Oposição venezuelana aprofunda divisões mesmo com conjuntura 'favorável'

Crédito, Reuters
- Author, Claudia Jardim
- Role, De Caracas para a BBC Brasil
Crise econômica, escassez de produtos básicos, inflação, alta criminalidade e a ausência do carismático líder Hugo Chávez, pilar da revolução bolivariana. A mais difícil conjuntura enfrentada pelo chavismo não tem sido vista pela oposição venezuelana como um elo capaz de uni-la em torno de um projeto único.
A ala radical da oposição - que até agora esteve "controlada" pela chamada "ala moderada" do anti-chavismo - decidiu colocar em xeque a unidade da coalizão opositora e optar pela "via rápida" para tentar derrocar o governo do presidente Nicolás Maduro.
A fissura na oposição se acentuou com a articulação de um plano, liderado pelo dirigente político Leopoldo López e por Maria Corina Machado, deputada ultraconservadora, cujo objetivo é obrigar Maduro a renunciar a curto prazo.
Para alcançar a "via rápida" de tomada do poder, eles apostam na mobilização de jovens estudantes anti-chavistas.
"Ainda acreditam que devemos esperar até 2019 (fim do mandato de Maduro) para sair deste regime?", questionou López, em seu perfil no Twitter, ao convocar a população à manifestação desta quarta-feira, que deixou dois manifestantes mortos e outro em estado grave, além de 23 feridos.
Racha
Na avaliação do analista político Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV) , ao recorrer a saídas radicais, como protestos violentos, este setor da oposição perde a oportunidade de capitalizar as contradições governamentais e de se projetar como uma alternativa real ao chavismo.
"A conduta radical da oposição ameaça o patrimônio democrático construído nesses últimos dois anos", afirmou Romero à BBC Brasil.
Romero se refere ao trabalho feito pela oposição para apagar a imagem de golpista impresso à direção anti-chavista depois do golpe de Estado de 2002. Demonstrar à população que havia optado pela via democrática e reconstruir sua base eleitoral custou anos e e seguidas derrotas eleitorais até a constituição da coalizão Mesa de Unidade Democrática (MUD), em 2011.
As fissuras na MUD ocorrem desde dezembro, quando o chavismo manteve sua hegemonia à frente das prefeituras do país. Entre os pivôs da crise está a falta de consenso sobre como atuar e manter a coalizão viva em um ano sem eleições.
A ala moderada defende a confrontação direta com o governo para evidenciar as contradições, de olho nas eleições de 2019. Já os radicais apostam na pressão social para tirar o chavismo do poder no curto prazo. Outro ponto de discórdia é se Henrique Capriles, ex-candidato presidencial e governador do estado de Miranda, deve continuar ou não sendo o líder da chamada Unidade.
Projeção
De olho em tornar-se uma alternativa a Capriles, Leopoldo López, fundador do partido conservador Voluntad Popular, utiliza o radicalismo para projetar-se como uma nova liderança no interior da coalizão opositora.
"López tenta capitalizar sua proposta em torno a um descontentamento crescente da classe média e de parte dos estudantes", afirma Romero.
Restritas inicialmente a alguns estados, as manifestações cresceram quando um grupo de opositores atacou um hotel na Ilha de Margarita durante partidas de basebol, em protesto contra a presença de jogadores cubanos, na semana passada. Sete manifestantes foram presos.
O tom agressivo impresso aos novos protestos da oposição evidenciou a disputa entre López e Capriles - este último mantém postura mais moderada e pediu que os venezuelanos "protestem sem violência".
Também na semana passada, a residência oficial do governador chavista em Mérida, José Vielma Mora foi atacada por opositores com os rostos cobertos, que portavam pedras, paus e gasolina, de acordo com as autoridades. O governo acusou a Leopoldo López de incitar as ações violentas.
"Querem derrocar o governo legítimo que eu presido", disse Maduro na noite da terça-feira.
Protestos
Os protestos desta quarta-feira em Caracas reuniram milhares de pessoas, críticas ao governo de Maduro e à crise econômica venezuelana.
Ao final da manifestação, um grupo de jovens com os rostos cobertos atacou a fachada do Ministério Público com pedras e paus. Quatro veículos da polícia foram incendiados. De acordo com relatos de fotógrafos presentes, um grupo de motoqueiros armados se aproximou do local e disparou contra os manifestantes. Um estudante opositor e um militante chavista foram atingidos.
Já Maduro afirmou ter "indícios" de que os disparos teriam sido feitos por franco-atiradores e fez alusão ao golpe de 2002.
Diferentemente de manifestações de anos anteriores, os protestos desta quarta não foram transmitidos ao vivo nem pelos meios estatais, nem pelas emissoras privadas.












