Os mecanismos da mente que ajudam (ou atrapalham) a avaliar riscos como o do coronavírus

Crédito, Getty Images
- Author, Paula Adamo Idoeta
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Tempo de leitura: 6 min
Tomamos decisões piores em tempos de incerteza ou de estresse? Não necessariamente, defende um acadêmico britânico, mas desde que saibamos reconhecer a incerteza (em vez de tentar tirá-la do caminho ou ignorá-la).
Para David Tuckett, professor e diretor do Centro de Estudos de Incerteza na Tomada de Decisões, na Faculdade de Ciências do Cérebro da Universidade College London, entender como nossa mente age em meio à incerteza ajuda indivíduos e governos a reduzirem a chance de erros - ou pelo menos serem mais conscientes sobre o que pode dar errado - ao agir e definir políticas públicas em momentos-chave, como crises econômicas agudas ou na atual pandemia do novo coronavírus.
"Há um pouco de mito criado por acadêmicos e outros de que, em situações de incerteza, você consegue saber se suas decisões serão boas ou ruins antes de tomá-las. Claro que, depois da tomada, é fácil dizer se a decisão foi boa ou ruim. A questão é: sua decisão é boa ou ruim com o que você sabia no momento em que a tomou?", diz Tuckett à BBC News Brasil.
O acadêmico, que estuda o processo decisório particularmente no mercado financeiro, defende que, nas situações em que o futuro é completamente incerto, adotamos dois jeitos de tomar decisões: um que ele chama de "estado dividido" e outro, de "estado integrado".
"No estado dividido, você remove a incerteza por essencialmente remover o que lhe cause incerteza - se uma coisa o deixa ansioso, você diz a si mesmo 'não pense a respeito, apenas decida'. A probabilidade é de que isso leve a uma decisão ruim. Se você toma uma decisão em um estado dividido simplesmente porque não tolera o estresse e a ansiedade, provavelmente não perceberá o que pode dar errado na sua decisão."
No estado integrado, argumenta ele, a decisão não é necessariamente mais racional nem livre de riscos, mas é fruto de curiosidade, mais bem-informada e preparada para o que pode dar errado - e para a possibilidade de que a decisão tenha de ser revista em um futuro próximo.

Crédito, Getty Images
"Você talvez precise mudar sua forma de pensar e obter informações. Isso é um estado integrado, em que você sabe que tomou uma decisão que pode dar errado, mas que por isso mesmo você está mais atento à possibilidade de mudar de ideia", agrega.
"Enfrente o que você não sabe. Seres humanos não são paralisados pelo desconhecido. Computadores, sim - sem informação, eles simplesmente congelam."
Isso não equivale, diz ele, a escantear a incerteza ou mesmo o risco. Mas, se o contexto permitir, encará-los como chances de testar novas abordagens e produzir inovações.
"Me contaram a história de um projeto que financiava negócios ecológicos, em que um investidor perguntou: 'como posso ter certeza de que o negócio vai dar certo?' Essa pessoa nunca vai financiar um negócio inovador", porque essa certeza simplesmente não existe, defende Tuckett.
O pesquisador desenvolveu o que chama de "teoria de narrativa da convicção". Segundo ela, nossos processos cognitivo e emocional interagem para criar, na nossa mente, uma narrativa sobre o futuro - são histórias que contamos a nós mesmos e que podem nos deixar mais propensos ou não a determinadas decisões.
Isso não é bom ou ruim, mas simplesmente a forma como damos sentido ao mundo, diz Tuckett. O problema é quando as narrativas levam a processos falhos ou passam a ignorar a incerteza radical.
Aprendizados da crise de 2008
Em 2007 e 2008, um dos principais gatilhos para a crise financeira que se espalhou pelo mundo foi a oferta indiscriminada de crédito para a compra de imóveis nos EUA, sem que isso tivesse sido acompanhado de um aumento real de renda dos compradores.
À medida que os juros dos financiamentos subiram, descobriu-se que muitos compradores não seriam capazes de quitar a compra de seus imóveis. É a chamada bolha imobiliária das hipotecas subprime.
Para David Tuckett, o episódio é um exemplo da tomada de decisões em estado dividido, feita com base na narrativa falha de que todos os riscos estavam racionalmente calculados por análises de custo-benefício, como se não houvesse incerteza naquelas operações de crédito.
Até 2008, a crença de muitos agentes envolvidos no mercado imobiliário americano era de que os preços dos imóveis continuariam subindo, sem cogitar que a bolha imobiliária acabaria estourando e gerando uma onda de desconfiança nas instituições financeiras.
"(As pessoas) eram cegas aos riscos até o ponto em que ficou tão ruim que, quando algumas empresas começaram a se dar mal, ninguém tinha nem ideia do que fazer, e isso levou ao pânico", diz.

