
Manifestação anti-Chávez em 2007; oposição foi perdendo a força no país
Enquanto a parcela pró-Chávez da população venezuelana jura fidelidade, sai às ruas e reza pelo mandatário ausente, os cidadãos que se opõem ao presidente esperam, anseiam e vêem os acontecimentos pela TV.
Mais de 6,5 milhões de venezuelanos votaram por uma opção distinta a Hugo Chávez nas eleições presidenciais de outubro passado. Isso equivale a 44% dos eleitores de um país que, diante das inesperadas circunstâncias envolvendo o agravamento do estado de saúde do presidente, não conseguiram ainda articular sua própria força.
As redes sociais evidenciam o atual dilema desses opositores: enquanto alguns se queixam da inação e pedem que os críticos de Chávez também saiam às ruas; outros pedem calma, prudência e paciência.
Por um lado, o adiamento da posse de Chávez poderia representar uma oportunidade de mudanças para esses 6,5 milhões de pessoas. Por outro, os males que há anos acometem a oposição venezuelana não melhoram com as atuais circunstâncias, e o panorama parece ser tão incerto quanto os boletins sobre a saúde do mandatário.
Neutralizada
O governo de Chávez foi bem-sucedido em seus esforços para neutralizar a oposição - muitas vezes o mandatário falou em aniquilar as "cúpulas podres" do país.
E o desgaste, a divisão e a falta de líderes opositores ajudam a explicar a própria vitória inicial de Chávez, em 1998.
A oposição ficou virtualmente fora da redação da nova Constituição (obteve apenas 6 de 131 assentos), em 1999, a qual tirou os oposicionistas da Corte Suprema, do Conselho Eleitoral e de órgãos importantes.
Mais tarde, a própria oposição se retirou da Assembleia Nacional, quando decidiu boicotar as eleições de 2005 - um erro crucial, do qual os opositores só se recuperaram (parcialmente) no pleito de 2010, quando conseguiram uma unidade precária que lhes garantiu 65 entre 165 assentos.
Complexo de abril

Capriles, o principal líder opositor, foi forçado a optar pela moderação
Outras cotas de poder opositor dentro das Forças Armadas e da petrolífera estatal, bem como a influência do setor empresarial, foram desmanteladas após o fracasso do golpe militar de 2002, que tirou Chávez do poder por um breve período.
Agora, não é fácil encontrar um líder capaz de medir forças com Chávez.
"Não há (como) imaginar nada sequer similar às manifestações de abril (de 2002)", disse à BBC Mundo o consultor político Ángel Álvarez.
As ações de 2002 e 2003 deixaram entre os opositores mais do que um sabor de derrota - marcaram um ponto de mudança para o chavismo, que tomou um rumo mais radical, sustentado pelo avanço de programas sociais financiados pela bonança do petróleo.
Até o ex-candidato presidencial Henrique Capriles tem que se mover com cuidado quando relembra aqueles anos turbulentos, por sua polêmica atuação - quando era prefeito de um município na grande Caracas - em um protesto antichavista na Embaixada de Cuba na Venezuela, também em 2002. Ele é frequentemente tachado de golpista por conta disso.
O líder mais enérgico e novo que a oposição produziu nos últimos 14 anos foi forçado a optar pela moderação, o que inclui aceitar a permissão indefinida outorgada a Chávez - algo que enfurece os que veem a decisão como uma violação da Constituição.
Mas, para Ángel Álvarez, a estratégia é válida. Segundo ele, a oposição na Venezuela diz que o governo" não é nem um regime democrático nem uma ditadura clássica; é algo mesclado". Por isso, os opositores precisariam "ganhar força pouco a pouco".
Cotas de poder
Ao mesmo tempo, Eduardo Semtei, ex-funcionário chavista, agora opositor que colabora com Capriles, afirma que o líder opositor "não assumiu seu papel com a força que deveria". Além disso, não é fácil rivalizar com o carisma de Chávez.
Assim, abre-se o campo para que vários disputem com Capriles uma eventual candidatura presidencial, ainda que ele ainda seja o candidato opositor natural.
Mas isso também é sintomático de outro grande problema que impediu a oposição de levantar a cabeça: há partidos sem postulantes, e postulantes sem partidos.
Nas duas categorias há os novos, os velhos, os moderados, os radicais, os divididos, os reagrupados e divididos outra vez. A oposição venezuelana segue sendo uma grande massa disforme de agremiações e pessoas disputando cotas de poder ou mera influência.



















