Especialistas alertam para violência e violações de direitos humanos no Egito

Militar coloca arame farpado enquanto soldados tomam posições em frente a manifestantes no Cairo (Reuters)

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Apesar das celebrações, situação no Egito é tensa
    • Author, Carolina Montenegro
    • Role, De Genebra para a BBC Brasil

Dias após o Exército egípcio anunciar o fim do governo de Mohamed Morsi, apoiado por manifestações populares e por lideranças religiosas cristãs e muçulmanas, crescem as preocupações dentro e fora do Egito sobre a situação política no país.

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil alertaram para o risco de um retrocesso no processo democrático, denunciaram violações de direitos humanos e o aumento da violência entre grupos pró-Morsi e a oposição ao governo deposto.

"É um começo muito ruim. Vi duas coisas preocupantes acontecerem logo após o anúncio dos militares: o fechamento de TVs aliadas ao governo Morsi e a prisão de líderes da Irmandade Muçulmana sem acusação clara. Isso é ilegal e irresponsável. São medidas clássicas da era [Hosni] Mubarak", afirmou Heba Morayef, diretora da Human Rights Watch (HRW) no Cairo.

Segundo ela, a indicação do chefe da Corte Suprema Constitucional, Adli Mansour, como presidente interino do país mostra que "os militares parecem não querer permanecer no poder, mas é impossível saber ao certo".

Morsi tinha sido democraticamente eleito presidente do Egito em junho do ano passado, com pouco mais de 50% dos votos, pela Irmandade Muçulmana – maior partido do Egito, banido nos anos 1920. Foram as primeiras eleições livres do país após mais de 30 anos de governo Mubarak.

Após o golpe de quarta-feira, mais de 12 líderes do partido islamita foram detidos e Morsi foi mantido em prisão domiciliar. A mídia local informou que eles devem ser questionados em breve pela Justiça sob acusações de "insultar o Judiciário" e "incitar a violência".

Ao menos quatro canais de TV ligados à Irmandade Muçulmana ou considerados próximos do antigo regime foram invadidos pelos militares e tirados do ar. Jornalistas desses veículos foram presos e mais tarde liberados. Entre os alvos estava o canal Al-Jazeera, que tem sede no Catar e operava no Egito desde 2011.

Violência

"A situação é tensa. Milhões de pessoas celebraram a queda de Morsi e o apoio ao governo caiu muito nos últimos meses, mas a Irmandade ainda tem forte apoio popular", disse Diana Eltahawy, pesquisadora da Anistia Internacional no Egito.

Segundo ela, há um risco crescente de represália violenta a grupos pró-Morsi e confrontos com a oposição ao ex-governo. "As forças de segurança não estão intervindo para conter a violência. Nem para impedir abusos sexuais a mulheres na praça Tahrir", acrescentou.

De acordo com o grupo Operação Anti Assédio Sexual (OpAntiSH, na sigla em inglês), organização egípcia que monitora a violência contra mulheres, cerca de 80 agressões sexuais e 2 estupros foram registrados na quarta-feira, enquanto milhões comemoravam a queda de Morsi. Entre as vítimas estavam idosas, mulheres com crianças e uma menina de 7 anos.

Eltahawy falou com a BBC Brasil por telefone do Cairo. Ela voltava de um hospital onde tinha visitado um homem vítima de agressão de manifestantes opositores durante um protesto pró-Morsi. Após ser esfaqueado, ele foi deixado na porta de uma delegacia, onde foi espancado por policiais após se identificar como partidário da Irmandade Muçulmana.

Manifestantes seguram bandeiras do Egito depois de invadir sede da Irmandade Muçulmana no Cairo (Reuters)

Crédito, Reuters

Legenda da foto, A sede da Irmandade Muçulmana foi invadida e saqueada no Cairo

Desde quarta-feira, manifestantes pró-Morsi têm protestado contra o golpe militar na praça Rabaa al-Adawiya, em Nasr City, no Cairo, e em outras cidades do país.

Na quinta-feira, um porta-voz da Irmandade Muçulmana anunciou que o partido irá boicotar o processo político e defendeu a não violência.

Reforma e união

Para Morayef, da HRW, desde o início da revolução no Egito, em 2012, as reformas no Judiciário e no aparato de segurança são urgentes. "O marco legal da era Mubarak ainda está em vigor e o abuso da força pela polícia e pelo Exército são recorrentes", declarou.

Mohamed Zaree do Cairo Institute for Human Rights destacou que o momento deve ser de união e de vigilância.

"A única maneira de evitar um derramamento de sangue é a união em torno de um projeto político da oposição. Talvez se os militares não tivessem tomado o poder agora o Egito teria caído em uma guerra civil, porque os protestos contra Morsi e o autoritarismo da Irmandade cresciam há meses. Em 30 de junho havia o dobro de gente na rua comparado com as manifestações para derrubar Mubarak", explicou.

Segundo Zaree, muitos egípcios acreditavam que a Irmandade Muçulmana tinha sequestrado a revolução original de 2012. "Neste ano que passou no poder, o partido não estava governando em prol do povo, mas sim em benefício próprio", afirmou, citando denúncias de corrupção e a prolongada crise econômica no Egito.

Para ele, a pressão externa agora também é crucial para assegurar a defesa dos direitos humanos no país.

"A comunidade internacional deve vigiar a situação no Egito e não questionar se vai lidar ou não com o novo governo, que subiu ao poder com apoio militar. Morsi já tinha perdido sua legitimidade para governar, com ou sem golpe. Agora há novos horizontes para o país, é uma grande chance de pressionar por uma retomada do processo democrático", acrescentou.

Na quinta-feira, durante discurso em Copenhague, na Dinamarca, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, expressou preocupação com a situação no Egito e pediu "um diálogo nacional inclusivo, que inclua representantes de todos os espectros da política egípcia".