A mulher que foi sequestrada com bebê de colo, virou escrava sexual e hoje ajuda vítimas de abuso

Virginia Isaias e a filha, hoje com 20 anos
Legenda da foto, Vírginia Isaias (à esq.) e a filha (à dir.) foram sequestradas e passaram três meses em poder de uma quadrilha de traficantes | Foto: Arquivo pessoal
    • Author, Nathalia Passarinho
    • Role, Da BBC Brasil em Londres

As lembranças dos três meses em que foi forçada a se prostituir ainda fazem Virginia Isaias, de 52 anos, chorar. A voz some e ela interrompe a entrevista várias vezes, à medida que revela os abusos que sofreu e a violência que presenciou contra outras mulheres.

Compartilhar o sofrimento foi a forma que a mexicana encontrou não só para enfrentar o trauma, mas para ajudar outras vítimas de abuso sexual.

"Às vezes, as mulheres vítimas de abuso conseguem escapar dos agressores. A vida delas é salva, mas é como se estivessem mortas. Elas não funcionam mais. Eu passei nove anos assim. Sem dizer nada, recordando e recordando. Eu estava livre, mas continuava escrava dos meus pensamentos", conta ela à BBC Brasil por telefone.

Os abusos na vida de Virginia começaram cedo. A primeira vez foi aos seis anos, por um vizinho.

"Como eu era muito pequena, não entendi bem o que aconteceu. E não sabia como isso me afetaria", diz.

Ela se casou aos 15 anos com outro jovem, de 16 anos. Com ele, se mudou para os Estados Unidos e teve três filhos. Mas o marido era violento e a agredia com frequência.

"Foram 12 anos de violência doméstica. Busquei ajuda em igrejas, grupos de apoio. Acabei decidindo voltar para o México", conta.

Foto de Virgínia aos 15 anos
Legenda da foto, Virginia se casou com 15 anos e sofreu violência doméstica por 12 anos | Foto: Arquivo pessoal

Virginia deu a volta por cima, abriu uma loja de roupas e importava vestidos e blusas dos Estados Unidos. Os negócios iam bem. Mas numa tarde qualquer, três homens roubaram o estabelecimento dela e a violentaram. Ela engravidou e decidiu ter a filha. Mas o pior ainda estava por vir.

Seis meses após o bebê nascer, Virginia andava pelas ruas de Guadalajara com a filha no colo, quando foi abordada por um grupo de homens e forçada a entrar num carro. Era o início do pior pesadelo que poderia imaginar.

"Me agrediram e levaram a mim e minha filha à Cidade do México. Nos trocaram por dinheiro e nos levaram a Guajaca e depois para Chiapas."

Assim que chegou a uma casa com aspecto de abandonada, foi separada da filha.

Aos poucos, ela foi percebendo o que se passava. Estava sob o domínio de uma quadrilha de tráfico humano e de drogas. Outras 18 mulheres também estavam à mercê da gangue. Várias, assim como Virginia, tinham bebês de colo.

"Não podíamos ter contato com nossos próprios filhos. Trocavam os bebês, então eu amamentava o filho de outras mulheres sequestradas", lembra.

Escrava sexual

A rotina a partir dali foi de exploração em todas as formas possíveis. De quinta a domingo, era "escrava sexual", forçada a fazer sexo com pelo menos nove homens por dia. Em troca, recebia a promessa de que a filha seria alimentada.

"Foram três meses em que fui torturada e vendida à prostituição de quinta a domingo. Também nos colocavam para empacotar drogas, para empacotar partes de corpos de pessoas que eles sequestravam e matavam. Em caixinhas, eles colocavam dedo, orelha, e enviavam para as famílias para pedir resgate."

Desesperada, ela tentou fugir três vezes. Na terceira, chegou a conseguir sair do cativeiro e pediu ajuda aos primeiros policiais que encontrou, para tentar resgatar a filha. Em vez de apoio, foi entregue pelos soldados ao sócio da quadrilha.

"O sócio para quem eu fui entregue me agrediu e dizia: 'Por que você quis fugir? Eu te amo. Por que fugiu?'. Como ele não parava de me bater, respondi que também o amava. E fiz um pedido. Disse que faria o que ele quisesse, mas que precisava ter minha filha de volta", relata.

O homem respondeu que o bebê já havia sido vendido.

"As crianças eram vendidas para diferentes partes do mundo. Essa quadrilha tinha conexão com o mercado negro de venda de crianças para adoção", relata.

Virginia insistiu. Implorou para que o sócio da quadrilha comprasse o bebê de volta.

Ele atendeu aos apelos dela, e Virginia pôde, enfim, rever a menina. A criança renovou as esperanças dela, que passou a pensar em novas formas de escapar da rotina de abusos e agressões.

Uma de suas lembranças mais dolorosas é a de outras mulheres sendo espancadas.

"Eu aprendi a controlar a dor, a não gritar, a ficar calada. Eu vi que outras mulheres, quando reclamavam e gritavam, eles espancavam e, às vezes, matavam", diz Virginia, interrompendo a entrevista para recobrar a voz.

