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Chapa de Cristina Kirchner ou Macri? Por que as eleições primárias são essenciais para decidir o futuro da Argentina
- Author, Marcia Carmo
- Role, De Buenos Aires para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 7 min
Em um clima de polarização eleitoral, os eleitores argentinos irão às urnas, neste domingo, para votar nas Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO). Trata-se da etapa prévia ao primeiro turno da eleição presidencial, no dia 27 de outubro, que tem como principais candidatos, de um lado, o atual presidente argentino Mauricio Macri, que tenta a reeleição e, de outro, Alberto Fernández, cuja candidata a vice é a ex-presidente Cristina Kirchner.
Na prática, as PASO funcionam quase como uma eleição geral, já que todos são obrigados a votar e não necessariamente nos candidatos de uma mesma coalizão. Na hora de entrar no 'quarto escuro' (no local onde está a urna de votação), como dizem aqui, o eleitor contará com as boletas de todas as coalizões que estão na corrida eleitoral, como ocorre no primeiro e no segundo turnos. Ele pode votar nos candidatos da mesma frente ou 'cortar a boleta', ou seja, fracionar seu voto nos postulantes de coalizões diferentes.
As coalizões partidárias que não conseguirem 1,5% dos votos serão excluídas das próximas etapas eleitorais.
Criadas em 2009, numa tentativa de democratizar o processo de escolha dos candidatos, como explicam analistas, as primárias foram questionadas nesta eleição, já que todas as coalizões partidárias à presidência definiram seus postulantes antes da votação deste domingo.
Foi o caso das principais chapas, como a de Mauricio Macri e seu vice, o senador peronista Miguel Ángel Pichetto, de 'Juntos por el Cambio' (Juntos pela Mudança), e a do ex-chefe de Gabinete da Presidência durante o kirchnerismo (2003-2015), Alberto Fernández, que também é peronista, e a ex-presidente e senadora Cristina Kirchner, 'Frente de Todos'.
"As duas coalizões, a de Macri e a dos Fernández (Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner), reúnem mais de 70% das intenções de voto. E tanto Macri como Cristina têm altos índices de rejeição. Tem gente que vai votar em Macri porque não quer o retorno do kirchnerismo e tem gente que vai votar em Cristina porque não quer a continuidade de Macri", disse à BBC News Brasil a diretora do Departamento de Ciência Política da Universidade de Buenos Aires (UBA), Elsa Llenderrozas.
A votação será realizada em meio a uma forte crise econômica, com inflação alta, aumento nos índices de pobreza, queda no consumo e sinais incipientes de recuperação em alguns ramos da economia, a partir da colheita recorde do setor agrícola, definido por economistas como essencial para o país, e a retomada de vendas externas de produtos símbolos como a carne bovina e a conquista de novos mercados de exportações.
O debate eleitoral tem sido pautado pela recessão no governo Macri e a herança econômica do kirchnerismo (2003-2015), que incluiu a falsificação de estatísticas, e as denúncias de corrupção envolvendo Cristina Kirchner, que tem uma série de processos na Justiça, e seus ex-auxiliares diretos, como o ex-vice-presidente Amado Boudou e o ex-ministro do Planejamento, Julio De Vido, que estão presos.
Macri tem criticado o legado do kirchnerismo, enquanto Alberto Fernández e Cristina Kirchner, por outro lado, apontam para a escalada inflacionária e para a degradação social no atual governo.
Para Llenderrozas, "o curioso" é que, apesar da crise econômica, Macri esteja entre os preferidos. "Acho que isto significa que um setor da sociedade está dando prioridade a outras questões", disse.
Na visão do analista político Jorge Giacobbe, da consultoria Giacobbe e Associados, neste ambiente político polarizado, o índice de abstenção terá um papel fundamental na eleição deste domingo.
"Se a abstenção for mais alta que o esperado, prejudicará a candidatura de Macri, porque os eleitores da chapa de Cristina irão votar chova ou faça sol, influenciando o clima de campanha para o primeiro turno", disse.
A BBC News Brasil ouviu especialistas sobre a importância das PASO e sobre o cenário eleitoral neste país de pouco mais de 40 milhões de habitantes, com cerca de 33 milhões de eleitores, onde o voto é de papel e a apuração tem duas etapas - uma provisória na noite de domingo e outra definitiva que, em eleições anteriores, levou cerca de quinze dias.
Confira os principais pontos sobre as primárias na Argentina e o ambiente eleitoral:
1. O que se vota
Os argentinos votarão em pré-candidatos de dez chapas eleitorais à presidência. Mas, como todas elas já definiram quem são seus representantes, a eleição está sendo vista como uma espécie de primeiro turno ou uma ampla pesquisa eleitoral, como afirmaram os analistas e consultores políticos Raúl Aragón e Analía del Franco.
Além de votar nos candidatos a presidente e vice, os eleitores votam também nos candidatos a governadores das províncias onde as eleições são realizadas, como a de Buenos Aires, que é a maior do país e tem peso no resultado final. São votados ainda os pré-candidatos a ocupar parte do Senado, deputados federais, deputados provinciais, vereadores e prefeitos, como o da cidade de Buenos Aires.
2. O papel das primárias
As primárias foram questionadas nesta eleição e dividiram opiniões dos analistas.
Para a diretora do Departamento de Ciência Política da Universidade de Buenos Aires, Elsa Llenderrozas, as primárias continuam sendo importantes no calendário eleitoral argentino. "Elas contribuem para que os partidos e as coalizões se organizem para o primeiro turno e permitem ao eleitor conhecer melhor cada candidato e suas propostas", disse.
