O que um padeiro de Pompeia pode nos ensinar sobre felicidade
- Author, Nadejda Williams
- Role, The Conversation*
- Tempo de leitura: 5 min
Apesar de uma pandemia que mudou radicalmente a vida de bilhões de pessoas, o "Relatório da Felicidade Mundial" indica que ela, a felicidade, permanece estável no mundo, um testemunho da resiliência da raça humana.
Como pesquisadora da Antiguidade Clássica, as discussões sobre felicidade que costumam ocorrer em meio a crises pessoais ou sociais como a que vivemos não me parecem novidade.
Hic habitat felicitas ou "A felicidade mora aqui", proclama uma inscrição encontrada em uma padaria de Pompeia, cerca de 2 mil anos depois que seu dono viveu e provavelmente morreu na erupção do vulcão Vesúvio, que destruiu a antiga cidade romana no ano 79.
O que felicidade significava para aquele padeiro pompeiano?
E como a antiga ideia romana de felicidade pode nos ajudar em nossa busca por ela atualmente?
Felicidade pra mim, mas não pra você
Os romanos consideravam Felicitas e Fortuna (palavra de raiz comum que significa sorte) deusas.
Ambas tinham templos em Roma onde aqueles que buscavam seus favores depositavam oferendas e faziam promessas.
Felicitas também foi retratada em moedas romanas do século 1 a.C. até 4 d.C., o que indica sua possível ligação com a prosperidade dos cofres do Estado.
Alguns imperadores romanos também tentaram associar sua imagem a da deusa, como mostram algumas das moedas que cunharam.

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A expressão "Felicitas Augusta" está no verso de uma moeda de ouro do imperador Valeriano, uma iconografia que sugere que ele era o homem mais feliz do Império e favorecido pelos deuses.
Ao invocar Felicitas em sua própria casa e negócio, o padeiro pompeiano talvez estivesse tentando atraí-la, na esperança de que a bênção da felicidade recaísse sobre sua vida e loja.
Mas essa ideia de dinheiro e poder como fonte de felicidade continha uma ironia cruel.
Felicitas e Felix eram nomes comuns para escravos de ambos os sexos. Por exemplo, Antonius Felix, governador da Judeia no século 1, era ex-escravo - não há dúvida de que sua sorte mudou. E Felicitas era o nome da escrava que foi martirizada junto com Perpétua em 203 d.C., hoje ambas adoradas como santas pela Igreja Católica.

Os romanos viam os escravos como prova do status superior de seus proprietários e como a personificação de sua felicidade.
Vista dessa forma, a felicidade parece um jogo de soma zero, entrelaçado com poder e dominação. A felicidade no mundo romano tinha um preço e quem pagava por ele eram os escravos, que a conferiam a seus donos.
É claro que para as pessoas escravizadas, a felicidade poderia estar em algum lugar, mas certamente não no Império Romano.
Onde realmente mora a felicidade?
É possível imaginar na sociedade atual que a felicidade só possa existir às custas do outro?
Onde está a felicidade, se os casos de depressão e outras doenças mentais aumentam e as horas de trabalho duram mais a cada dia?

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Ao longo das duas últimas décadas, os americanos passaram a trabalhar cada vez mais horas. Uma pesquisa Gallup em 2020 revelou que 44% dos funcionários em tempo integral trabalhavam mais de 45 horas por semana, enquanto 17% chegavam a ou ultrapassavam 60 horas.
O resultado dessa cultura de excesso de trabalho é que felicidade e sucesso também parecem ser uma equação de soma zero. Há um custo, geralmente humano, quando o trabalho e a família travam uma disputa por tempo e atenção, em que a felicidade é sempre a vítima. Isso já acontecia muito antes da pandemia de covid-19.
Estudos sobre felicidade são mais populares em tempos de alto estresse social. Talvez não seja coincidência que o mais antigo dos estudos, da Universidade de Harvard, tenha surgido durante a Grande Depressão da década de 1930. Em 1938, um grupo de pesquisadores mediu a saúde física e mental de 268 alunos e acompanhou-os, além de seus descendentes, por 80 anos.
Qual foi a sua principal descoberta? "Relacionamentos próximos, mais do que dinheiro ou fama, mantêm as pessoas felizes por toda a vida."
Isso inclui tanto um casamento e uma família felizes quanto uma comunidade de amigos próximos. Os relacionamentos destacados no estudo são aqueles baseados no amor, cuidado e igualdade, em vez de abuso e exploração.
Assim como a Grande Depressão motivou o estudo de Harvard, a atual pandemia levou o sociólogo Arthur Brooks a lançar uma coluna semanal sobre felicidade em abril de 2020 intitulada "Como construir uma vida". No primeiro de seus artigos, Brooks investiga os estudos sobre como a fé e o trabalho com algum sentido, além de relacionamentos próximos, podem melhorar nossa felicidade.
Encontrando a felicidade no caos
O conselho de Brooks está relacionado às descobertas do "Relatório da Felicidade Mundial" de 2021, que revelaram "um aumento de cerca de 10% no número de pessoas que disseram estar preocupadas ou tristes no dia anterior".

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A fé, as relações e um trabalho recompensador contribuem para o desenvolvimento de sentimentos de segurança e estabilidade. Tudo isso sofreu com a pandemia.
O padeiro pompeiano que escolheu colocar aquela placa em seu local de trabalho provavelmente concordaria que existe uma relação significativa entre felicidade, trabalho e fé.
E, embora ele não tenha passado por uma pandemia, ou pelo menos não se tenha provas disso, ele não era alheio ao estresse social.
É possível que sua escolha decorativa refletisse uma tendência de ansiedade, o que é compreensível considerando a turbulência política em Pompeia e no Império Romano nos últimos 20 anos de vida da cidade.
Sabemos que quando ocorreu a erupção, em 79 d.C., alguns pompeianos ainda estavam reconstruindo suas casas ou consertando os danos causados pelo terremoto de 62 d.C.
A vida do padeiro certamente estava cheia de elementos que o lembravam da instabilidade e da possibilidade de um desastre iminente. Talvez a placa colocada por ele fosse uma forma de lidar com esses medos. Afinal, pessoas realmente felizes sentiriam necessidade de colocar uma placa proclamando a presença da felicidade em seu lar?
Ou talvez eu esteja analisando excessivamente aquele objeto, e ele era simplesmente um ornamento produzido em massa, uma versão do século 1 do "Lar Doce Lar" de nossa época, que o padeiro ou sua esposa compraram por algum capricho.
De qualquer forma, a placa contém uma verdade importante: as pessoas do mundo antigo tinham sonhos e aspirações de serem felizes, como as pessoas de hoje.
O Vesúvio pode ter acabado com os sonhos de nosso padeiro, mas a pandemia não precisa ter esse efeito sobre nós. E embora o estresse do último ano e meio possa ter sido insuportável, não houve melhor momento para reavaliar nossas prioridades e nos lembrar de colocar as pessoas e nossos relacionamentos em primeiro lugar.
Nadejda Williams é professora de História Antiga na West Georgia University. Este texto foi publicado originalmente no site The Conversation e está sendo publicado aqui sob uma licença Creative Commons.Leia o artigo original aqui (em inglês).

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