Protestos por George Floyd: as críticas de líderes religiosos após Trump posar para foto com a Bíblia

Donald Trump com Bíblia em frente a igreja

Crédito, Reuters

    • Author, Lebo Diseko
    • Role, BBC News
  • Tempo de leitura: 4 min

Menos de 24 horas depois de o presidente americano, Donald Trump, ter posado para fotos em frente à Igreja Episcopal de São João com uma Bíblia na mão, mais de 20 líderes religiosos da região metropolitana da capital Washington foram ao mesmo local e criticaram a ação do mandatário dos Estados Unidos.

Para o reverendo George C. Gilbert Senior, Trump agiu de forma "imperdoável" ao usar a Bíblia de "muleta para promover sua agenda".

"É um momento grave da história dos Estados Unidos e eu sinto que o que Donald Trump, nosso presidente, fez é um escárnio", afirmou para uma multidão reunida no local.

"Estar em frente a uma igreja com a Bíblia na mão, sendo que ele nem frequenta a igreja com regularidade, é algo desonesto e enganoso."

Agentes usaram gás para dispersar manifestantes no trajeto que Trump pretendia fazer

Crédito, AFP

Legenda da foto, Agentes usaram gás para dispersar manifestantes no trajeto que Trump pretendia fazer

'Multidões violentas'

Na segunda-feira, Trump ameaçou usar as Forças Armadas contra "multidões violentas" que, segundo ele, estão atrapalhando protestos pacíficos contra a morte do segurança George Floyd, que morreu durante uma abordagem policial.

Antes de discursar, o presidente fez uma breve caminhada até a Igreja Episcopal de São João, conhecida com a igreja dos presidentes, e empunhou a Bíblia em frente às câmeras. A igreja chegou a ser atingida pelo fogo durante os protestos de domingo passado.

Mas o reverendo GIlbert, e outros líderes religiosos que protestaram ao seu lado, vê o ato como uma "sessão de fotos, mas não é hora para ficar se exibindo".

Além do mais, pouco antes da visita de Trump ao local, a mídia local registrou que agentes de segurança usaram gás lacrimogêneo para dispersar a multidão que protestava pacificamente em frente à igreja a fim de liberar caminho para a passagem de Trump.

Líderes religiosos criticam ato de Trump em frente a Igreja

Crédito, Heidi Thompson

Legenda da foto, Líderes religiosos criticam ato de Trump em frente a Igreja

'Nação dividida'

Apesar das críticas feitas por Gilbert e seus colegas, a insatisfação com o presidente não é unânime entre líderes religiosos cristãos.

O pastor Mark Burns é um dos poucos líderes religiosos negros influentes que apoiam publicamente Trump. "Por que o presidente dos Estados Unidos, líder do mundo livre, não confiaria na palavra de Deus para reaproximar essa nação dividida?"

Segundo Burns, o presidente lembrou a nação de que "precisamos atualmente buscar rezar mais do que nunca".

A bispa episcopal de Washington, Mariann Budde, afirmou que soube da visita de Trump pela TV. Ela disse não ter recebido "nem uma ligação de cortesia, avisando que eles esvaziariam a área com gás lacrimogêneo para que eles pudessem usar nossa igreja de palco".

Para Michael Curry, bispo líder da Igreja Episcopal dos EUA, o presidente americano usou "a igreja e a Bíblia Sagrada com propósitos político-partidários".

Trump e a religião

O presidente americano não pertence a nenhuma congregação em particular, e raramente vai à missa. No entanto, ele costuma recorrer ao simbolismo e à linguagem religiosos para atrair eleitores cristãos.

Mais de 75% dos eleitores evangélicos brancos votaram em Trump na eleição de 2016, segundo o centro de pesquisa Pew. Em comparação, apenas 3% dos negros protestantes escolheram o republicano nas urnas.

A cena de Trump com a Bíblia em frente à igreja foi criticada também por proeminentes líderes cristãos ao redor do mundo.

Antonio Spadaro, padre jesuíta próximo do papa Francisco, escreveu no Twitter: "Aqueles que usam a Bíblia por seu poder mundano diante da tragédia tornam isso vaidade".

Na África do Sul, onde a religião já foi usada no passado como justificativa para a segregação racial no regime de apartheid, também houve críticas.

Para Thabo Makgoba, arcebispo da Cidade do Cabo, "usar a Bíblia para uma sessão de fotos realmente vai contra a essência do que há dentro da Bíblia, e isso nós sabemos muito bem no contexto sul-africano".

E acrescenta: "Eu nasci sob o apartheid e vivi sob o apartheid. São apenas alguns anos de minha vida sob democracia. É muito lamentável quando um político de qualquer país usa a igreja ou a Bíblia sob os holofotes para promover a si mesmo".

No Reino Unido, o bispo de Liverpool, Paul Bayes, postou no Twitter uma foto do presidente Trump segurando a Bíblia com a seguinte legenda: "É um bom livro. Trechos: 'Deus é amor', 'Ame seus inimigos', Que ele possa julgar seu povo com retidão e seus pobres com justiça. Que ele defenda a causa dos pobres do povo... #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam)"

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