O que há por trás da briga de 8 países sul-americanos com a Amazon

Montagem mostra logo da Amazon com o Rio Amazonas atrás
Legenda da foto, Domínio na internet está colocando os países da Floresta Amazônica contra a gigante de tecnologia dos EUA
    • Author, Pablo Uchoa
    • Role, BBC World Service
  • Tempo de leitura: 6 min

É um nome que evoca grandes proporções: a maior floresta tropical do mundo, uma empresa global de tecnologia e agora uma saga diplomática que está prestes a terminar.

Após sete anos de disputas, a Corporação da Internet para Designação de Nomes e Números (Icann, na sigla em inglês) deu um prazo final para que a Amazon, gigante do comércio eletrônico, e os governos de oito países sul-americanos cheguem a um acordo sobre como usar a extensão ".amazon" .

O cabo de guerra entre as nações e a empresa de tecnologia pode ter impacto na governança da própria internet.

As duas partes precisam chegar a um acordo até 7 de abril, a fim de evitar uma decisão unilateral da diretoria executiva da Icann.

Mas, para entender o que está em jogo, precisamos voltar a 2012, quando a Icann decidiu ampliar sua lista de domínios genéricos de nível superior (gTLDs) - os nomes que vêm depois do ponto - como o "com" em sites ". com".

Novos domínios

As novas regras permitiram que as empresas solicitassem novas extensões, oferecendo aos usuários e às marcas novas formas de personalizar o nome e o endereço do site.

Blogueira de comida

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Os usuários agora podem registrar nomes de sites com mais de 1,2 mil novas extensões, incluindo .blog e .you

Com cerca de 4,4 bilhões de usuários de internet espalhados pelo planeta, as regras também aceitam nomes de domínio genéricos registrados em caracteres não-latinos.

No entanto, a Icann criou regras especiais para extensões que remetam a localizações geográficas ou geopolíticas e comunidades étnicas, linguísticas e culturais - tornando mais fácil para qualquer um se opor ao uso desses nomes.

Aposta da Amazon

Entusiasta das novas regras, a Amazon solicitou 76 novos nomes de domínio de nível superior, incluindo .app, .free, .cloud e .kindle - ao custo de US$ 185 mil cada apenas em taxas de inscrição.

O Google foi ainda mais longe e reivindicou 101 novos domínios de nível superior, enquanto uma start-up chamada Donuts, fundada com o único objetivo de registrar e administrar novos gTLDs, solicitou 307 - um indício de quão lucrativo algumas pessoas acreditam que o novo negócio de gTLDs vai ser.

Até 28 de fevereiro de 2019, como mostram as estatísticas mais recentes, 1.232 novas extensões tão variadas quanto .blog, .you, .pet e .fitness haviam sido aprovadas.

A Icann recebeu um total de 1.930 pedidos para nomes de domínio de acordo com as novas regras.

Arte gráfica mostra diferentes tipos de domínio

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Desde 2012, a Icann recebeu pedidos para 1.930 novos domínios - mais de 1,2 mil já estão disponíveis

Locais com nomes geográficos incluem .london, .rio e .istanbul - mas oito países que abrigam a Floresta Amazônica se opuseram aos planos da gigante de tecnologia em relação ao domínio .amazon.

Houve muitas tentativas de acabar com o impasse, mas até agora essas tentativas foram em vão.

O que os oito países querem

Os governos da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, todos membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), argumentam que abrir mão do domínio exclusivamente para a Amazon poderia impactar questões de soberania.

Diplomatas explicaram à BBC que não estão tentando impedir o uso do domínio pela Amazon, mas propondo uma "gestão compartilhada" do mesmo.

De acordo com a proposta deles, a Amazon seria imediatamente autorizada a usar os domínios que são relevantes para seus interesses comerciais, como "books.amazon" ou "kindle.amazon".

Cada país, por sua vez, teria o direito de usar domínios relacionados à sua herança cultural - imagine nações da Amazônia se unindo para promover a região sob o domínio "turismo.amazon", por exemplo.

Essencialmente, os países querem criar um comitê no qual tanto a Amazon quanto as oito nações terão a oportunidade de levantar objeções a novos domínios de nível superior no futuro.

