Boicote da URSS fez Chile jogar eliminatória da Copa sem adversário

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Crédito, BBC World Service

Legenda da foto, 'Foi ridículo', disse zagueiro Figueroa, que não aparece na foto; 'Camacho' Valdés (à esquerda) e colegas avançam rumo a gol vazio
    • Author, Thomas Pappon
    • Role, Da BBC Brasil em Londres

Com um gol relâmpago, após uma relaxada troca de passes entre quatro jogadores, como se estivessem em um passeio a caminho do gol, o Chile assegurou, no dia 21 de novembro de 1973, uma vaga na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.

O jogo terminou imediatamente após o gol, pois não havia adversário em campo: a equipe oponente, a União Soviética (URSS), tinha se recusado a jogar no Estádio Nacional de Santiago.

Assim ocorria, há exatos 40 anos, o primeiro e único boicote de uma partida ligada aos quase 85 anos de história das Copas do Mundo.

"Foi ridículo", conta à BBC Brasil o zagueiro chileno e ídolo do Internacional de Porto Alegre Elías Figueroa. "Entrar no campo sozinhos e fazer um gol, sem adversário. O jogo começou, nós avançamos, e o Valdés fez o gol, não tinha ninguém na frente."

Graças ao YouTube, <link type="page"><caption> é possível ver esse "jogo"</caption><url href="http://www.youtube.com/watch?v=Fb5KpkSajpw" platform="highweb"/></link>, os onze atletas chilenos no meio do campo saudando os cerca de 20 mil torcedores presentes, o pontapé inicial, a troca incólume de 9 passes, o chute derradeiro do capitão, Francisco "Chamaco" Valdés , estufando a bola nas redes do gol vazio e os jogadores se abraçando na comemoração.

Esse "não-jogo" foi um dos raros casos de influência direta da Guerra Fria sobre o mundo do futebol. A União Soviética tinha anunciado publicamente, em outubro de 1973, que não jogaria no mesmo estádio que vinha sendo usado desde o golpe militar no Chile — no dia 11 de setembro — como um centro de detenção e tortura de prisioneiros políticos.

Repescagem

A União Soviética, como nona colocada das eliminatórias europeias, disputava uma vaga de repescagem com o terceiro da América do Sul, o Chile. Era a primeira vez na história das Copas que uma equipe europeia disputava um play-off com uma equipe sul-americana (na Copa seguinte, em 1978, a Hungria ganhou a vaga em cima da Bolívia).

A primeira partida foi realizada em Moscou, no dia 26 de setembro, e terminou empatada sem gols, para surpresa dos que esperavam uma goleada da dona da casa, que era vice-campeã europeia e tinha no ataque o maior goleador da história do futebol soviético, o ucraniano Oleg Blokhin - que viria a ser eleito o melhor jogador europeu em 1975.

Figueroa, que diz ter chegado a Moscou de avião no dia do jogo, admite que a partida "foi praticamente toda disputado na grande área" da defesa chilena.

Foto Reprodução Twitter @FigueroaChile

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Legenda da foto, Figueroa, ídolo no Chile e no Brasil, eleito melhor zagueiro da Copa de 1974

"A Rússia dominou, foi em cima, em cima...saí com dor de cabeça de tanto cabecear bolas para fora da área".

Golpe militar

Em plena Guerra Fria e ainda a mais de dez anos da perestroika — o gradual processo de abertura política capitaneado por Mikhail Gorbachev —, a União Soviética ainda era um país fechado, um Estado repressor que controlava a vida dos cidadãos e tratava dissidentes com mão de ferro.

O país ainda se via como um bastião de oposição e alternativa à influência ideológica, política e comercial dos Estados Unidos sobre o resto do mundo, e, por isso, os russos e cidadãos das outras repúblicas soviéticas puderam acompanhar de perto os acontecimentos no Chile. Era o raro caso de um país liderado por um socialista e marxista autodeclarado, o presidente Salvador Allende, em um continente visto como "quintal" dos Estados Unidos.

"Os noticiários davam grande destaque aos eventos no Chile, ainda antes do golpe", conta Alexandre Kan, jornalista da BBC Russia, com 19 anos na época. "Allende era um herói da luta contra o fascismo. (O poeta) Pablo Neruda e (o poeta e compositor) Victor Jara eram nomes bem conhecidos na URSS, a população sabia dos acontecimentos no Chile, e que o Estádio Nacional vinha sendo usado como centro de detenção e tortura".

Por isso causou pouca surpresa no país o pedido feito pela Federação Soviética de Futebol à FIFA para que a partida de volta, em Santiago, fosse realizada em alguma nação vizinha ao Chile, porque, segundo um comunicado oficial, "os atletas soviéticos não poderiam, por razões morais e em respeito ao sangue derramado de patriotas chilenos", disputar a partida no famigerado Estádio Nacional.

Após a recusa da FIFA, a federação soviética lançou outra nota, atacando a entidade por "ignorar os crimes horríveis perpetrados pela Junta Militar" e se dizendo "forçada a se recusar a disputar" a partida em Santiago.

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Legenda da foto, 'É gol!': Valdés estufa as redes e URSS está oficialmente eliminada da Copa 74

E assim, pela primeira vez desde 1958, a União Soviética ficava de fora de uma Copa. Em casa, o anúncio causou, segundo Kan, "mais uma sensação generalizada de irritação".

"Mas, claro, não houve protesto ou alguma oposição pública à ideia, isso teria sido impossível. A insatisfação era manifestada em conversas privadas, em casa ou no trabalho, durante uma pausa para fumar um cigarro", conta o jornalista russo.

Chile 0 x 5 Santos

Figueroa conta que os jogadores chilenos ficaram sabendo que os soviéticos não viriam "na concentração, um dia antes do jogo". "Disseram que a União Soviética não viria, e que haveria um amistoso contra o Santos. Celebramos (a classificação para a Copa na Alemanha) até tarde."

O zagueiro conta que só na hora de entrar no campo é que ficou acertado entre os jogadores que o gol seria feito ou por Valdés ("ele era o mais antigo da seleção") ou pelo artilheiro e craque do time, Carlos Caszely.

Encerrada a formalidade da "classificação" para a Copa, a seleção ficou em campo para o amistoso com o Santos, vencido pela equipe paulista por 5 a 0, dois gols de Nenê, dois de Edu e um de Eusébio.

O Chile faria sua estreia na Copa de 1974 contra a anfitriã, a Alemanha Ocidental, perdendo por 1 a 0. Depois empataria com a Alemanha Oriental e a Austrália, ficando em terceiro no grupo e se despedindo do torneio.

Os jogos do Chile na Copa foram boicotados pela TV russa. Mark Grigoryan, jornalista da BBC Russia que vivia na então república soviética da Armênia, contou que assistiu ao jogo de estreia do Chile "em um canal de TV turco que pegava lá em Erevan (capital da Armênia)".

A seleção chilena, na época da Copa, "era bastante unida", disse Figueroa, eleito o melhor zagueiro do torneio, apesar das supostas diferenças políticas entre alguns jogadores — Caszely, por exemplo, foi crítico ao regime militar e teria se recusado a cumprimentar Pinochet em uma visita da seleção ao Palácio de La Moneda, sede do governo.

"A gente conversava, ninguém gostava da situação (política no país), muita coisa não se sabia, só ficou-se sabendo com o tempo".