Como um investimento ruim nos EUA deixou a japonesa Toshiba à beira do precipício

Directivo de Toshiba

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Legenda da foto, Toshiba enfrenta graves dificultades financieras.

O que aconteceu com a Toshiba, a empresa que já foi considerada o símbolo do milagre econômico do Japão pós-guerra, mas hoje enfrenta sérias dificuldades financeiras?

Com 79 anos de história, a companhia anunciou que se prepara para reportar perdas de pelo menos US$ 3,4 bilhões (R$ 10,50 bilhões) no último ano.

"E muitos acreditam que o pior ainda está por vir", afirmou Karishma Vaswani, correspondente de negócios da BBC na Ásia. O futuro da empresa. advertem alguns especialistas, está em risco.

Um dos principais responsáveis pela atual situação da Toshiba é o desempenho de sua unidade nuclear nos Estados Unidos, que vai provocar uma baixa contábil de aproximadamente US$ 6,3 bilhões (R$ 19,45 bilhões), conforme revelado nesta semana.

O deficit elevado levou à renúncia do presidente da empresa, Shigenori Shiga, e também forçou a companhia a adiar por um mês a publicação de seu balanço contábil.

Eletrônicos no passado

"As pessoas ainda reconhecem o nome Toshiba pelos produtos eletrônicos, mas esse já não é mais o coração de seus negócios", observa Bill Wilson, repórter especialista em negócios da BBC.

Placa da Toshiba

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Legenda da foto, Criada em 1938, a Toshiba ficou conhecida, por seus produtos eletrônicos

A Toshiba, lembra Wilson, não mais fabrica televisores para exportação, e sua linha de eletrodomésticos dá prejuízo.

Nos dias atuais, a japonesa é um conglomerado com diferentes negócios, como a energia nuclear, que responde por um terço de sua renda e, agora, gera prejuízo.

A Westinghouse Electric, subsidiária nuclear da Toshiba nos EUA, comprou ativos de outra firma do setor, a Chicago Bridge & Iron (CB&I), em 2015.

Bill Wilson diz que os ativos adquiridos provavelmente valiam menos do que o estimado inicialmente - e agora há uma disputa sobre o pagamento.

Dificuldades mundiais

O setor de produção de energia nuclear enfrenta desafios em todo o mundo.

Protesto na França contra usinas nucleares

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Legenda da foto, A produção de energia nuclear enfrenta dificuldades em todo o mundo

Desde o desastre ocorrido na japonesa cidade de Fukushima, em 2011, a energia nuclear é um produto muito mais difícil de vender.

Alguns governos têm reduzido a dependência em relação a esse tipo de energia e, em alguns casos, como em Taiwan, houve cancelamento total dos planos de geração de energia atômica.

Além de protestos recorrentes e pressão de ambientalistas, há dificuldades regulatórias e de escassez de pessoal qualificado, o que muitas vezes leva à demora e agrega custo adicional aos projetos.

À espera de ajuda

Apesar das dificuldades, a Toshiba não se dá por vencida.

A companhia espera que sua salvação venha de suas outras linhas de negócios, como a unidade que fabrica chips de memória para telefones e computadores, avaliada entre US$ 9 bilhões e US$ 13 bilhões (R$ 27,7 bilhões a R$ 40 bilhões).

A venda de parte desse negócio compensaria as perdas do setor nuclear. Como fabricante desses chips, a empresa só perde para a coreana Samsung.

Toshiba

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Legenda da foto, Toshiba ainda é um importante fabricante de chips para telefones

Mas alguns dizem que os problemas da japonesa têm raízes mais profundas.

Um exemplo é que sua gestão é classificada como "desastrosa" por Amir Anvarzadeh, da empresa de investimentos BGC Partners, de Cingapura.

Parte do problema é que a gigante japonesa está confiante de que o governo em algum momento vai ajudá-la, diz Karishma Vaswani, correspondente da BBC na Ásia - e como se trata de uma empresa que emprega 180 mil pessoas, é difícil de imaginar um cenário diferente.

Trem com placa da Toshiba ao fundo

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Legenda da foto, Além da Toshiba, outras empresas japonesas enfrentam dificuldades financeiras

Vaswani lembra que outras companhias do país, como a Sharp, Takata e a Mitsubishi, também enfrentam dificuldades.

"A Toshiba não está gerando lucros e mentiu sobre isso. Fez maus investimentos e mentiu sobre isso", acrescenta.

Segundo a correspondente, a empresa sobrevive em grande parte por causa da proteção governamental - uma situação que pouco lembra seus velhos tempos de glória.