Índio tupi-guarani pinta o rosto

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Os países que abrigam a Amazônia dizem que conceder o controle exclusivo do domínio para a gigante da tecnologia pode ter impacto em questões de patrimônio cultural e soberania

O que a Amazon quer

A Amazon rejeitou essas propostas e ofereceu aos países a possibilidade de usar a extensão .amazon associada a duas letras representando cada país - br.amazon para o Brasil, por exemplo, ou, no caso da OTCA, o acrônimo da organização.

A empresa se recusou a comentar o caso antes do prazo de 7 de abril, mas destacou comentários anteriores do seu vice-presidente de políticas públicas, Brian Huseman, que prometeu que a Amazon "não usará os TLDs de maneira confusa".

Em documentos do processo, a Amazon prometeu trabalhar com os governos para identificar e impedir o uso de "nomes que afetem questões nacionais sensíveis" e se comprometeu a apoiar novos domínios de nível superior que usem termos locais como .amazonia e .amazonas.

No ano passado, a empresa tentou persuadir os países prometendo US$ 5 milhões em serviços gratuitos de e-readers e hospedagem do Kindle. A oferta foi recusada.

Em carta enviada à Icann em março, o embaixador equatoriano nos Estados Unidos, Francisco Carrión, disse:

"Não estamos buscando uma compensação financeira. Também não estamos atrás de concessões para usar um ou alguns domínios de segundo nível. É uma questão de soberania para muitos de nós, e a oferta para compartilhar os TLDs com a empresa Amazon Inc. já é um compromisso ".

Torres del Paine, na Patagônia chilena

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Outros casos polêmicos de TLDs geográficos incluem as extensões .patagonia e .africa

Outras disputas

Outras disputas do gênero já aconteceram e foram resolvidas.

Em 2013, a marca de roupas Patagonia, com sede nos EUA, retirou um pedido para a extensão .patagonia após objeção da Argentina e do Chile.

Uma empresa com sede no México teve que chegar a um acordo financeiro com a cidade de Bar, em Montenegro, a fim de obter o consentimento para registrar a extensão .bar.

E em 2016 a Icann concedeu o registro do gTLD .africa a uma instituição de caridade com sede em Joanesburgo, na África do Sul, depois de receber apoio de três quartos dos países da União Africana.

Mas o caso da Amazon tem sido uma saga bem diferente de qualquer outro.

O pedido da empresa foi inicialmente deferido, mas diplomatas brasileiros e peruanos conseguiram anulá-lo, garantindo o apoio do grupo que representa os governos na Icann - o GAC.

Isso por si só exigiu pressões diplomáticas para mudar a posição dos EUA de apoiar a Amazon Inc e permanecer neutro na disputa.

A Amazon recorreu e um painel de revisão ordenou que a Icann tomasse uma decisão chegando às suas próprias conclusões.

Se as duas partes não chegarem a um consenso até 7 de abril, a Amazon terá duas semanas para defender seus argumentos novamente antes de a Icann tomar uma decisão.

Foto aérea de avião sobrevoando a Floresta Amazônica

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, O Icann está sob pressão para resistir à imposição dos governos em relação aos nomes de domínios de localizações geográficas

Cabo de guerra

O caso está gerando questionamentos sobre a independência da Icann.

Brian Huseman, da Amazon, disse à Icann que "globalmente, centenas (se não milhares) de marcas têm nomes semelhantes a regiões, formações de terra, montanhas, cidades e outros lugares geográficos", mas essas marcas poderiam se abster de solicitar novos gTLDs por causa da "incerteza da proteção sui generis da Icann aos nomes geográficos".

A corporação americana está sob pressão para resistir à imposição dos governos e alguns acreditam que pode estar mais aberta a argumentos vindos do setor empresarial desta vez.

Mas Daniel Sepulveda, que serviu como embaixador dos EUA, subsecretário adjunto de Estado e coordenador de comunicações e políticas de informação de 2013 a 2017, diz que "a comunidade da Icann cometeria um erro se menosprezasse as preocupações do Brasil ou se envolvesse em uma retórica libertária agressiva". "

O modelo pluriparticipativo de governança da internet significa que o Icann precisa encontrar um bom equilíbrio entre os interesses e liberdades de empresas, organizações e indivíduos que usam a internet sem alienar ninguém, escreveu Sepulveda no blog do Council of Foreign Relations.

"Esta é uma situação delicada que exige diplomacia, o exercício do respeito mútuo e mecanismos criativos para garantir que todos os lados se sintam tratados com justiça."

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