma só prevê a redução do déficit da Previdência pública", lamenta. |
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