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Esperança provisória no Oriente Médio
O cessar-fogo decretado por grupos radicais palestinos e a retirada israelense de um naco de terra em Gaza são trôpegos passos positivos no roteiro da paz do Oriente Médio que finalmente está sendo impulsionado pela diplomacia americana. São boas medidas incapazes de gerar frustração. Isto porque tal sentimento depende de altas expectativas e, como o ceticismo e suspeita são as moedas correntes na região, o fracasso irá apenas confirmar os temores. Mais de uma dúzia de tréguas ja foram declaradas desde que a intifada (insurreição palestina) explodiu - e nenhuma durou muito tempo. Israel já se retirou de territórios ocupados, para reocupá-los quando considerou conveniente. Diferenças Mas há algumas diferenças. Em termos puramente logísticos, é importante lembrar que este é o primeiro cessar-fogo coordenado pelas três principais facções armadas palestinas. E esta retirada israelense ocorre após um lendário falcão como o primeiro-ministro israelense Ariel Sharon ter admitido o efeito corrosivo que a ocupação exerce sobre o ocupante. Mais do que isso, os passos positivos foram dados após semanas horríveis marcadas por espetaculares atentados suicidas palestinos e uma onda de assassinatos de dirigentes do grupo Hamas empreendida por Israel. O roteiro da paz sobreviveu a essas provocações e aqui é preciso reconhecer a perseverança da diplomacia americana, que não fugiu ao primeiro sinal de fogo, como muitos temiam. O roteiro sobreviveu, mas nada garante que irá resistir a novos trancos e às condições apregoadas por ambas as partes para seguir adiante. Mais do que um cessar-fogo, Israel quer o desarmamento e a prisão de militantes radicais para que os atentados suicidas não sejam retomados, uma exigência que nem o moderado primeiro-ministro palestino Mahmoud Abbas pode e deseja atender. De qualquer forma, os dois lados estão conscientes das vantagens dos avanços diplomáticos. Os 33 meses do ciclo de violência simplesmente atingiram um ponto de exaustão. Não é à-toa que esta fase do conflito entre israelenses e palestinos já foi denominada a guerra dos mil dias. Sharon sabe que pode fazer algumas concessões. Afinal, sempre será menos do que o trabalhista Ehud Barak ofereceu nas negociações mediadas pelo ex-presidente Clinton. E grupos radicais como o Hamas mostram uma certa dose de pragmatismo ao concordar com o cessar-fogo, diante da constatação de que a massa palestina quer um mínimo de normalidade, ou seja, condições para voltar a trabalhar em Israel e deixar de ser dano colateral nas retaliações de Sharon contra a liderança dos grupos radicais. Cinicamente, sempre estará à disposição o ritual de culpar o outro lado pelo fracasso da trégua. E para os americanos não há dúvida que é fundamental mostrar serviço diplomático. O fim da violência, mesmo que apenas temporiariamente, é uma injeção de credibilidade para o governo Bush. Tudo isso não chega a ser uma farsa, mas é um jogo de cena que no final das contas poderá trazer resultados positivos. Shlomo Avineri, professor de Ciências Políticas da Universidade Hebraica, de Jerusalém, escreveu no jornal Financial Times que o roteiro de paz é basicamente uma lista de intenções de implementação quase que impossível. Para Avineri, antes de tudo, é preciso deixar de lado a idéia de soluções definitivas e grandiosas para a crise do Oriente Médio. O investimento deve ser em medidas provisórias como a redução da violência e um cessar-fogo duradouro. Passos trôpegos, mas para frente, já são um lucro incalculável nesta guerra de mil dias. |
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