Queda de 2ª empresa em duas semanas amplia sangria do grupo de Eike

Obras no porto de Açu, parte do grupo de Eike, em abril (Reuters)
Legenda da foto, Porto de Açu teve seu projeto reduzido e pode entrar nas negociações da OSX

Cerca de duas semanas após o pedido de recuperação judicial da OGX, petroleira do grupo de Eike Batista, sua empresa "irmã", a empresa de construção naval OSX, seguiu o mesmo caminho.

Com dívidas de R$ 5,3 bilhões (sendo que R$ 4 bilhões devem estar no plano de recuperação judicial), a empresa anunciou seu pedido de recuperação judicial nesta segunda-feira, o que significa que terá 60 dias (após o pedido ser aprovado pela Justiça) para apresentar um plano de reestruturação que será negociado com credores. O processo deve levar, no total, seis meses.

A OSX foi "contaminada" pela crise na empresa "irmã" por ser sua fornecedora, ainda que sua situação não seja considerada tão preocupante quanto a da OGX.

Isso porque, ao contrário da petroleira, a OSX tem ativos (plataformas) cujo valor estimado em mais do que o total de suas dívidas. Ainda que não sejam ativos facilmente negociáveis, eles devem servir como garantia aos credores.

Um ponto curioso é que a OSX é uma grande credora da OGX, pelo uso de suas plataformas. Com isso, as duas empresas de Eike devem se enfrentar na Justiça por essas dívidas.

Em 29 de outubro, a OSX anunciou a recisão de seus contratos com a OGX por falta de pagamento. A empresa naval reclama estimados US$ 2,6 bilhões em dívidas da "irmã".

Bancos

Entre os demais credores da OSX estão os bancos públicos Caixa e BNDES, que prorrogaram empréstimos à empresa (cuja previsão de vencimento era novembro).

Na quinta-feira da semana passada, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, defendeu a prorrogação.

"A OSX tem muitos ativos valiosos, que superam o valor de suas dívidas", disse Coutinho à imprensa. "Dar tempo para soluções (dos problemas financeiros da empresa) é uma estratégia sensata."

A OSX negociou suas dívidas com bancos públicos e privados, enquanto tenta dar destinação a suas plataformas. Também há especulações sobre negociações envolvendo o porto de Açu, grande obra da OSX em São João da Barra (RJ) que em maio já tivera seu projeto reduzido graças à menor demanda de sua principal cliente, a OGX.

|Com a Caixa, a empresa anunciou ter conseguido renovar seu empréstimo de R$ 461,4 milhões até outubro de 2014.

No comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a OSX informava que, em seu acordo com os bancos garantidores, já havia cláusulas citando o "possível exercício ao direito legal à recuperação judicial".

Fortuna

A recuperação judicial da OSX aprofunda ainda mais a sangria do conglomerado de Eike Batista e faz minguar sua fortuna.

Eike Batista
Legenda da foto, Fortuna de Eike minguou com a crise em seus negócios

Altamente endividada e com pouca geração de capital para pagar suas dívidas, a empresa se tornou uma fonte de dor de cabeça para investidores.

E, como os negócios do grupo de Eike estão interligados, a crise se espalhou pelo conglomerado.

Eike Batista ganhou projeção nacional como o empresário que melhor encarnou a euforia internacional com a economia brasileira após a crise global de 2008.

Com um estilo arrojado de fazer negócios e considerado visionário por seus pares, ele se aproveitou do apetite chinês por commodities e da abundância de matérias-primas no Brasil para vender o otimismo com que investidores de todo o mundo viam o país.

Para obter capital, o empresário abriu suas empresas na bolsa de valores, por meio de IPOs (Oferta inicial de ações, na sigla em inglês), realizados entre 2006 e 2010.

O ponto alto veio com o início da negociação dos papéis da OGX. Foi o maior IPO da história da Bovespa. Até pouco tempo, a OGX era considerada a principal empresa do conglomerado.

Em junho de 2011, ele deu uma entrevista à BBC inglesa em que previa "20 anos de crescimento contínuo para o Brasil".

Queda

Para economistas, a crise atravessada pelo império de Batista ganhou força a partir do momento em que investidores perceberam que os resultados de suas empresas não corresponderiam às suas promessas.

Nesse contexto, a derrocada da OGX foi um duro golpe na saúde financeira do grupo. O campo de Tubarão Azul, que deverá interromper suas operações no ano que vem, era até então o único produtor de petróleo da empresa. Inicialmente, a companhia previa reservas de até 110 milhões de barris no local.

"Havia uma confiança do mercado na capacidade empreendedora (de Eike). Tudo isso acabou quando empresas como a OGX acabaram não entregando os resultados", afirmou Sérgio Lazzarini, professor do Insper, em entrevista recente à BBC Brasil.

Com Luis Guilherme Barrucho, da BBC Brasil em São Paulo