You’re viewing a text-only version of this website that uses less data. View the main version of the website including all images and videos.
Vacina contra covid-19: a corrida de países latino-americanos por imunizantes enquanto pandemia avança
- Author, Marcia Carmo
- Role, De Buenos Aires para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 5 min
Na corrida por vacinas contra a covid-19 na América Latina, o Chile parece ter saído na frente. Em termos de organização e planejamento da logística para seu armazenamento, distribuição e aplicação, o Chile aponta ser o mais organizado nas medidas para conseguir os imunizantes, como observou o ex-ministro da Saúde da Argentina, Adolfo Rubinstein. "Eles se organizaram e continuam se organizando de forma mais efetiva", disse Rubinstein à BBC News Brasil. Ele é médico, mestre em epidemiologia, doutor em saúde pública e professor visitante da Universidade de Harvard.
País com cerca de 18 milhões de habitantes, o Chile assinou em setembro uma série de acordos para receber vacinas das diferentes fabricantes. Com a Pfizer-BioNtech, foi assinado acordo para a aquisição de 10 milhões de doses, além da reserva de 14,4 milhões de doses da AstraZeneca e Universidade de Oxford e de 20 milhões com o laboratório chinês Sinovac, segundo informação da imprensa local.
Nesta segunda-feira, o presidente do Chile, Sebastián Piñera visitou uma das empresas que manterão as vacinas da Pfeifer no congelamento necessário. Ele confirmou que o primeiro carregamento de vacinas chegará nesta semana e que o pessoal de saúde das áreas com mais casos de coronavírus será imediatamente imunizado. "Nosso objetivo é que a maior parte da população que requer prioridade esteja vacinada até o primeiro trimestre de 2021", acrescentou o presidente chileno. Ele espera que até setembro do ano que vem cerca de 70% dos chilenos, a partir dos 16 anos, estejam vacinados.
Enquanto isso, embora a movimentação dos países latinos tenha se acirrado nas últimas semanas, à medida que a concretização da vacina torna-se mais próxima da realidade do ponto de vista científico, a evolução do continente é desigual.
México, o Equador e a Colômbia, por exemplo, anunciaram, em conjunto, a compra de mais de 60 milhões de doses da vacina da Pfizer, além de doses das outras fabricantes.
Em relação ao Brasil, por outro lado, representantes da comunidade científica regional mostram preocupação com as declarações do presidente Jair Bolsonaro de que não se vacinará contra a doença.
Brasil preocupa
Na semana passada, em nota e sem citar nomes específicos, a Academia Nacional de Medicina (ANM) do Brasil criticou o que chamou de “negacionismo irresponsável de gestores políticos”, alertou para a necessidade de “vacinação segura e em massa” dos brasileiros contra a doença e que medidas sejam tomadas para que mortes por covid-19 “sejam evitadas”.
Além disso, caso as vacinas que contratou se mostrem seguras e eficazes, o Chile seria até agora o únicos país latino-americano com doses garantidas suficientes para imunizar sua população inteira.
Até 21/12, a covid-19 matou mais de 470 mil pessoas na América Latina, sendo 187 mil no Brasil.
Em entrevista à BBC News Brasil, o médico infectologista Miguel O'Ryan, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade do Chile e membro do comitê assessor de vacinas contra a covid-19 do governo chileno, disse que é preciso, em sua visão, se criar um ambiente positivo sobre a importância da vacinação.
“Aqui no Chile estamos debatendo permanentemente esta questão. Estamos informando ao máximo sobre as vacinas e buscando não gerar também falsas expectativas.”
'Vacina é crucial'
Quando perguntado sobre a situação no Brasil, maior país em termos econômicos e populacionais da América Latina, o especialista chileno disse que evita opinar sobre questões políticas de outros países, mas reforçou que, em sua análise, as autoridades públicas como o presidente Jair Bolsonaro deveriam reproduzir informações científicas.
