
Crianças passam por cima de esgoto a céu aberto por meio de passarelas de madeira improvisadas
A menina Érica Bezerra, 9 anos, foi ao módulo de saúde localizado a poucos metros de sua casa. Ela não se sentia bem há cinco dias. Tinha fortes dores de cabeça, náuseas e os olhos estavam ressecados.
Ao tentar uma consulta às 11h da segunda-feira passada, foi informada de que naquele horário não seria mais possível atendê-la. Ela teria que chegar pelo menos antes das 7h do próximo dia para tentar o atendimento.
Érica mora no bairro Vitória, periferia de Rio Branco, a capital do Acre. Bem ao lado de sua casa há uma obra inacabada que faz o esgoto de toda a comunidade se acumular. O esgoto, por sinal, desce por toda a rua de barro até ''desaguar'' no buraco aberto.
Este caso no Vitória é apenas um entre os milhares em Rio Branco, que fica no extremo oeste da Amazônia. Segundo o Instituto Trata Brasil, especializado em assuntos de saneamento básico, Rio Branco tem apenas 20% de seu esgoto coletado. No ranking do saneamento elaborado pelo Trata Brasil, a capital acreana aparece na 91º posição entre os cem maiores municípios do país.
Em outra parte do bairro Vitória, o esgoto se acumula numa grande cratera aberta onde vai passar a tubulação da rede. A principal passagem são pedaços de madeira, além das próprias tubulações de concreto.
No local, crianças que vão para a escola se arriscam num verdadeiro malabarismo, passando por cima de tábuas dispostas sobre o esgoto a céu aberto como se fossem pranchas.
O mau cheiro, o lixo e os riscos não são empecilhos para a brincadeira da criançada, que sofre com a falta de espaços para diversão na comunidade.
Sem água
Segundo dados do IBGE, levantados no Censo 2010, 22 mil domicílios de Rio Branco lidam com o problema do esgoto a céu aberto. De acordo com o IBGE, o município tem cerca de 342 mil habitantes.
Outros 43% dos imóveis rio-branquenses não fazem parte da rede geral de distribuição de água, ou seja, o sistema mantido pelo poder público que assegura o fornecimento até a casa dos cidadãos.

Maria Alves recorre a poço improvisado para compensar falta de água, mas qualidade da água é duvidosa
Na casa de Maria Alves Martins não chega água há 10 dias. O que salva é um poço furado no quintal. A questão é a salubridade desta água, por se tratar de uma área onde não há a correta coleta do esgoto, sendo as fossas o único depósito dos dejetos. Já Francisco Bezerra, o pai da menina Érica, compra água do caminhão-pipa.
Na frente do imóvel, a vegetação alta esconde o esgoto acumulado. ''Às vezes, a sujeira volta pelo cano da pia, o odor é insuportável, temos que ficar com a casa fechada'', relata Francisco.
Dos 20% do esgoto que é coletado, apenas 38% passa por algum tipo de tratamento antes de ser despejado no rio Acre, a principal e única fonte de abastecimento da cidade. Por todo o perímetro urbano do rio é possível observar o esgoto sendo despejado.

Iatamara Costa deposita esperança em obra de coleta de esgoto que passará pelo seu terreno
De 2008 para 2009 a taxa de tratamento de esgoto subiu de 23% para 38%. Otimista está a dona de casa Itamara Costa. Em frente a sua residência o mau cheiro do esgoto acumulado não a incomoda. ''Já estou acostumada.'' Ela afirma depositar sua esperança na obra de coleta de esgoto e que passará pelo quintal de sua casa.
Desde 2011, o governo do Estado assumiu as ações de saneamento básico na capital. A prefeitura fez o repasse alegando falta de recursos para investimentos.
O blog procurou a assessoria de imprensa do governo por duas semanas em busca de informações sobre os investimentos realizados, mas não recebeu nenhuma resposta até o momento.
* Fabio Pontes, 26, é jornalista em Rio Branco e cuida do blog Clique Política na Floresta, onde faz uma análise da política no Acre.
O Palanque BBC é uma série da BBC Brasil com textos assinados por blogueiros de diferentes capitais brasileiras e que falam de problemas que afetam essas cidades.




















