'Não sei se minha casa estará de pé quando eu voltar', diz editora da BBC News Ucrânia

    • Author, Marta Shokalo
    • Role, Editora da BBC News Ucrânia em Kiev
  • Tempo de leitura: 4 min

*Atualizado em 25/02/2022

Eu estava acordada à noite quando recebi uma mensagem de um colega sobre o discurso de Vladimir Putin anunciando uma invasão. Logo em seguida as explosões começaram.

Eu podia ouvi-las da minha casa, e pessoas em diferentes partes da cidade começaram a enviar mensagens para o nosso grupo de WhatsApp sobre explosões acontecendo perto deles.

Perceber que a própria Kiev estava sob ataque - e não só a linha de frente no leste do país - foi um grande choque.

O maior medo para as pessoas comuns aqui é ficar sem eletricidade e sem internet - o que nos deixaria realmente isolados do mundo.

Outro temor é que as pontes sobre o rio Dnieper sejam bombardeadas, dividindo as metades leste e oeste da cidade.

As explosões continuaram por cerca de 30 minutos.

Vesti meu filho de 10 anos. Tomamos café da manhã, sentados o mais longe possível das janelas, mas ele estava com tanto medo que vomitou.

Levamos uma vela e um pouco de água para nossa adega, que será nosso refúgio se as coisas piorarem.

Há filas enormes do lado de fora dos supermercados perto de minha casa e nos caixas eletrônicos, muitos dos quais ficaram sem dinheiro. Alguns postos de gasolina também já estão sem combustível e fecharam.

Espaço aéreo fechado

Há um ar de pânico, agora que sabemos que todo o país está sob ataque.

As rodovias para sair da cidade estão congestionadas, mas é um caminho perigoso - em longas e lentas filas de carro, você pode facilmente ficar sem combustível longe de casa.

Os trens estão operando, mas há uma grande multidão de pessoas tentando conseguir lugar. O espaço aéreo ucraniano está fechado, sob a lei marcial introduzida pelo presidente Zelensky.

Não são apenas alvos militares que foram destruídos - temos fotografias de edifícios residenciais em várias cidades do país que foram atingidos diretamente.

O bombardeio russo afetou todas as regiões do país. Mesmo em Lviv, perto da fronteira polonesa, as sirenes soaram e um colega teve que se refugiar em um abrigo antiaéreo.

Um colega tirou sua família de Kiev na esperança de evitar os ataques aéreos. O campo pode ser mais seguro que a cidade, mas em um país sob ataque do norte, leste e sul, não há mais nenhum lugar verdadeiramente seguro aqui.

Deixando Kiev

Conforme as notícias foram avançando, percebi que meu filho e eu tínhamos que deixar Kiev.

Tanques avançavam sobre a cidade vindos do norte e de outras direções. Ficou claro que os militares russos estavam tentando cercar a cidade e logo estariam nela.

Na quinta-feira, muitas pessoas estavam saindo de Kiev para o oeste - em direção à cidade ocidental de Lviv e à fronteira polonesa.

Liguei para meu marido, que está longe de casa no momento, e fiz um plano: dirigir para o leste, para a cidade de seus pais bem no interior do país. Tomamos essa decisão em parte pelo nosso filho de 10 anos, que passou a quinta-feira tremendo de medo.

Comecei a fazer as malas. Quanto você leva quando não sabe quando vai voltar? Coloquei trajes de banho na mala, caso ainda estejamos no país no verão. Partimos às 07h30, logo após o fim do toque de recolher, e seguimos para o leste por Kiev.

As estradas estavam vazias na direção em que eu estava viajando. Fora da cidade passamos por tanques ucranianos, indo na direção oposta, em direção a Kiev.

Eu não sabia se encontraria as forças russas ou se depararia com um bloqueio na estrada. Eu estava realmente focada, pensando comigo mesma: "Precisamos chegar lá. Precisamos chegar lá."

Casas vazias

Parei periodicamente para checar meu telefone e vi que havia relatos de brigas de rua em Obolon, um subúrbio ao norte de Kiev. Meus colegas que moravam lá iam tentar sair.

Coisas terríveis estavam acontecendo, mas era uma bela manhã de sol, com os primeiros sinais de primavera no campo. Foi completamente surreal.

Depois de algumas horas chegamos à cidade.

Passei pela amoreira onde no verão passado estávamos tão felizes colhendo frutas. Hoje eu estava feliz de novo, mas de uma maneira completamente diferente - feliz por ter saído de Kiev, feliz por estar viva, feliz por ter chegado com meu filho em um lugar seguro.

Com meus sogros, comi direito pela primeira vez em 24 horas - uma reconfortante tigela de borshch (um prato tradicional do leste europeu). Sabemos que reservistas foram chamados para lutar com o exército territorial, mas está muito quieto aqui, e espero que continue assim.

Aqui eu tenho uma conexão de internet e posso trabalhar. Se a eletricidade for cortada, temos um gerador.

Minha principal prioridade é a segurança dos meus colegas da BBC, alguns dos quais estão procurando lugares para ficar fora de Kiev com amigos e familiares. Fiz convites para virem para a cidade dos meus sogros, onde há casas vazias cujos donos gostariam que fossem usadas.

Estamos fora da estrada principal e espero que os tanques russos nunca cheguem aqui.

É impossível saber quando voltarei para minha casa em Kiev, e se ela estará de pé quando eu chegar lá.

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