A descoberta na América do Sul que desafia ideia de que eram os homens que caçavam grandes animais na pré-história

Desenho em pedra de caçadores

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Ossada de jovem enterrada com artefatos para caça foi encontrado em sítio arqueológico no Peru
    • Author, Annemieke Milks
    • Role, The Conversation*
  • Tempo de leitura: 4 min

Por muito tempo pensou-se que os homens eram os únicos encarregados da atividade de caça nas sociedades pré-históricas.

Um novo estudo publicado no periódico Science Advances, entretanto, une-se ao rol de evidências que contradizem essa ideia.

A pesquisa localizou, na região da Cordilheira dos Andes no Peru, o corpo de uma mulher enterrado cerca de 9 mil anos atrás com um kit de ferramentas usadas na época para caçar.

Batizada de indivíduo 6 de Wilamaya Patjxa (o nome do sítio arqueológico), ou "WPI6", ela foi encontrada com uma coleção de ferramentas feitas de pedra.

Entre elas havia as chamadas pontas líticas, instrumentos talhados em pedra com formato alongado e uma ponta aguda que eram acopladas a bastões, dando origem a uma arma propulsora chamada átlatl.

Esse dispositivo era arremessado, segundo os autores, na tentativa de abater grandes mamíferos.

Desenho ilustra a idade da pedra

Crédito, DE AGOSTINI PICTURE LIBRARY

Legenda da foto, As armas propulsoras deram lugar ao arco e flecha com o passar do tempo

WPI6 tinha algo entre 17 e 19 anos quando morreu. Seu sexo biológico foi determinado pela presença de um biomarcador coletado nos dentes, os peptídeos.

No local em que fora enterrada também havia ossos de grandes mamíferos, indicando o significado e valor da caça na sociedade da qual fazia parte.

Os pesquisadores também avaliaram as evidências disponíveis de outras ossadas enterradas no mesmo período no continente americano, em busca especificamente de sepulturas que contivessem ferramentas semelhantes às que localizaram.

Eles identificaram 27 esqueletos cujo sexo biológico poderia ser identificado. Do total, 41% eram provavelmente do sexo feminino.

Para os autores, os achados sinalizam que a caça de animais de grande porte era feita por homens e mulheres em grupos de caçadores-coletores que viviam no continente americano naquele período.

Ponta de flecha

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Artefatos de pedra são chave para conhecermos o papel das mulheres na caça nas sociedades pré-históricas

O 'homem caçador' em xeque

A ideia vai contra a hipótese do "homem caçador" formulada nos anos 1960 — e cada vez mais posta à prova.

Essa teoria supunha que apenas os homens eram os principais, quando não exclusivos, encarregados das atividades de caça nas antigas sociedades de caçadores-coletores.

Ela está baseada na visão clássica das sociedades caçadoras-coletoras, que estabelecia uma divisão do trabalho por gênero — os homens caçavam, enquanto as mulheres tinham a tendência de permanecer perto dos filhos, dos armazenamentos de forragem e dos locais com disponibilidade de peixe.

Mesmo esses modelos, contudo, apresentavam grandes variações. Entre os agta, nas Filipinas, as mulheres figuravam entre os principais caçadores, e não apenas assistentes.

Até hoje algumas sociedades caçadoras-coletoras ainda usam armas propulsoras, utilizadas também nas sociedades modernas em algumas competições de lançamento de objetos, com a participação de mulheres e crianças.

Arqueólogos que analisam dados sobre esses eventos afirmam que o átlatl pode ter sido uma espécie de equalizador de gênero, facilitando a caça tanto para homens quanto para mulheres, já que seu manuseio depende pouco da força e da estatura de quem o manipula.

O estudo não é o primeiro a colocar a hipótese do "homem caçador" em xeque — outros achados arqueológicos apontam na mesma direção.

Um deles foi localizado em um sítio arqueológico de 34 mil anos em Sunghir, na Rússia, onde cientistas descobriram sepulturas de dois jovens, sendo um deles provavelmente uma menina com idade entre 9 e 11 anos.

Ambos tinham anormalidades físicas e foram enterrados com 16 lanças feitas com marfim de dentes de mamute — uma oferenda valiosa do que provavelmente eram instrumentos para caça.

Em 2017, por sua vez, descobriu-se que a famosa sepultura de um guerreiro viking encontrada no começo do século 20 na Suécia era, na verdade, de uma mulher.

O achado causou grande — e, de certa forma, surpreendente — discussão na época e revela o quanto nossas ideias atuais sobre papéis de gênero podem afetar a interpretação da história.

Já se falou que "trabalhos de homem e trabalhos de mulher" podem existir por uma questão evolutiva. A divisão seria uma vantagem, por exemplo, por permitir que mulheres grávidas ou que estivessem amamentando pudessem estar perto de suas bases, para que elas e os mais jovens permanecessem seguros.

Estamos cada vez mais percebendo, entretanto, que esses modelos são demasiadamente simplistas.

Como a caça já foi fundamental para a sobrevivência para muitos grupos caçadores-coletores, uma participação mais ampla dos indivíduos da comunidade na atividade também faz sentido do ponto de vista evolutivo.

O passado, como dizem alguns, é um país estrangeiro, e, quanto mais evidência coletamos, mais percebemos a grande variedade de comportamentos humanos que parecem ter existido.

*Annemieke Milks é pesquisadora sênior da Universidade College London.

Este texto foi publicado originalmente no site The Conversation. Leia o original aqui.

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