As polêmicas acusações de ex-participante de 'O Aprendiz' que trabalhou ao lado de Trump na Casa Branca

Imagem mostra Omarosa Manigault Newman com Donald Trump ao fundo. Ela afirma, em livro, que presidente dos EUA é racista, sexista, intolerante e e que está em declínio mental.

Crédito, ERIK S. LESSER / European Photopress Agency

Legenda da foto, Omarosa Manigault Newman era a funcionária negra com cargo mais alto e um dos maiores salários da Casa Branca
    • Author, Alessandra Corrêa
    • Role, De Winston-Salem (EUA) para a BBC News Brasil

Em um livro lançado nesta semana nos Estados Unidos, uma ex-participante do reality show americano The Apprentice (O Aprendiz) e ex-assessora da Casa Branca descreve o presidente americano, Donald Trump, como racista, sexista, intolerante e em declínio mental.

Omarosa Manigault Newman conheceu Trump em 2003, nas gravações de O Aprendiz, programa que ele comandou até 2015 e no qual ela ganhou reputação de "vilã".

Depois de se destacar como uma das principais apoiadoras da campanha presidencial de Trump, ela se tornou a funcionária negra com cargo mais alto e um dos maiores salários da Casa Branca, onde era diretora de Comunicações do Escritório de Relações Públicas.

Demitida em dezembro do ano passado, ela agora diz que finalmente percebeu "que a pessoa que eu achava que conhecia tão bem por tanto tempo era na verdade um racista".

Em seu livro de memórias Unhinged: An Insider's Account of the Trump White House ("Desequilibrado: Um Relato dos Bastidores da Casa Branca de Trump", em tradução livre), Newman acusa o ex-chefe e ex-mentor de ter usado diversas vezes nas gravações do reality show o termo pejorativo "nigger" (considerado tabu nos Estados Unidos) para se referir a negros e menciona a existência de uma gravação que comprova a alegação.

"O uso da palavra que começa com N não era apenas o jeito que ele fala, mas, o que é mais perturbador, era como ele pensava sobre mim e outros negros", escreve ela.

Omarosa Manigault Newman em estúdio de TV onde lançou seu livro esta semana. Ela afirma, na publicação, que o presidente dos EUA, Donald Trump, é racista, sexista, intolerante e e que está em declínio mental.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Newman, no lançamento do livro em um programa de TV: Nos últimos dias, trechos ganharam manchetes nos EUA, mas foram vistos com desconfiança

Rumores

Rumores sobre a existência de uma fita em que Trump usa o termo pejorativo durante gravações de O Aprendiz são antigos e já foram noticiados diversas vezes, mas tal gravação nunca apareceu.

Alguns ataques do presidente contra personalidades e políticos negros nas redes sociais, como a deputada Maxine Waters, descrita por ele como "QI baixo", costumam gerar alegações de racismo por parte de seus críticos. Trump também é lembrado por seu papel de destaque entre os que espalharam a teoria da conspiração de que o então presidente Barack Obama havia nascido no Quênia (o que o tornaria inelegível).

Mas Newman não oferece provas para sua acusação e cita apenas fontes não identificadas. Nos últimos dias, quando trechos do livro ganharam manchetes nos Estado Unidos, muitos apontaram para contradições no relato, entre elas o fato de que, em entrevista à NPR (Rádio Pública Nacional), ela afirma ter ouvido a gravação, mas no livro ela apenas cita fontes que teriam descrito o conteúdo da fita.

Em uma série de tuítes na segunda-feira, Trump chamou Newman de "maluca" e disse que as pessoas na Casa Branca "a detestavam". Disse ainda que quando seu chefe de gabinete, John Kelly, relatou que Newman "só causava problemas", Trump o orientou a tentar resolver a situação, se possível, "porque ela só dizia coisas excelentes sobre mim - até ser demitida!".

Imagem mostra Donald Trump em primeiro plano e Omarosa Manigault Newman ao fundo. Ela afirma, em livro lançado esta semana, que o presidente dos EUA é racista, sexista, intolerante e e que está em declínio mental.