Crédito, Getty Images
É o erro, argumenta, em se ignorar a "incerteza radical".
E será que podemos usar esse aprendizado em um mundo incerto sob a pandemia do novo coronavírus?
"Primeiro, olhar com atenção se as pessoas estão levando em conta a incerteza. E isso é uma via de mão dupla - a incerteza nem sempre é ruim, pode ser também liberdade de ação para agir de novas formas. No momento, as pessoas e empresas que vão se sair melhor serão as que se adaptarão melhor à nova circunstância, rapidamente e com mais eficiência. Diria que reconhecer que o futuro não será igual ao passado e que há incerteza é o primeiro desafio."
'Preparação global para incertezas'
Outro problema é dificuldade de governos em tomar decisões em tempos de incerteza. Tuckett tem uma opinião polêmica: a de que órgãos fiscalizadores que analisem a posteriori decisões de governos podem acabar sendo, sem querer, mais prejudiciais do que benéficos.
Isso porque esses órgãos acabam forçando governos a tomar decisões que não sejam necessariamente as melhores, mas sim que sejam bem vistas.
"Faz com que os decisores, em vez de agir pensando no que acham que será a melhor decisão naquele momento, ficarão pensando 'se eu fizer isto, vou me meter em problemas depois (com o órgão fiscalizador)?' E isso leva a decisões piores, e a menos riscos - e queremos que as pessoas assumam riscos. Não riscos estúpidos, mas, em um mundo em mutação, queremos que as pessoas tentem novas formas de fazer as coisas."

Crédito, Getty Images
Nesse contexto, Tuckett é parte de um grupo de acadêmicos que defende a criação de instâncias internacionais - apelidadas de "Órgãos de Prontidão Global" - que elaborem propostas políticas para as incertezas de nosso mundo futuro - desde as novas pandemias que provavelmente virão até crises financeiras e os efeitos da mudança climática.
A ideia parte do argumento de que as estruturas governamentais (ou mesmo órgãos supranacionais atuais, como a Organização Mundial da Saúde) não são capazes de assumir esse papel, principalmente porque suas decisões costumam ser tomadas a portas fechadas e sob influências políticas. E também porque esse tipo de decisão exige investimentos que podem não trazer dividendos políticos.
"Digamos que você seja o presidente do Brasil e tem a escolha de gastar R$ 1 milhão para preparativos (para crises futuras) ou R$ 1 milhão para gastar em algo que vai beneficiar as pessoas agora. É muito tentador gastar agora, porque nos preparativos, o custo é de curto prazo, mas o benefício é de longo prazo, ou mesmo nunca", diz.
"E um dos maiores problemas da prevenção é que se você é bem-sucedido, ninguém percebe. Por causa dessa assimetria, você precisa de um órgão que analise isso e emita comunicados públicos e transparentes sobre o assunto, um órgão ao qual jornalistas possam fazer perguntas difíceis. A maioria dos governos olha para essas coisas (planejamento estratégico), mas se isso é feito a portas fechadas, as decisões difíceis são tomadas a portas fechadas e, portanto, em um estado dividido."
"O 'Órgão Global de Prontidão' (Office for Global Preparedness, na expressão original em inglês) é necessário porque o futuro é incerto e não há decisões erradas. Tudo o que você pode fazer é questionar, 'dadas as condições da época, foi uma decisão sensata?' Por exemplo, acho que posso dizer que, se um governo não tem um plano para o próximo coronavírus, e se a comunidade internacional tampouco tem um plano, então temos um problema. (...) Não dá para erradicar o risco. A questão é como ter uma abordagem sensata e testar se o governo está sendo sensato."
A ideia é de difícil implementação em um um mundo de recursos públicos que parecem cada vez mais escassos. Mas, em um seminário online para discutir o assunto, o cientista alemão Gerd Gigerenzer, diretor de um centro de estudos de risco da Universidade de Potsdam (Alemanha), argumentou que a incerteza do momento atual coloca em xeque a ideia de otimização de gastos tão defendida por políticas fiscais, particularmente no pós-crise de 2008.
"Os hospitais alemães foram, durante anos, criticados por não otimizar leitos de UTI e equipes médicas, ou seja, por não cortá-los. Agora, na crise do coronavírus, isso se tornou uma das maiores vantagens do país. (...) A otimização é uma ideia linda, mas se aplicada em circunstâncias erradas e sob a incerteza, cria sistemas frágeis e leva a grandes danos."

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!
Este item inclui conteúdo extraído do Google YouTube. Pedimos sua autorização antes que algo seja carregado, pois eles podem estar utilizando cookies e outras tecnologias. Você pode consultar a política de uso de cookies e os termos de privacidade do Google YouTube antes de concordar. Para acessar o conteúdo clique em "aceitar e continuar".
Final de YouTube post, 1
Este item inclui conteúdo extraído do Google YouTube. Pedimos sua autorização antes que algo seja carregado, pois eles podem estar utilizando cookies e outras tecnologias. Você pode consultar a política de uso de cookies e os termos de privacidade do Google YouTube antes de concordar. Para acessar o conteúdo clique em "aceitar e continuar".
Final de YouTube post, 2
Este item inclui conteúdo extraído do Google YouTube. Pedimos sua autorização antes que algo seja carregado, pois eles podem estar utilizando cookies e outras tecnologias. Você pode consultar a política de uso de cookies e os termos de privacidade do Google YouTube antes de concordar. Para acessar o conteúdo clique em "aceitar e continuar".
Final de YouTube post, 3












