O que aconteceria com o corpo se a morte ocorresse no espaço

Legenda do áudio, Em áudio: O que aconteceria com o corpo se a morte ocorresse no espaço
    • Author, Tim Thompson
    • Role, The Conversation*
  • Tempo de leitura: 4 min

Como as viagens espaciais para fins recreativos estão se tornando uma possibilidade muito real, pode chegar um momento em que viajaremos para outros planetas nas férias, ou talvez até mesmo para viver. A empresa Blue Origin já começou a enviar ao espaço passageiros pagantes em voos suborbitais. E Elon Musk espera estabelecer uma base em Marte com sua empresa SpaceX.

Isso significa que precisamos começar a pensar sobre como será viver no espaço - e também sobre o que acontecerá quando alguém morrer ali.

Após a morte aqui na Terra, o corpo humano passa por vários estágios de decomposição. Estes foram descritos já em 1247 em um livro escrito pelo médico chinês Song Ci, essencialmente o primeiro manual de ciência forense.

Primeiro, o sangue para de fluir e começa a se acumular nas parte de baixo do corpo por causa da gravidade, formando manchas, em um processo conhecido como livor mortis. Em seguida, o corpo esfria ao algor mortis e os músculos enrijecem devido ao acúmulo descontrolado de cálcio nas fibras musculares. Este é o estado de rigor mortis. Em seguida, as enzimas, proteínas que aceleram as reações químicas, quebram as paredes celulares, liberando seu conteúdo.

Ao mesmo tempo, as bactérias em nosso intestino escapam e se espalham por todo o corpo. Devoram os tecidos moles - a putrefação - e os gases que liberam fazem o corpo inchar. Durante o rigor mortis, os músculos e os tecidos moles são destruídos, emitindo fortes cheiros.

A primeira foto em cores da superfície de Marte

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Condições desérticas em Marte podem fazer com que tecidos moles do corpo sequem, e talvez o sedimento levado pelo vento corroa e danifique o esqueleto de forma semelhante à que vemos na Terra

Esses processos de decomposição são os fatores intrínsecos, mas também existem fatores externos que influenciam o processo de decomposição, incluindo a temperatura, a atividade de insetos, a forma como o corpo foi tratado, enterrado ou processado - assim como a presença de fogo ou água.

Sob condições secas, quentes ou frias, pode haver uma dessecação ou mumificação.

Em ambientes úmidos sem oxigênio, pode ocorrer a formação de adipocere (uma substância semelhante à cera orgânica), já que a água pode causar a quebra das gorduras por meio do processo de hidrólise. Este revestimento ceroso pode atuar como uma barreira na parte superior da pele para protegê-la e preservá-la.

Mas, na maioria dos casos, os tecidos moles acabam desaparecendo para revelar o esqueleto. O tecido ósseo é muito mais resistente e pode sobreviver por milhares de anos.

Interrompendo a decomposição

Então, o que dizer da morte fora da Terra?

A gravidade diferente de outros planetas certamente afetaria o estágio de livor mortis. E a falta de gravidade no espaço impediria o sangue de se acumular e formar as manchas típicas do estágio.

Dentro de um traje espacial, o rigor mortis ainda ocorreria, pois é o resultado da cessação das funções corporais. E as bactérias do intestino ainda devorariam os tecidos moles. Mas essas bactérias precisam de oxigênio para funcionar adequadamente e, portanto, o fornecimento limitado de ar retardaria significativamente o processo.

A primeira pegada na Lua, missão Apollo 11, julho de 1969.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Na Lua, os corpos podem mostrar sinais de alterações induzidas pelo calor ou pelo congelamento

Micróbios do solo também ajudam na decomposição e, portanto, qualquer ambiente planetário que iniba a ação microbiana, como a secura extrema, aumenta as chances de preservação dos tecidos moles.

A decomposição em condições tão diferentes do ambiente da Terra levaria fatores externos a influenciar estruturas como o esqueleto de formas bem mais complexas. Quando estamos vivos, o osso é um material vivo que contém tanto materiais orgânicos, como vasos sanguíneos e colágeno, quanto materiais inorgânicos em uma estrutura cristalina.

Normalmente, o componente orgânico se decompõe e, portanto, os esqueletos que vemos nos museus são, em sua maioria, remanescentes inorgânicos. Mas em solos muito ácidos, que podemos encontrar em outros planetas, pode ocorrer o inverso: o componente inorgânico desaparece, deixando apenas os tecidos moles.

Na Terra, a decomposição de restos mortais faz parte de um ecossistema equilibrado em que os nutrientes são reciclados por organismos vivos, como insetos, micróbios e até plantas. Ambientes em planetas diferentes não terão evoluído para fazer uso de nossos corpos da mesma maneira eficiente. Insetos e animais necrófagos não estão presentes em outros planetas do nosso sistema.

Mas as condições desérticas e secas de Marte podem causar o ressecamento dos tecidos moles, e os sedimentos soprados pelo vento podem corroer e danificar o esqueleto do jeito que ocorreria na Terra.

A temperatura também é um fator chave na decomposição. Na Lua, por exemplo, as temperaturas podem variar de 120°C a -170°C. Os corpos podem, portanto, mostrar sinais de alteração induzidos pelo calor ou pelo congelamento.

Mas eu acho ser provável que os restos mortais ainda pareçam humanos, já que não ocorreria o processo completo de decomposição que vemos aqui na Terra. Nossos corpos seriam "alienígenas" no espaço e talvez devêssemos encontrar uma nova forma de prática funerária, que não envolvesse o alto consumo de energia de uma cremação nem a escavação de sepulturas em um ambiente inóspito hostil.

*Tim Thompson é reitor de Ciências da Saúde e da Vida e Professor de Antropologia Biológica Aplicada na Teesside University.

O texto foi publicado originalmente no The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).

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