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O blogger de Bagdá
Durante o auge da guerra contra o Iraque e a escassez de informações a chegar ao Ocidente, os informes mais eloqüentes nos chegaram graças a esse novo fenômento dentro da Internet: o blogger, ou seja, aquela pessoa que com seu diário, suas notas e impressões, vai expondo seu mundo ao mundo lá fora. Causou sensação o blog de um indivíduo em Bagdá narrando, em inglês da melhor categoria -- objetivo, claro, conciso , o cotidiano de sua cidade debaixo da guerra. Assinava-se Salam Pax (paz, em árabe e latim), e, devido à alta qualidade de seu texto, muitos duvidaram de sua autenticidade. O jornal britânico The Guardian começou a publicar com o maior sucesso os blogs de Salam Pax. Passada a invasão e chegada a ocupação, Salam Pax se revelou parcialmente em entrevista onde não deu o nome verdadeiro ou se deixou fotografar. Era um iraquiano que estudara arquitetura em Viena e ganhava a vida como intérprete para jornalistas. Como qualquer ser racional detestava o regime de Sadam Hussein, embora mantivesse uma saudável desconfiança dos motivos e da capacidade administradora das forças de ocupação. O Guardian teve uma idéia ótima. Contratou Salam Pax, que agora escreve uma coluna quinzenal para o jornal. Deveria ser semanal. Na mais recente, Salam Pax fala das dificuldades daquilo que seu nome prega: a paz. Os dois mil funcionários do Ministério da Informação demitidos. A ração da programação de TV imposta pelos aliados (desenhos animados japoneses antigos). A preferência pelos aparelhos de TV de 14. A programação da Al-Jazeera. A ausência de leis. Os golpistas criados pelas crises. As portas abertas das prisões. As filas para tudo. Os mercados brancos, negros e cinzas. As escolas estranhamente abertas, funcionando e já com exames marcados para julho. Conversas com aqueles grandes comentaristas da História, os motoristas de táxi. E assim por diante. Salam Pax se revela pouco. Ele narra. A narrativa é seu comentário. Que é como deve ser. Melhor relato, difícil. Salam Pax também gostava muito mais de quando era difícil sintonizar o Serviço Mundial da BBC. Agora, o som vem em FM. Talvez o mesmo aconteça com ele. Era melhor sintonizá-lo quando coberto de estática. |
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