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Bush vai à África movido por grandes ambições políticas
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, fará uma histórica viagem à África na próxima semana. Em seu giro pelo continente africano, ele pretende discutir alguns dos mais graves conflitos que estão abalando a região. Será a primeira viagem à África de um presidente pertencente ao Partido Republicano americano. Em sua "bagagem", Bush levará uma ampla agenda política. Ele irá visitar cinco países - Senegal, África do Sul, Botsuana, Uganda e Nigéria -cujos territórios se estendem por todo o continente africano e que são representativos dos problemas e das possibilidades da África. O presidente americano já se comprometeu a liberar verbas no valor de US$ 15 bilhões para que países africanos possam conter o avanço do vírus HIV e da Aids. HIV/Aids Bush também se dispôs a ampliar para US$ 10 bilhões a ajuda internacional aos países africanos cifra que seria destinada ao combate à corrupção e à abertura de mercados locais. Durante a recente posse de Rany Tobias, o novo coordenador para a Aids do governo americano, Bush disse que "milhões de vidas dependem do sucesso deste esforço e nós estamos determinados a ser bem-sucedidos". A administração americana pode estar pensando até em uma medida mais drástica que seria uma intervenção militar na Libéria para pôr fim à guerra civil e forçar a renúncia do presidente Charles Taylor. Os Estados Unidos também estão mediando um cessar-fogo no Sudão e podem estar planejando ter um papel mais ativo no incentivo às reformas no Zimbábue. O governo americano tem acusado o presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, de se agarrar ao poder e impedir a realização de eleições justas. Agenda global O ímpeto da viagem de Bush à África vem de várias direções. Antes de mais nada, Bush quer demonstrar que os Estados Unidos não estão negligenciando o bem-estar das populações pobres do mundo enquanto promovem sua guerra ao terrorismo. A economia africana está muito atrás da de outros países mundiais e a visita presidencial pode querer destacar os benefícios da globalização e da abertura dos mercados para estimular o crescimento econômico. De acordo com Chester Crocker, que foi secretário-adjunto para a África durante o governo Reagan, a viagem dará "uma resposta para aqueles que dizem que os americanos usam dois pesos e duas medidas ou que nós não nos importamos". Segundo Crocker, a passagem de Bush também oferece garantias não apenas aos africanos , mas também "aos nossos aliados e países-observadores". Em segundo lugar, ao se aliar à luta global contra o HIV e a Aids, Bush está também respondendo aos que o acusam de ter uma agenda ditada por seu eleitorado conservador e religioso. Essa política, anunciada no discurso do Estado da União, em janeiro, foi muito defendida por organizações religiosas que atuam na África. Por fim, após a guerra no Iraque, os Estados Unidos estão avaliando os prós e contras de atuar como polícia global na África.
Ao contrário do Departamento de Estado, o Departamento de Defesa, de Donald Rumsfeld, está resistindo à idéia de envolver tropas americanas no conflito. No início desta semana, Rumsfeld disse em uma entrevista coletiva que os Estados Unidos "não tinham interesses vitais" na África. Autoridades da área de Defesa argumentam que os americanos já possuem demasiadas tropas no exterior, com 150 mil soldados no Iraque e 10 mil no Afeganistão. Mas o secretário-adjunto de Estado para Assuntos Africanos, Walter Kansteiner, disse que "nossos filhos e nosso netos estão muito mais propensos a ter sérias relações financeiras, políticas e comerciais com a África". Kansteiner afirmou ainda que 25% das importações de petróleo dos Estados Unidos vêm da África. Países do oeste africano, liderados pela Nigéria, e por aliados americanos como a Grã-Bretanha, estão incitando os Estados Unidos a oferecer de 2 mil a 3 mil soldados para uma missão na Libéria que incluiria ainda 3 mil militares africanos. Nesta semana, o presidente Bush pediu que o presidente da Libéria, Charles Taylor, abdique do poder para responder por acusações de crimes de guerra. Bush afirmou ainda que os Estados Unidos estavam "explorando todas as opções para manter a situação estável e pacífica".
O Tribunal Especial para a Serra Leoa, apoiado pela ONU, expediu um mandado de prisão internacional contra Charles Taylor, acusando-o de dar apoio às "brutais ações" de guerrilheiros durante a guerra civil de dez anos no país. O conflito na Libéria deve ser o tema dominante nas conversas entre Bush e o presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo. Espera-se também que os Estados Unidos pressionam a Nigéria para combater a corrupção. O país africano, por sua vez, deverá pedir um alívio em dívidas contraídas junto a instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI). A situação no Zimbábue é um assunto que pode ser um tópico central nas conversas de Bush com o presidente sul-africano, Thabo Mbeki. Mas o líder americano provavelmente irá discutir, em caráter reservado, a pouco entusiástica adoção de ajuda ocidental no combate à Aids e ao HIV por parte de Mbeki. Mas os Estados Unidos apóiam entusiasticamente os planos de reforma econômica para a África, defendidos por Mbeki a destacar o plano de ação conhecido como Nova Parceria para o Desenvolvimento da África, ou Nepad (sigla em inglês). Países-modelo As três nações menores que Bush visitará são vistas como modelos do tipo de administração que o governo americano quer que sirvam de espelho para a África. Bush está impressionado com o modelo de combate à Aids e ao HIV implementado por Uganda e já recebeu na Casa Branca o presidente ugandense, Yoweri Kaguta Museveni. O secretário-adjunto Kansteiner já citou o Senegal como sendo um modelo de democracia para o oeste africano e como um país relativamente isento de corrupção. Os novos planos de aumento da ajuda econômica à África exigem a adoção de reformas econômicas e políticas como pré-condição para auxílios futuros. Outro pequeno país que constará da visita de Bush é Botswana, considerada um exemplo de boas práticas ambientais e promotora de uma forma responsável de turismo. No saldo final, a viagem de Bush apresenta uma ampla e possivelmente arriscada agenda, marcando uma nova fase nas suas ambições relativas a relações internacionais. Caso ele seja bem-sucedido, Bush pode firmar posição não apenas de um vitorioso na guerra como também a de um homem de paz, tanto aos olhos do mundo, como talvez mais importante, aos olhos da opinião pública americana. |
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