Lucas Mendes: Visões socialistas
- Author, Lucas Mendes
- Role, De Nova York para a BBC Brasil
Com 6 anos, Richard Sennett aprendeu a tocar o violoncelo, aos 8 compunha e aos 13 dava concertos. Pintava um Mozart do seculo 20, mas a carreira de músico foi interrompida por uma doença na mão e uma cirurgia desastrosa.
Descendente de imigrantes russos, Richard é filho de pais comunistas de carteirinha. O pai e um tio lutaram na guerra civil espanhola, primeiro contra os franquistas e, depois, contra os comunistas.
Richard ainda era criança quando o pai abandonou a família e voltou para a Espanha. O garoto cresceu com a mãe num conjunto habitacional pobre de Chicago, o Cabrini Green, onde a grande maioria era negra e a convivência com os brancos era difícil.
As lições apreendidas no gueto mais tarde serviriam para ensinar seus alunos e leitores.
Sem a música, Richard entrou no mundo acadêmico, se tornou um escritor, criou um vasto universo literário com mais de uma dúzia de livros que, sem perder o tempero nem o vigor, passam de uma receita culinária para uma sociológica, atravessam séculos e continentes em conexões preciosas entre o passado, o presente e o futuro.
Estudou história em Harvard, urbanismo na MIT, deu aulas da London School of Economics e dirigiu um centro de estudos humanísticos na New York University. Enfim, passou pela fina flor universitária.
Nos últimos anos tem vivido entre Londres e Nova York, mas teve intimidade com Paris que inspirou uma de suas três ficções, Palais Royale, segundo ele a única que presta: “Não perca tempo com os outros dois”. Não vou perder.
Estivemos juntos ontem à tarde, em Manhattan, durante uma entrevista para o programa Milênio. Ele estava decepcionado, porque por motivos médicos, teve de cancelar a viagem para o forró literário de Paraty.
Não me deixou falar mal de São Paulo, é um admirador de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff. O Brasil é umas das grandes esperanças dele para um sistema socialista que vislumbra para um futuro próximo.
Países europeus também estão nesta visão de Sennett, mas os Estados Unidos do Tea Party e da direita raivosa estão fora.
Ele me disse que não quer se gabar, mas quando estava no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, em 1998, teve uma visão da crise de 2008.
Surgiu das conversas com banqueiros e investidores que falavam em bilhões, bilhões e mais bilhões com assombrosa leviandade. A única preocupação deles era multiplicar os investimentos e acumular fortunas. “O mundos destes caras vai implodir”, previu Sennet.
Ele dedicou os últimos 16 anos a estudar o capitalismo moderno. Suas visões e soluções estão numa trilogia: Craftsman (O Artesão, já publicado no Brasil), Together deve sair em agosto e, logo em seguida, um terceiro sobre urbanismo, uma das mais antigas paixões do professor.
Cada livro pode ser lido separadamente, mas o conjunto propõe uma substituição do capitalismo moderno por uma fórmula que valoriza o “artesão”, promove a cooperação e uma reforma urbana que aproxima os moradores das cidades.
O artesão de Sennett está em todos nós. É o trabalhador que investe 10 mil horas na própria educação. O número foi pesquisado e ele tem vários exemplos, entre eles o do jogador de futebol. Se treinar de 3 a 4 horas por dia, durante sete anos o camarada vai brilhar no gramado.
Nada garante, nem 20 mil horas, que será um Pelé ou um Messi. Ele, super dedicado no violoncelo, nunca achou que seria um Mozart. Gênio é uma outra historia.
Richard Sennett é um socialista declarado e nunca teve problema para conseguir emprego nas melhores universidades do mundo, mas durante seis anos na década de 50, a mãe comunista teve problemas com a perseguição macartista.
Quando foi apresentado a Bill Clinton, que ele admira, o presidente se aproximou com aquela cordialidade exuberante e disse: "É um prazer conhecer gente inteligente como você”.
"Obrigado, presidente, mas quero que o senhor saiba que votei no partido socialista.” O sorriso de Clinton congelou.
Sennett, com 69 anos, não tem planos de se aposentar, mas a mão voltou a funcionar, e seu artesanato mais gratificante é a música.












