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Caio Blinder: a arrancada de Howard Dean nos EUA
No meio da multidão de nove pré-candidatos democratas às eleições residenciais americanas do ano que vem, Howard Dean é o destaque da temporada. Este médico nova-iorquino de 54 anos, de família rica e tradicional, já integrava o pelotão mais visível na corrida das eleições primárias democratas que promete ser a mais vasta e instável em 25 anos. Mas a arrancada de Howard (quem?) Dean ganhou pique nas últimas semanas. Para a surpresa de partidários e adversários, ele foi o candidato que mais arrecadou fundos de campanha no segundo trimestre, superando concorrentes com máquinas eleitorais bem mais azeitadas. A arrancada de Dean é inusitada em meio ao esforço do pelotão de concorrentes favoritos para não hastearem com todo o vigor as bandeiras democratas. Dean destoa porque sempre foi contra a guerra no Iraque, defende as tradições liberais do partido e mobiliza os jovens na sua campanha. Democrata Ele costuma começar os discursos dizendo: "Meu nome é Howard Dean. Eu represento a facção democrata do Partido Democrata". É um slogan apropriado do falecido senador ultra liberal Paul Wellstone. Na maratona democrata, os principais corredores partiram do Congresso, mas Dean foi governador por 11 anos do pequeno e excêntrico estado de Vermont. Como lembrou a revista New York, Vermont tem 600 mil habitantes, três vezes menos do que o bairro nova-iorquino de Queens. O único deputado socialista na Câmara é de Vermont, assim como o único senador independente. Dean ganhou um nicho no mercado eleitoral com sua postura em relação ao Iraque. Não deve, porém, ser confundido com uma "pombinha" ingênua. Agenda Agora no pós-guerra, com um pouco de oportunismo, ele diz que a queda de Saddam Hussein foi uma "boa coisa", mas insiste que a superpotência americana precisa "ser sábia e cuidadosa para usar seu pleno e máximo poder". Ademais, Dean não deseja ser visto como o candidato de um tema só. Quer humanizar a assistência médica no selvagem capitalismo americano, proteger o meio ambiente com mais afinco e avançar a agenda social. Em Vermont, ele firmou uma legislação que permite a união entre casais gays, única no país. Dean, no entanto, choca os liberais por ser contra um controle rígido de armas e sua pregação de disciplina fiscal parece receituário do FMI. O ex-governador de Vermont não foi o único pré-candidato contra a guerra. Há outros mais radicais, como o ativista negro Al Sharpton, mas esta concorrência até convém para Dean, pois ele se torna mais aceitável para o "centrão" político. Liberalismo Dean, no entanto, assume o seu liberalismo e diz que sua corrida rumo a 2002 é uma luta pela alma do Partido Democrata. Para ele, faturar a Casa Branca com um democrata conservador será uma derrota. Na sua arrancada, Howard Dean tem torcida entusiasmada de Karl Rove, o mago político que coordena a campanha de reeleição de George Bush. Já o establishment democrata acompanha com inquietação o avanço de Dean. Lembra com horror o que aconteceu em 1972, no meio da guerra do Vietnã. O partido indicou o pacifista George McGovern para enfrentar Richard Nixon nas eleições presidenciais. Foi uma lavada. MacGovern ganhou em apenas um Estado. A marcha do pós-guerra no Iraque está bem mais atribulada do que o governo americano calculara, mas é cedo para estimar o impacto que isto terá nas eleições de 2004. Ainda não dá para saber se Howard Dean é um penetra na maratona das primárias ou o líder de uma insurreição histórica contra a visão de mundo de George W. Bush. |
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