Impasse político é mantido no Egito

Nomeação de ElBaradei ao cargo de premiê parece ter sido bloqueada por forças conservadoras
Legenda da foto, Nomeação de ElBaradei ao cargo de premiê parece ter sido bloqueada por forças conservadoras

Um novo impasse político emergiu no Egito neste sábado, envolvendo a nomeação do liberal Mohamed ElBaradei ao cargo de premiê interino do país.

Ao longo do dia, ElBaradei foi confirmado pelas Forças Armadas - que, três dias atrás, depuseram o governo do presidente islamita Mohammed Morsi - como novo premiê, com apoio da maioria dos partidos. Mas a oficialização do cargo, esperada para a noite de sábado, não aconteceu.

Porta-vozes do governo interino disseram que o ocupante do cargo ainda não foi definido e que é preciso levar em conta a oposição conservadora feita a ElBaradei.

Acredita-se que essa ala conservadora egípcia tenha impedido a nomeação de ElBaradei, que representa partidos liberais de esquerda e que fez oposição tanto ao governo de Morsi quanto a seu antecessor, Hosni Mubarak, derrubado pela revolução de 2011.

O Egito vive dias de turbulência política que chegaram a seu pico na quarta-feira, quando Morsi - acuado por uma onda de protestos e uma grave crise de popularidade - foi deposto pelo Exército, o qual prometeu uma nova transição para um governo democraticamente eleito.

Desde então, o país tem sido palco de protestos e violência. Só na sexta-feira, foram estimados 30 mortos em confrontos, muitos deles alvejados por militares que foram às ruas conter as multidões pró-Morsi.

Irmandade Muçulmana e divisões

O movimento político do presidente deposto, a Irmandade Muçulmana, uma das principais forças políticas do Egito, também vive momentos de incerteza.

Diversas figuras importantes do partido - incluindo o próprio Morsi - foram detidas pelas Forças Armadas. Neste sábado, Khairat el-Shater, vice-líder do grupo, foi preso em sua casa no Cairo por suspeita de incitamento à violência. Muitos integrantes do partido agora estão na clandestinidade.

O partido ainda conta com um grande número de apoiadores, que foram às ruas nos últimos dias para pedir o retorno de Morsi ao poder, mas o grupo também enfrenta forte oposição - o que evidencia a polarização e as profundas divisões internas do Egito pós-revolução.

Para analistas, a retórica usada pela Irmandade Muçulmana durante seu período no poder preocupou muitos egípcios, incluindo alguns que votaram em Morsi nas eleições presidenciais. A Constituição aprovada no período foi considerada muito favorável aos muçulmanos, em detrimento do resto da população.

Protesto no Egito (Foto Reuters)
Legenda da foto, Protesto no Egito: número de mortos já passaria de 30

"O grupo não satisfez as expectativas da população e alienou muitos eleitores, com sua abordagem de se agarrar ao poder e fazer vista grossa à ascensão de (políticos) linha-dura", diz à BBC Hosameldin Elsayed, autor de diversos livros sobre o islã político.

Para ele, a Irmandade cometeu diversos erros estratégicos que estimularam um levante público - apoiado pelos militares e que culminou com a derrubada de Morsi após apenas um ano de governo.

Apelo

Ainda neste sábado, a ONU e os Estados Unidos fizeram um apelo pelo fim da violência.

O departamento de Estado dos EUA conclamou os líderes egípcios a acabarem com a violência e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu mais proteção aos manifestantes - em especial às mulheres.

"Conclamamos todos os líderes egípcios a condenarem o uso da força e evitarem mais violência entre seus simpatizantes", disse, em um comunicado, o porta-voz da chancelaria americana, Jen Psaki.

O comunicado de Ban Ki-moon mencionou "relatos horripilantes de violência sexual".

"O secretário-geral acredita firmemente que este é um momento crítico, em que é imperativo que os egípcios trabalhem juntos para fazer um retorno pacífico ao controle civil, à ordem constitucional e à governabilidade democrática", diz o documento, divulgado pelo porta-voz de Ban Ki-moon, Farhan Haq.

"Os líderes políticos do Egito têm a responsabilidade de sinalizar, por meio de suas palavras e suas ações, seu compromisso com um diálogo pacífico e democrático."