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Um seqüestro mal explicado | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Tanto o método como os resultados do governo de Alejandro Toledo no caso do seqüestro na província de Ayacucho servem para explicar seu evidente fracasso antes mesmo de completar dois anos no poder. A atribuição do seqüestro ao grupo guerrilheiro Sendero Luminoso despertou ceticismo. O governo viu-se forçado a desmenti-la, mas sem deixar muito claro se foi simplesmente falsa ou apenas faltam provas. O resultado foi uma perda de credibilidade que acrescentará às dificuldades políticas de um governo que tem-se caraterizado por não fazer aquilo que prometeu fazer durante a campanha eleitoral. Para alguns observadores a maneira como o governo gerenciou a crise evocou a memória de como Alberto Fujimori manipulava a luta contra o terrorismo para inflar a sua popularidade. Mas Toledo é muito menos hábil. Pouco depois dele ter-se gabado de que as forças da ordem tinham “resgatado” os seqüestrados, seu primeiro-ministro, Luis Solari, esclareceu que não houve heróicos combates. Os seqüestradores simplesmente deixaram em liberdade suas vítimas quando as Forças Armadas se aproximaram. Estas oscilações têm caraterizado o estilo de governo de Toledo. Eleito como um tecnocrata sem vínculos com a desprestigiada classe política peruana, Toledo iniciou seu governo com o que agora parece excessiva vontade de diferenciar-se do autoritarismo de Fujimori. Esta atitude, contudo, teve como principal resultado que as profundas reformas que havia prometido afundaram em episódos de baixa política que Toledo, como não-político, supostamente devia superar. Para os analistas políticos a recente truculência com que Toledo tem reagido ante as últimas crises representa uma tardia, porém inepta, tentativa de mostrar que está controlando a situação. Mas a óbvia fraqueza de seu governo está abrindo espaço aos sindicatos e grupos de pressão. De fato, Toledo tem pouca autoridade para pedir aos trabalhadores um período de austeridade depois de ter tentado aumentar o próprio salário a 18 mil dólares por mês (pressionado, teve de contentar-se com 12 mil). Nem tudo é negativo no governo Toledo. A economia peruana, por exemplo, cresceu mais de 5% em 2002, o que é uma pequena façanha num contexto hemisférico sombrio. Mas o déficit fiscal só poderá piorar, e tornar-se insustentável, com as concessões que Toledo se vê forçado a fazer ao funcionalismo devido a seu escasso talento para negociar. A atmosfera de crise permanente do governo Toledo pode também ter efeitos negativos no âmbito regional. O sucesso do combate ao narcotráfico na Bolívia e na Colômbia pode ter como resultado uma migração do tráfico para outros países, e o Peru é um dos candidatos naturais. Num país convulsionado, o crime organizado pode instalar-se e crescer com rapidez. Essa expansão poderia afetar o Brasil. A possibilidade é especialmente alarmante se a confusão quanto aos autores do seqüestro tiver causas ocultas. Por exemplo, uma aliança entre os remanescentes de Sendero Luminoso com o narcotráfico, seguindo o modelo colombiano. A combinação de guerrilha com narcotráfico é temível, e é sem dúvida uma ameaça a nível regional, como demonstra o caso colombiano, que já tem afetado a fronteira com a Venezuela. |
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