Morre irmão de Omran, símbolo do horror da guerra síria

Local de ataque aéreo no distrito de Qaterji, em Aleppo, onde o garoto Omran Daqneesh foi resgatado (18 Agosto 2016)

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Rússia negou que seus aviões tenham borbardeado a casa da família de Omran Daqneesh na área de Aleppo controlada por rebeldes.

O irmão mais velho de Omran Daqneesh, o garoto sírio que chocou o mundo ao ser flagrado sozinho, atônito e coberto de pó e sangue após ser resgatado, morreu em decorrência de ferimentos causados pelo bombardeio à casa da família em Aleppo, afirmam ativistas.

A rede de ativistas Syria Solidarity Campaign, baseada na Inglaterra e que apoia os rebeldes que enfrentam o regime de Bashar Al-Assad, disse que Ali, de 10 anos, "morreu hoje (sábado) por ferimentos causados pelo bombardeio de sua casa pela Rússia/Assad".

Jatos russos e do regime sírio conduziram ataques pesados em áreas controladas pelos rebeldes em Aleppo.

Omran, de cinco anos, foi filmado coberto de pó e sangue após sua casa ser atingida.

As imagens - simbolizando o sofrimento de civis presos em meio aos combates em Aleppo - causaram revolta pelo mundo.

Legenda do vídeo, O resgate do menino que se tornou símbolo do horror da guerra síria

Uma testemunha não identificada em Aleppo citada pela agência de notícias Reuters disse que Ali Daqneesh sofreu hemorragia e danos a órgãos vitais após o bombardeio de 17 de agosto.

Pelo Twitter, o repórter Kareem Shaheen, que colabora para o jornal britânico The Guardian no Oriente Médio, disse ter confirmado a morte com o médico que atendeu Omran.

"Esse garoto sírio (Omran) sobreviveu. Seu irmão mais velho morreu. E o mundo continua a assistir, derramando lágrimas, fazendo nada", escreveu o repórter.

Aleppo, que até o início da guerra civil era o centro comercial e industrial do país, foi praticamente dividida em duas desde 2012, com o governo controlando o oeste e os rebeldes, o leste.

Histórico

A guerra na Síria é um conflito complexo que envolve forças locais, regionais e internacionais. Já custou a vida de ao menos 250 mil pessoas e o deslocamento de milhões de moradores.

O estopim do conflito foi a reação do regime de Bashar Al-Assad contra manifestações pró-democracia iniciadas em março de 2011, na cidade de Daraa, após a prisão e tortura de adolescentes que haviam pintado slogans revolucionários no muro de uma escola.

Aleppo

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Homem dirige uma camionete em meio a construções destruídas em região de Aleppo controlada por rebeldes e conhecida como Bab al-Hadid

Forças de segurança abriram fogo contra manifestantes, o que provocou mortes e alimentou a insurgência por todo o país - em julho daquele ano, centenas de milhares tomavam as ruas.

Membros da oposição eventualmente começaram a pegar em armas. A princípio, para se defender; depois, para expulsar as forças estatais de suas regiões.

O país entrou em guerra civil, com brigadas rebeldes lutando contras tropas governamentais pelo controle de cidades, povoados e zonas rurais. Em 2012, a violência chegou à capital Damasco e à segunda metrópole mais importante do país, Aleppo.

Fumaça amana de posições rebeldes após ataques no sul de Aleppo (18 Agosto 2016)

Crédito, AFP

Legenda da foto, Luta pelo controle de rotas de abastecimento a Aleppo se intensificou nas últimas semanas

O conflito hoje é mais do que uma disputa entre grupos pró e anti Assad. Adquiriu contornos sectários, jogando a maioria sunita contra o ramo xiita alauita de Assad.

E o avanço do grupo extremista autodenominado Estado Islâmico deu uma nova dimensão à guerra. O EI se aproveitou do caos e tomou controle de grandes áreas na Síria e no Iraque, onde proclamou a criação de um "califado" em junho de 2014.

Seus integrantes estão envolvidos numa "guerra dentro da guerra" na Síria, enfrentando rebeldes e rivais jihadistas da Frente al-Nusra, ligada à Al-Qaeda, bem como o governo e forças curdas.

Omran Daqneesh, 17 Aug 16

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Omran Daqneesh, tomado por poeira e sangue, ao lado da irmã em uma ambulância após serem resgatados de um bombardeio na área de al-Qaterji, em Aleppo

O conflito também mudou muito desde o início. Moderados seculares hoje são superados em número por islâmicos e jihadistas, adeptos de táticas brutais que motivam revolta pelo mundo.

E a batalha já além de ser contra ou favor de Assad - adquiriu um tom sectário, onde a maioria sunita enfrenta a ala xiita que apoia o presidente, e inclui a intervenção de países vizinhos e de potências globais.

Uma coalizão liderada pelos EUA lançou ataques aéreos na Síria em setembro de 2014 em tentativa de enfraquecer o EI. Em 2015, a Rússia lançou campanha aérea alvejando terroristas na Síria, mas ativistas da oposição dizem que os ataques têm matado civis e rebeldes apoiados pelo Ocidente.

Todas as partes em conflito já foram acusadas de crimes de guerra - como ataques a civis, tortura, estupro, desaparecimentos forçados e bloqueios que impedem fluxo de alimentos e serviços de saúde.