Crédito, AFP/Getty Images

Legenda da foto, Em uma série de tuítes na segunda-feira, Trump chamou Newman de "maluca" e disse que as pessoas na Casa Branca "a detestavam"

Gravações secretas

Em entrevistas à rede NBC para divulgar o livro, Newman revelou gravações secretas que afirma ter feito do momento em que Kelly a demitiu e de um telefonema com Trump no dia seguinte.

Em um dos áudios, uma voz supostamente do presidente diz não saber que ela havia sido demitida. Na gravação da demissão, o homem que se supõe ser Kelly afirma que ela está sendo dispensada devido a "questões de integridade", entre elas o uso não autorizado de um carro do governo, e diz que ela está suscetível a ações legais.

"Se fizermos disso uma saída amigável… você poderá olhar para o período em que esteve na Casa Branca como um ano de serviço à nação e então poderá ir adiante sem qualquer tipo de dificuldade no futuro em relação a sua reputação", diz o homem na gravação.

O fato de Newman ter gravado as conversas privadas atraiu críticas de especialistas em segurança e gerou dúvidas sobre se ela violou a lei. O diálogo com Kelly ocorreu na Situation Room, sala de conferências da Casa Branca onde equipamentos de gravação são estritamente proibidos.

Newman afirma que fez as gravações para se "proteger" e insinua que foi demitida porque sabia demais sobre a suposta fita em que Trump usa o termo ofensivo.

No livro, ela diz que após sua demissão recebeu de Lara Trump, nora do presidente, a oferta de US$ 15 mil (cerca de R$ 58 mil) mensais para atuar na campanha de reeleição, contanto que assinasse um contrato que a proibia de falar sobre a família Trump ou a família Pence (do vice-presidente Mike Pence). Ela afirma que negou a oferta.

Imagem mostra o presidente dos EUA, Donald Trump, caminhando ao lado da mulher, Melania

Crédito, AFP/Getty Images

Legenda da foto, Ex-assessora também dedica parte do livro para analisar a relação de Trump com a família e diz que a primeira-dama conta os dias para se separar

Ivanka e Melania

O livro descreve a Casa Branca de Trump como um "culto". Em determinada passagem, Newman analisa a relação entre o presidente e sua filha mais velha, Ivanka. "Desde que conheço Trump, observo a maneira como ele abraça, toca, beija Ivanka; a maneira como ela o chama de papai. Na minha opinião, baseada nas minhas observações, a relação deles ultrapassa a linha de comportamento apropriado entre pai e filha", diz um trecho.

Newman diz que Ivanka usa sua posição de "menininha do papai" para conseguir o que quer. Sobre a primeira-dama, diz que Melania e o presidente muitas vezes não se falam e que ela "está contando cada minuto até que Trump deixe a Presidência para poder se divorciar".

Segundo o livro, na época de O Aprendiz, Trump costumava perguntar aos participantes homens o que achavam das candidatas mulheres, se eram sexy ou como eram na cama.

Em outro trecho, Newman afirma que Trump chegou a pensar em fazer o juramento de posse sobre seu próprio livro, The Art of the Deal (A Arte da Negociação), em vez de sobre a Bíblia, como é costume entre os presidentes americanos.

Newman também questiona a saúde mental e física do presidente, de 72 anos, descrevendo "divagações incoerentes", e diz que Trump tem um entendimento apenas superficial do conteúdo das leis que sanciona.

O livro foi recebido com cautela pela imprensa americana. Entre as principais críticas estão a falta de comprovação ou de fontes identificáveis para as alegações, além de passagens com informações claramente incorretas.

Muitos questionam se a ex-estrela de reality shows é uma fonte confiável para falar sobre os bastidores da Casa Branca. Citam também o fato de que, até ser demitida, Newman era uma defensora ardorosa de Trump.

A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, disse que o livro está cheio de "mentiras e falsas acusações".

"É triste que uma ex-funcionária descontente da Casa Branca esteja tentando lucrar com esses falsos ataques, e ainda pior que a imprensa agora dê a ela uma plataforma, depois de não levá-la a sério quando ela só tinha coisas positivas a dizer sobre o presidente enquanto estava no governo", afirmou Sanders.