“Quando autoridades públicas emitem opiniões tão taxativas, é claro que podem ter impacto negativo. Achamos na comunidade cientifica que a vacina é crucial. As autoridades são as primeiras que deveriam fazer eco da informação científica para cuidar de sua população”, disse O'Ryan, falando de Santiago.
O presidente do Chile, Sebastián Piñera, anunciou na semana passada que o país receberá 20 mil doses da vacina produzida pela Pfizer. E que a vacinação para os grupos que terão prioridade, como o pessoal de saúde, começará na semana que vem.
A quantidade é inferior ao anunciado inicialmente, de 50 mil doses. O Chile também previa a vacinação de 70% da população até setembro do ano que vem.
“A medida que a produção e a distribuição forem realizadas, teremos mais certeza do que será realidade”, disse O`Ryan. Na quarta-feira (16), o Instituto de Saúde Pública do Chile (ISP) autorizou, após votação unânime, a vacinação contra a covid-19 de todos que tenham mais de 16 anos de idade.
E o México?
O México, de acordo com a imprensa local, autorizou a aplicação da vacina desenvolvida em conjunto pela americana Pfizer e pela alemã BioNTech. O país foi o sexto país a autorizar, oficialmente, o uso desta vacina, depois que o Reino Unido, o Canadá, os Estados Unidos, a Arábia Saudita e o Bahrein o fizeram.
“Nossa agência de regulação sanitária, Cofepris, autorizou o uso emergencial da vacina Pfizer-BioNTech contra o vírus Sars-CoV-2 para a prevenção contra a covid-19”, disse o subsecretário de Saúde, Hugo López Gatell, no fim de semana.
Segundo ele, as primeiras doses da vacina devem começar a chegar ao país na próxima terça-feira. “É uma esperança”, disse, apesar de reconhecer que os primeiros desembarques da vacina serão insuficientes para imunizar os cerca de 1,6 milhão de trabalhadores do setor de saúde.
O governo mexicano anunciou ainda que adquiriu doses das vacinas de Moderna e CanSino, além de produzir o imunizante desenvolvido pela AstraZeneca-Oxford.
O México e a Argentina, como lembrou o ex-ministro da Saúde da Argentina, Adolfo Rubinstein, anunciaram recentemente a produção das doses da AstraZeneca-Oxford para distribuição na América Latina, excluindo o Brasil (que terá fabricação própria, via Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz).
A vacinação com estas doses começaria em março ou abril, segundo informado até o momento, disse Rubinstein.
No dia 3/12, o presidente Alberto Fernández anunciou que 300 mil argentinos seriam vacinados antes do fim do ano com a vacina russa Sputnik V. E que em janeiro e fevereiro chegariam outras 5 milhões de doses.
Dez dias depois, na terça-feira (13/12), o ministro da Saúde, Ginés González García, disse que existiam dúvidas sobre o cumprimento deste calendário. Ele atribuiu as dificuldades aos sistemas de logística, por exemplo, como o transporte de avião destas vacinas e sua refrigeração.
O ministro disse ainda que o acordo que tinha sido anunciado com a Pfizer ficara congelado por exigências da fabricante, como uma nova lei para respaldar o uso da vacina, e que, na sua visão eram difíceis de serem cumpridas.
“A Pfizer disse que a lei que fizemos não era suficiente e pedia uma nova”, disse o ministro argentino. A lei, segundo a imprensa local, seria em relação “a blindagem judicial em caso de efeitos adversos” da vacina.
Na sexta-feira (18/12), o presidente Alberto Fernández disse que as doses da vacina russa chegarão antes do fim do ano ao país. Para ele, a Sputnik V é “tão eficiente quanto as demais”.
- COMO SE PROTEGER: O que realmente funciona
- COMO LAVAR AS MÃOS: Vídeo com o passo a passo
- TRATAMENTOS: Os 4 avanços que reduzem risco de morte por covid-19
- SINTOMAS E RISCOS: Características da doença
- 27 PERGUNTAS E RESPOSTAS: Tudo que importa sobre o vírus
- MAPA DA DOENÇA: O alcance global do novo coronavírus
Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!