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Kirchner assume e diz que dívida externa não é prioridade
O novo presidente da Argentina, Néstor Kirchner, assumiu o poder afirmando que "não pagará a dívida externa em troca do maior empobrecimento do povo". Em seu discurso no Congresso, ele também reivindicou a "soberania das ilhas Malvinas" - que desde a guerra de 1982 pertencem à Grã Bretanha. Logo após, quebrou o protocolo e caminhou entre os eleitores concentrados em frente à Casa Rosada. Na confusão, acabou cortando a testa e foi obrigado a voltar segurando um lenço sobre o machucado para conter o sangue. Kirchner deu posse aos ministros com um curativo que não ocultou o inchaço. Longo discurso No longo discurso, no Congresso, logo após receber a faixa e o bastão presidenciais, o novo presidente argentino criticou os especuladores do mercado financeiro, defendeu o fortalecimento e ampliação do Mercosul e a maior integração política da América Latina. Néstor Kirchner falou para um parlamento lotado, sob olhar atento da mulher, a senadora Cristina Fernández, sentada entre os parlamentares, e de treze chefes de Estado e de governo, como Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil; Ricardo Lagos, do Chile; Hugo Chavez, da Venezuela: e Fidel Castro, de Cuba, entre outros. Fidel, Chavez e Lula nesta ordem foram os mais aplaudidos pelos presentes. Já com a faixa presidencial, Néstor Kirchner brincou com o bastão de madeira, o que levou os presentes a concluírem que ele terá que fazer malabarismo para governar o país que está saindo da pior crise da sua história. Ele ressaltou ainda que nos seus quatro anos e seis meses de governo, que terá pela frente, combaterá a corrupção e a impunidade no país, defenderá o respeito às instituições e uma política econômica que gere igualdades sociais. Néstor Kirchner não poupou críticas à política econômica argentina dos anos 90, liderada pelo ex-presidente Carlos Menem, a quem não se referiu pelo nome, e avisou que não vai promover "alinhamentos automáticos" com outros países (leia-se Estados Unidos), mas "relações sérias e maduras". Esta semana, o novo ministro das Relações Exteriores, Rafael Bielsa, já havia antecipado que o governo Kirchner vai dar prioridade ao Mercosul e deixará no passado as "relações carnais" com os Estados Unidos, promovidas pelo governo Menem. "Nosso país deve estar aberto ao mundo, mas de maneira realista, fundamentalmente através do Mercosul", afirmou. Kirchner disse ainda que a década de 90 foi marcada pela concentração de riquezas, pela indiferença ao aumento da pobreza e do gasto público "exagerado". "No nosso governo, não vamos gastar mais do que se arrecada e o equilibrio fiscal e das contas públicas será nossa meta permanente", prometeu. Kirchner pretende melhorar a qualidade de vida dos mais pobres e da classe média, combatendo a evasão fiscal e mantendo a governabilidade. "Mas governabilidade não pode ser sinônimo de impunidade ou de acordos feitos às escondidas da sociedade", alertou. "Governabilidade será ter um país mais justo". Para o novo presidente argentino, entrou em "colapso" a era dos anúncios "espetaculares" e da "desilução permanente". Na sua opinião, sua administração representará a "era de mudanças" porque será marcada pelo trabalho diário e pela busca do consenso da sociedade. Logo após dar posse a seus ministros, na Casa Rosada, Kirchner e a mulher, além do vice-presidente Daniel Scioli, saíram ao tradicional balcão da Casa Rosada para acenar para o povo. Aquela sacada entrou para a história na época do casal Juan Domingo Perón e Evita. Em seguida, o novo presidente argentino e seus ministros caminharam em meio à multidão até a Catedral da cidade, onde assistiram à tradicional missa da posse. América Latina Do lado de fora, na Praça do Congresso, sob céu azul e um frio de 5ºC, seus eleitores batiam bumbos manifestação tradicional entre os peronistas e erguiam faixas e cartazes. Um deles dizia: Viva a América Morena: Lula, Fidel, Chavez e Kirchner. Logo depois do seu discurso, ele saiu à escadaria do Parlamento e, ao lado do antecessor Eduardo Duhalde, jogou beijos para a platéia. Apesar do tumulto, entre fotógrafos e seguranças, ele não deixou de sorrir. Ao sair do Congresso para a Casa Rosada, Kirchner, agora com a mulher, rompeu o protocolo novamente. Caminhando, abraçou o povo, enquanto alguns gritavam. Não nos decepcione, presidente. Outros choravam. Acusado, durante a campanha eleitoral, de não ter carisma, Kirchner passou mais de meia hora andando de um lado para o outro, enquanto apertava a mão e abraçava pessoas. Na confusão, em plena histórica Praça de Maio, recebeu beijos, empurrões e prometeu governar com responsabilidade. Kirchner e é o 52º presidente da Argentina e o sexto em menos de quatro anos, já que após a renúncia de Fernando de la Rúa, em dezembro de 2001, cinco presidentes passaram pela Casa Rosada. Ele chega à Presidência com o menor percentual de votação da história do país (22,45%), graças a renúncia de Carlos Menem a concorrer ao segundo turno para não ser derrotado. Hoje, no entanto, o novo presidente tem a aprovação de 70% da população. Dívida e Miséria Neste domingo, nos 47 minutos que levou discursando, Néstor Kirchner avisou que pagará a dívida externa da Argentina em moratória desde dezembro de 2001 mas quando e como o país puder. Não podemos pagar dívidas ao preço de mais fome dos argentinos. Os que têm crédito com o país devem entender que só poderão receber se a Argentina for bem, avisou. Kirchner sugeriu a renegociação desta dívida (US$ 70 bilhões ou cerca de 50% do PIB), com redução do montante dos seus juros e com a ampliação dos prazos para o pagamento do que se deve. A nossa dívida é um problema central. Não podemos mais pagar esta dívida com a miséria do povo, insistiu. No seu discurso, Néstor Kirchner falou ainda sobre a polêmica que gerou, esta semana, com o anúncio de seus assessores de que ele vai demitir 50 generais, almirantes e brigadeiros das Forças Armadas. Queremos as Forças Armadas comprometidas com o futuro e nao com o passado, disse. Com a declaração, ele tentou, segundo auxiliares, afastar fantasmas da discórdia que surgiram nas últimas horas entre a direita e a esquerda do país, dividida desde a última ditadura, nos anos setenta. O próprio Kirchner se define como um homem de centro, mas nos anos 70 ele foi integrante de uma ala da esquerda da Juventude Peronista. Hoje, porém, o presidente eleito fez questão de deixar claro que não governará com "rancores". "Sem rancores, mas com memória, inclusive sobre nossos erros", desabafou. Segundo o novo ministro da Defesa, José Pampurro, os novos comandantes e integrantes da cúpula das Forças Armadas, são ou foram comandantes nas províncias da Patagônia a região de onde vem o novo presidente. "Mudamos a cúpula para integrar os militares à sociedade", justificou o próprio Pampurro, tentando afastar perseguições políticas contra os que foram indicados por De la Rúa e tinham mandato até dezembro próximo. |
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