Como o Lego tornou-se um campo de batalha de gêneros?

Crédito, Divulgacao
- Author, Tom de Castella
- Role, BBC News Magazine
A fabricante Lego acaba de lançar três novos personagens: um paleontólogo, um astrônomo e um químico. Nada muito surpreendente. Exceto pelo fato de que são todos mulheres.
Em uma época em que se critica a produção sem fim de itens rosas para meninas e o marketing infantil sexista, a nova safra de Lego - o Research Institute (Instituto de Pesquisa, em tradução livre) pode ser significativo.
Muitas lojas de brinquedos têm uma seção totalmente dedicada a meninas, com bonecas, produtos de artesanato e limpeza, diz Heather Williams, física-médica e co-diretora do grupo ativista Science Grrl.
Em contraste, aos meninos são oferecidos itens de ciência, construção e batalhas. Estereótipos estão enraizados cedo, ela argumenta.
"As meninas são relegadas a funções de cuidado e os meninos ficam com os personagens protagonistas. Eu não acho que isso é saudável.", diz.
O Lego encontra-se, portanto, em uma posição estratégica no campo de batalha que se tornou o debate sobre brinquedos e estereótipos de gênero.
A empresa não só é a segunda maior fabricante de brinquedos do mundo - atrás da Mattel -, mas uma companhia associada a uma campanha de infância mais saudável.
Salão de beleza
A empresa dinamarquesa foi fortemente criticada pela série Lego Friends, destinada a meninas e lançada há dois anos.
Os personagens eram cinco mulheres que vivem na região fictícia de Heartlake e incluía um salão de beleza, um veterinário, piscina e carro conversível.
Críticos atacaram as cores pastel e a vida de lazer dos personagens. Eles disseram que a série não tinha elementos de "construção" de ensino equivalentes aos produtos destinados aos meninos.
E, em fevereiro deste ano, uma garota de sete anos de idade, Charlotte Benjamin, escreveu uma carta furiosa à Lego - que foi amplamente divulgada - sobre a falta de personagens femininos fortes.
A nova série de cientistas foi lançada na semana passada e já esgotou. Outro lote deve ser disponibilizado no final deste mês.
A empresa nega que os novos personagens foram projetados para apaziguar críticas feministas e ressalta que a nova série foi uma ideia votada pelo público.
A coleção Instituto de Pesquisa foi proposta pela geocientista Ellen Kooijman e apoiada em uma votação pública em um site de financiamento coletivo da Lego.
Kooijman escreveu que queria combater "uma visão masculina/feminina distorcida e uma representação bastante estereotipada das figuras femininas". Ela está satisfeita com o resultado.

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A Lego não alterou quase nada os projetos da geocientista, embora tenha acrescentado maquiagem, algo que "ela desencoraja fortemente" no laboratório. Mas ela não tem qualquer objeção aos ajustes feitos para as crianças, diz.
Então, o que as feministas pensam das mulheres cientistas?
Becky Francis, professora de educação e justiça social do King's London College, que estava "muito, muito desapontada" com a coleção Lego Friends, é fã.
Calças em vez de glamour
A nova coleção mostra mulheres fazendo trabalhos intelectualmente exigentes. E ela acredita que a Lego teve que "pensar muito" para criar os personagens com a aparência correta. Eles vestem calças e olham de maneira prática, ao invés de forma glamourosa.
À primeira vista, ela relutou diante do batom utilizado e o fato de ostentarem um lenço rosa. Mas é uma maneira útil de banir a imagem "sabichona" de mulheres que fazem trabalhos sérios, ela argumenta.

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Outros dizem que a Lego deve retornar à abordagem das décadas de 1970 e 1980 e não segmentar seus personagens por gênero. Um artigo publicado no início deste ano no site Huffington Post gerou bastante interesse ao comparar os cartazes de marketing das décadas anteriores com o marketing desenvolvido para a coleção Amigos Lego.
No passado, os cartazes mostravam meninas em roupas largas segurando montagens complicadas com chamadas como "Olha o que eu construí com Lego!" As feministas argumentam que a ênfase passou de construção e montagem das peças para o cabelo e a beleza.
"Eram brinquedos de construção puros, bastante inclusivos", diz Francis. "Mas ao longo dos anos, à medida que começou a produzir personagens de filmes e produtos licenciados, eles fizeram mais marketing com os garotos e deixaram as meninas de lado."
Foi nesse contexto que a coleção Amigos Lego foi lançada - e por isso o brinquedo causou mais polêmica, argumentam as feministas.
Megan Perryman, uma militante da Let Toys Be Toys (Deixe que os brinquedos sejam brinquedos, em tradução livre), diz que as coleções Lego tinham personagens femininos positivos, com os da brigada da polícia e do corpo de bombeiros. Mas trata-se de proporções.
"Ainda há muito mais figuras masculinas em papéis de ação. E a nossa principal preocupação com (os brinquedos) Lego tem a ver com o marketing desenvolvido por eles e o fato de que raramente colocam meninas e meninos brincando com o mesmo brinquedo como acontece na vida real."
David Robertson, um ex-professor de inovação da Lego do Instituto da Suíça para o Desenvolvimento de Planejamento, diz que as críticas são injustas.
"Se a Lego ainda estivesse comercializando os produtos como eles costumavam fazer, eles teriam falido."
Em seu livro Brick by Brick (Tijolo por Tijolo, em tradução livre), ele detalha o medo da empresa no final dos anos 1990 de que o Lego virasse em breve um brinquedo obsoleto.
As patentes estavam expirando e era necessária uma nova abordagem. Diante disso, a empresa focou em histórias, o que na prática significava criar produtos licenciados, como o Star Wars e Harry Potter.
Hoje, a Lego é a empresa de brinquedos que mais cresce no mundo, diz Robertson.
Para ele, a coleção Amigos Lego era justificável. A empresa tornou-se demasiadamente focada em meninos e era necessário entender quais tipos de personagens atrairiam as meninas, diz ele.
"Se você acredita que o Lego é um brinquedo saudável para as crianças brincarem, por que não fazer histórias diferentes que atraem pessoas diferentes?"
No velho debate sobre a forma como as crianças são criadas, o humilde tijo Lego tornou-se um símbolo poderoso.
