Para a consultora política Analía del Franco, as primárias "movimentam o eleitorado" e "influenciam a participação e o resultado do primeiro e do segundo turno".
Aragón, no entanto, diz que "as primárias hoje não adiantam nada."
Nas pesquisas de opinião que realizou, o analista e consultor político Jorge Giacobbe disse que os eleitores mostraram "cansaço" em relação às primárias, já que os principais candidatos já foram definidos e o calendário eleitoral inclui uma espécie de três turnos (primárias, primeiro e segundo turno).
3. A apuração
Ao contrário do Brasil, onde o resultado é conhecido pouco depois do fechamento das urnas, na Argentina a votação e a apuração se parecem com os tempos em que não existiam urnas eletrônicas no território brasileiro.
Os fiscais dos partidos acompanham a apuração dos votos em cada uma das mais de cem mil mesas espalhadas pelas escolas do país. Se estão de acordo com a contagem na mesa, eles assinam uma ata concordando com a contagem. As atas são enviadas ao Correio Argentino onde são computadas para o resultado provisório que deve ser divulgado na noite de domingo.
Neste ano, a realização do escrutínio provisório gerou críticas da oposição e Alberto Fernández chegou a sugerir que poderia haver fraude no resultado. A empresa vencedora da licitação para fazer a contagem rápida foi questionada e os primeiros testes de apuração apresentaram falhas, como informou a imprensa local.
Para autoridades do governo Macri, as acusações são "irresponsáveis". Para alguns analistas, como o processo eleitoral "não se modernizou", as "suspeitas" costumam estar presentes nos dias anteriores a votação. O resultado definitivo só deverá ser divulgado dias mais tarde.
4. Pesquisas
Segundo levantamentos de intenção de votos, Alberto Fernández e Cristina Kirchner, da coalizão Frente de Todos, estariam pelo menos 1,5% à frente da chapa formada por Macri e pelo senador peronista Miguel Ángel Pichetto, que já foi aliado de Cristina.
Algumas pesquisas indicam diferença de até 6% a favor da frente kirchnerista. Outras sugerem empate entre as duas chapas, mostrando que esta eleição poderia ser voto a voto.
"Nas pesquisas que realizamos, a chapa Alberto Fernández e Cristina está na frente da coalizão de Macri e Pichetto. Mas de maio para cá, Macri recuperou apoio e o governo tem alimentado este clima de empate, enquanto o lado peronismo-kirchnerismo diz que ganhará", afirmou o analista Ricardo Rouvier, que há anos realiza pesquisas de intenção de votos.
Pesquisa realizada pela Giacobbe e Associados, quinze dias antes da votação deste domingo, indicou que a diferença entre as duas chapas seria em torno de 1,5% a favor de Fernández e de Cristina.
Outros levantamentos, como o da empresa Synopsis, indicaram votação apertada de 40% para a chapa opositora e 38% para a governista. Aragón, porém, estima cerca de 5% de vantagem para a coalizão da ex-presidente.
As regras eleitorais proíbem a divulgação de pesquisas seis dias antes da votação, o que contribui para o suspense.
Para Elsa Llenderrozas, se a chapa de Cristina receber mais de 45% dos votos válidos, será "complicado" para Macri e Pichetto recuperarem terreno no primeiro turno, o que poderia sugerir a vitória da frente opositora kirchnerista.
Na Argentina, para ser eleito presidente, é preciso receber 45% da votação ou 40% e uma vantagem de pelo menos 10% para o segundo colocado, recordou. Para ela, a polarização entre as frentes de Macri e de Cristina acabou reduzindo, nos últimos dias, o total de indecisos. Mas eles também são uma incógnita que pode influenciar no resultado. Pesquisas apontam que os indecisos estariam entre 7% e 10%.
5. Outros candidatos
A polarização entre as chapas de Macri e de Cristina eclipsou outras candidaturas, como a do ex-ministro da Economia do kirchnerismo, Roberto Lavagna.
Desde o início ele tinha se mostrado contrário a disputar as primárias com outras pré-candidaturas de sua coalizão política, como apontam agora ex-aliados. Lavagna, por sua vez, repudiou a "polarização forçada" e, numa clara mensagem aos opositores Cristina e Macri, criticou o estancamento da economia argentina "que já leva oito anos" - quatro anos do segundo mandato da ex-presidente e os quatro anos do mandato macrista.
Para analistas ouvidos pela BBC News Brasil, a disputa está "centrada" entre Macri, de centro-direita, e a chapa de Cristina, de centro-esquerda, e que acabou gerando "desinteresse" pelos candidatos de centro, como o ex-ministro da Economia.
"Lavagna não conseguiu formar uma coalizão de centro e nossas estimativas apontam que ele deverá ter somente cerca de 8% dos votos", disse Aragón.
6. Como foram as primárias anteriores
Em 2015, a abstenção caiu entre o resultado das primárias e a participação eleitoral no primeiro e no segundo turno, à medida que a polarização entre o então candidato Macri e o candidato da ex-presidente Cristina Kirchner, Daniel Scioli, cresceu.
Em termos de total de votos, Macri perdeu para Scioli nas primárias, mas acabou vencendo a eleição no segundo turno, por margem apertada para Scioli. Entre assessores do governo Macri, existe expectativa de que o cenário possa voltar a se repetir neste ano.
Por isso, Macri fez campanha pedindo que os argentinos compareçam às urnas neste domingo. Para eles, a maior presença de eleitores favoreceria Macri, diminuiria a distância para Fernández e aumentaria suas chances de reeleição.
Na chapa de Cristina, a expectativa é de vitória na votação deste domingo e nas próximas etapas da eleição.
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