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Atrás de Biden nas pesquisas, Trump muda de tom sobre pandemia
- Author, Alessandra Corrêa
- Role, De Winston-Salem (EUA) para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 4 min
Depois de semanas ignorando ou minimizando o impacto da pandemia de covid-19, o presidente americano, Donald Trump, demonstrou nos últimos dias uma mudança de tom em relação à crise.
Nesta semana, Trump anunciou a retomada dos briefings da força-tarefa criada pela Casa Branca para responder à pandemia causada pelo novo coronavírus.
Ele havia interrompido sua participação nessas entrevistas coletivas diárias em abril, após reação negativa e deboches à sua insinuação de que injetar ou ingerir desinfetante poderia ajudar a curar a doença.
O presidente, que até então vinha se recusando a usar máscaras, apesar da recomendação de especialistas médicos de que seu uso é eficaz para conter a propagação do vírus, também tuitou nesta semana uma foto em que aparece usando o equipamento de proteção.
"Nós estamos unidos em nossos esforços para derrotar o Vírus Invisível da China, e muitas pessoas dizem que é Patriótico usar uma máscara quando você não pode se distanciar socialmente. Não há ninguém mais Patriótico do que eu, seu Presidente favorito!", postou Trump nesta segunda-feira (20/07) no Twitter.
O tuíte foi postado poucos dias depois de Trump ter usado uma máscara em público pela primeira vez, em 11 de julho, durante visita ao hospital militar Walter Reed.
A mudança de postura em relação à pandemia ocorre a menos de quatro meses da eleição presidencial, marcada para 3 de novembro, e no momento em que pesquisas indicam queda significativa nos índices de aprovação do presidente, que aparece vários pontos atrás do rival, o ex-vice-presidente democrata Joe Biden.
Segundo as pesquisas, a pandemia está entre as principais preocupações dos eleitores americanos. Os Estados Unidos já registram mais de 3,9 milhões de casos confirmados e 144 mil mortes por covid-19.
Nas últimas semanas, o país vem batendo recordes diários no número de novos casos.
Diante desse cenário, acompanhado por uma grave crise econômica, analistas afirmam que a mudança de tom é uma tentativa do presidente de reanimar sua campanha e evitar uma derrota nas urnas.
Pesquisas
"Trump não quer ser um presidente de apenas um mandato", diz à BBC News Brasil o cientista político Todd Belt, professor da Universidade George Washington, em Washington.
"Ele está vendo sua aprovação despencar, e (pesquisas que mostram que) as pessoas confiam mais em Joe Biden do que nele para enfrentar a pandemia. Sabe que precisa fazer algo para reverter isso", observa Belt.
O cientista político ressalta que a nova postura de Trump surge pouco depois de o presidente ter feito mudanças na sua equipe e estratégia de campanha.
"Sua campanha está sendo redirecionada para colocá-lo à frente da (resposta à) pandemia, para ser um líder. Ele vinha ignorando completamente (a crise)", ressalta Belt.
A taxa de aprovação de Trump vem caindo desde o início da pandemia. Pesquisa encomendada pelo jornal The Washington Post e a rede de TV ABC e divulgada na semana passada mostra que apenas 38% dos americanos aprovam a resposta do presidente à crise do coronavírus. Em maio, eram 46%. Em março, mais da metade aprovava.
Nesse mesmo período, o percentual que desaprova a atuação de Trump em relação à pandemia saltou de 45% para 60%. Várias pesquisas de intenção de voto mostram Biden à frente de Trump, inclusive em Estados tradicionalmente conservadores.
"Foi provavelmente um alerta para o presidente ver que está caindo (nas intenções de voto) mesmo em Estados que costumam apoiá-lo, como Texas, Geórgia e Carolina do Norte", destaca Belt.
Muitos dos Estados considerados cruciais para uma vitória em novembro vêm apresentando aumento dramático no número de casos, entre eles a Flórida e o Texas.
Máscaras
Diante desses números negativos, assessores e aliados de Trump vêm pedindo que o presidente demonstre um envolvimento maior na resposta do governo à pandemia.
A mudança de posição de Trump em relação ao uso de máscaras ocorre depois de o presidente ter zombado de outros políticos, entre eles Biden, por terem usado o equipamento em público
O uso não é obrigatório nacionalmente, e cabe a cada Estado decidir suas próprias regras. Apesar da recomendação oficial do governo federal e de especialistas em saúde de que a população use máscaras em locais públicos, a prática se tornou uma questão política nos Estados Unidos.
Em um reflexo da polarização no país, muitos apoiadores do presidente se recusam a usar máscaras.
Já houve vários episódios de violência em diversas partes do país desencadeados por discussões sobre a obrigatoriedade de usar máscaras em determinados locais, como lojas ou restaurantes.
Nova dinâmica
Os novos briefings à imprensa, realizados a partir desta terça-feira, não deverão contar com a participação de especialistas em saúde pública, como ocorria anteriormente.
Nas coletivas anteriores, até abril, Trump muitas vezes fazia declarações contradizendo os cientistas e médicos da força-tarefa.
Os briefings também eram muitas vezes marcados por discussões entre o presidente e os jornalistas, que comumente apontavam para inconsistências nas respostas de Trump.
O presidente chegou a acusar os repórteres de fazerem "perguntas hostis". A cobertura da imprensa muitas vezes era desfavorável, e as coletivas não raramente eram descritas como "inúteis".
As coletivas também eram criticadas por serem, muitas vezes, excessivamente longas e sem foco, com Trump falando sobre assuntos sem relação com a pandemia.
O presidente parecia satisfeito com o fato de que os briefings, transmitidos ao vivo pelas TVs americanas, eram acompanhados por um grande número de telespectadores. Mas, frustrado com a cobertura, acabou declarando que eram uma "perda de tempo"
A retomada foi decidida depois de discussões internas entre assessores e membros do governo e ocorre em um momento em que até alguns políticos republicanos vêm criticando a resposta de Trump à pandemia.
"Acho que é uma ótima maneira de fazer a informação chegar ao público sobre como estamos em relação a vacinas, tratamentos e, de maneira geral, como estamos", disse o presidente.
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