No fim do terceiro mês de cativeiro, surgiu a oportunidade de fugir. Uma operação policial foi deflagrada e as sedes da quadrilha começaram a ser desmanteladas. Os líderes do bando souberam da operação e fugiram da casa onde Virginia era mantida presa.

Virginia após três meses de sequestro
Legenda da foto, Primeira foto de Virginia tirada após os três meses em que foi obrigada a se prostituir e empacotar drogas | Foto: Arquivo pessoal

Só alguns vigias ficaram para trás, para impedir a fuga das mulheres sequestradas.

"Me deixaram lá com alguns homens de vigia. Um deles disse que a mãe estava doente e que precisava de uma cirurgia. Eu disse a ele que podia dar o dinheiro, se me libertasse. Não foi fácil convencê-los."

Com papelão, ela fez um "sapato" improvisado e deixou o cativeiro, cruzando, com a filha no colo, a mata que rodeava o cativeiro. Após uma hora de caminhada, encontrou a estrada e o carro que os vigias que a ajudaram haviam encomendado para a fuga.

A primeira providência de Virginia foi ligar para a irmã e tentar levantar o dinheiro que havia prometido.

"Ela pensava que eu estava morta. Mas conseguiu o dinheiro e eu paguei o que devia a eles."

Superação

Os primeiros anos após o sequestro foram difíceis. Ela buscou os três filhos que teve com o primeiro marido e foi com as quatro crianças para os Estados Unidos. Lá, se virou como pôde para sustentar a família sozinha.

"Comecei a trabalhar limpando casas, fazendo massagem, acupuntura, trabalhei em salões de beleza, vendia produtos de nutrição... Mas ainda tinha muito sofrimento. Tinha muito medo, chorava muito", relembra.

Virginia conta que começou a encontrar um "rumo" quando passou a trabalhar num projeto de assistência de saúde mental para a comunidade latina, na Califórnia. Ajudava compatriotas e pessoas de outros países latino-americanos a identificar problemas mentais e psicológicos e a encontrar ajuda.

"Eu tinha uma pasta com nomes de organizações que ajudam em cada tipo de situação. Se a necessidade era comida, médico, terapia, ajuda contra violência doméstica, abrigos... As pessoas vinham a mim e eu ajudava, encaminhando", conta.

Foi da vontade de ajudar mais, principalmente mulheres vítimas de abuso, que nasceu a Fundação de Sobreviventes de Tráfico Humano, com sede em Santa Ana, na Califórnia.

Virginia Isaias em palestra na fundação
Legenda da foto, Fundação de Sobreviventes de Tráfico Humano dá apoio psicológico a mulheres e virou ponto de encontro para vítimas de abuso compartilharem suas histórias | Foto: Arquivo pessoal

"Percebi que poderia dar o que precisavam de graça, mas isso não era suficiente. Elas precisam de ferramentas, precisam aprender a pescar. Depois de tudo o que passei, ainda choro, ainda sofro, mas hoje sei que tenho uma visão, tenho um propósito de vida, posso dar a mão às pessoas, mas também ferramentas para ajudá-las a reconstruir suas vidas", diz.

A fundação gerida por Virginia oferece assistência a vítimas de tráfico, com apoio psicológico, oferecimento de abrigo e até cursos de capacitação. É também um espaço para que as mulheres se reúnam e compartilhem suas histórias.

"Temos uma oficina, para que as pessoas cheguem e recebam ajuda. Muita gente se cala. Se é homem, sente vergonha. Se é criança, tem medo. Se é mulher, acha que não vai ser aceita. Quando eu conto a minha história, as pessoas se identificam e se sentem mais à vontade para revelar os próprios problemas e abusos que sofreram. Reconhecer o problema é um passo em direção à recuperação", defende.

Já se passaram 20 anos desde que Virginia foi sequestrada e submetida à violência sexual. A filha, que ficou no cativeiro dos seis aos nove meses, hoje está na universidade, na Califórnia. Estuda políticas ambientais e sonha em ajudar na proteção dos animais.

Cartaz da fundação de sobreviventes de tráfico humano
Legenda da foto, Para Virginia, compartilhar sua história foi uma forma de superar o trauma e ajudar outras vítimas de abuso | Foto: Divulgação

Negócio ilegal, lucrativo e cruel

Assim como Virginia, milhões de mulheres em todo o mundo são vítimas, todo ano, de tráfico com finalidade sexual.

Segundo relatório de setembro de 2017 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o tráfico humano gera lucro de US$ 150 bilhões (R$ 485 bilhões) por ano aos traficantes, sendo que US$ 99 bilhões são provenientes especificamente de exploração sexual.

Na América do Sul, 57% do tráfico humano é voltado à exploração sexual, 29% a trabalhos forçados e 14% a outros propósitos (recrutamento para trabalhar com tráfico ou luta armada, por exemplo).

Na América do Norte, o percentual de tráfico humano voltado à exploração sexual é de 55%. Enquanto a maioria dos traficantes é homem (seis em cada dez), a maior parte das vítimas é mulher ou criança - 71%.