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Atualizado às: 14 de outubro, 2008 - 16h51 GMT (14h51 Brasília)
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Direto dos EUA
Eleições Americanas

Obama já começa bem... em termos de fast-food
por Bruno Garcez (de Washington, 12/01)

Esqueça a Casa Branca, o Capitólio ou o Lincoln Memorial.

Quando se fala de Washington, se negligencia pelo menos um monumento da capital americana.

Um local em que sempre há filas, mas onde compensa esperar cada minuto para ser atentido.

A clientela é eclética. Há desde jovens brancos que acabam de sair do show de uma banda indie nas imediações, rapzes negros de andar arrastado, bonezinho e calças caídas, meninhas de vozes estridentes, senhores afro-americanos de ar professoral.

A jukebox é de primeira e toca velhos sucessos da soul music. E o cardápio oferece alguns dos melhores hot dogs do mundo. Repito, do mundo!

É um lugar que se não existisse de fato, teria sido criado em uma película de Quentin Tarantino.

Quem mora em Washington e sabe dar valor aos bons quitutes americanos, tem um carinho todo especial pelo Ben’s Chilli Bowl.

Bens Chili Bowl

Além de aconchegante, no Ben’s reside um importante – e não muito bonito - capítulo da história da cidade e dos Estados Unidos.

O Ben’s foi fundado em 1958, uma época em que Washington, cuja população é predominantemente negra, ainda era uma cidade oficialmente segregada.

O Ben’s fica em uma das mais divertidas e animadas ruas de Washington, a U Street, farta em casas de jazz e, atualmente, diversos restaurantes etíopes.

A lanchonete ocupa um trecho que era conhecido como a Broadway negra, dada o grande número de casas de espetáculos povoadas por renomados artistas de jazz, como o Lincoln Theatre, situado ao lado.

Há poucos metros do Ben’s, há, inclusive, um gigantesco mural estampado com o rosto de Duke Ellington.

Em 1968, as imediações do Ben’s foram completamente destruídas por negros revoltados com o assassinato de Martin Luther King.

As autoridades decretaram um toque de recolher, mas Ben Ali, o dono do imóvel, obteve uma permissão para permancer aberto, mesmo altas horas da noite.

E talvez tenha nascido ali o ecletismo do Bens’s, que começou a abrigar tanto policiais e bombeiros, como ativistas do movimento Panteras Negras.

Ontem, foi a vez de o primeiro afro-americano a ser eleito presidente dos Estados Unidos dar o ar de sua graça na casa.

Acompanhado do prefeito Adrian Fenty, Barack Obama fez a pedida certa – um half smoke dog com chilli e cheese fries, talvez a melhor opção do cardápio.

Conforme evidenciaram os videastas de plantão, Obama pagrou pelo pedido e, como convém aos frequentadores que honram as mesas do Ben’s, deu gorjeta.

Claro, nem poderia ser de outra maneira, afinal, a única pessoa que vai ao Ben’s e come fiado é, como atesta uma placa na parede, o humorista Bill Cosby.

Se Obama quer mesmo marcar uma nova era na Casa Branca, ele já começou no lugar certo.

Muito melhor que os debates
por Bruno Garcez (de Washington, 17/10)

Um total de 60 milhões de americanos sintonizou as suas TVs na última quarta-feira para assistir a John McCain e Barack Obama.

Mas o que eles não sabiam é que eles estavam ligando seus televisores no dia e no horário errado.

O programa que eles prefeririam ter visto era o jantar anual da ONG católica Alfred E. Smith Memorial Foundation, uma entidade que carrega o nome de um ex-governador de Nova York morto em 1944.

Desde 1960, quase todos os candidatos presidenciais realizaram bem-humorados discursos nos jantares promovidos pela entidade, que reúnem políticos e a elite econômica americana.

No jantar deste ano, foi a vez de Barack Obama e John McCain subirem ao palco e aproveitarem a ocasião por, durante cerca de 15 minutos, honrarem a tradição americana de fazerem piadas um sobre o outro e, melhor ainda, divertirem os presentes com diversas tiradas autodepreciativas.

Os candidatos fizeram piadas sobre si mesmos e o adversário

McCain foi o primeiro a discursar e disse que tinha um anúncio importante a fazer: ''Eu acabo de dispensar todos os meus assessores e os substituí por Joe, o Encanador'', em referência a Joe Wurzelbacher, o morador do Estado de Ohio que o republicano escolheu como símbolo dos americanos receosos dos supostos aumentos de impostos que Obama pretende promover se chegar à Casa Branca.

Obama fez piadas com a idade do rival, ao se dirigir ao bisneto do homem que carrega o nome da fundação: ''Nunca conheci seu bisavô, mas o senador McCain me disse que eles dois se divertiram muito no período que antecedeu a Lei Seca''.

O republicano lançou tiradas sobre a acirrada disputa entre Obama e Hillary Clinton e os rumores de que Bill Clinton deu um apoio pouco entusiástico ao candidato democrata.

''Existem sinais de esperança mesmo nos lugares mais improváveis. E sei que aqui, em meio a um monte de democratas, alguns estão torcendo por mim. É um prazer ver você aqui hoje à noite, Hillary'', afirmou, se dirigindo à senadora, que dava gargalhadas na platéia.

Ainda usando o casal Clinton como protagonista de suas piadas, ele acrescentou ''Perguntaram a Bill Clinton se Barack Obama está pronto para ser presidente dos Estados Unidos e ele respondeu: 'Claro, ele tem mais de 35 anos e é um cidadão americano'''.

McCain afirmou que, nos últimos dias, Bill Clinton não tem feito campanha em prol de Obama de forma tão ardorosa porque tinha receios de ferir sensibilidades religiosas. ''Ele não queria fazer campanha no dia do Ano Novo dos zoroastristas.''

Já o democrata também fez piadas sobre alguns dos mesmos personagens. ''O prefeito (de Nova York Michael) Bloomberg quer mudar as regras e se candidatar a um terceiro mandato. Quando Bill Clinton soube disso ele perguntou: ''Mas então dá para fazer isso?''

O republicano também deu estocadas contra a organização comunitária Acorn, que está sendo investigada por fraude eleitoral por haver registrado alguns eleitores até mais de 70 vezes. A entidade teria ligações com a campanha de Obama. Segundo McCain, entre os registrados pela Acorn figuram ''alunos da segunda série, os finados e personagens da Disney.''

Já Obama brincou com a imagem de superastro e elitista, que a campanha de McCain tentou associar a ele. ''Ele me acusaram de ser uma celebridade. E isso doeu. Eu fiquei tão irritado que até dei um soco num papparazzo e derramei o meu chai latte (uma combinação de café com leite e chá).''

Seguindo a mesma linha, o democrata brincou com o status de semiperfeição atribuído a ele por muitos simpatizantes. ''Na verdade, eu nasci em Krypton e fui mandado aqui por meu pai, Jor-El'', disse, em referência à história do personagem Super-homem, dos quadrinhos e cinema.

Ele também fez piadas com sua fama de vaidoso. ''Minha maior qualidade? A humildade. Meu maior defeito? Eu sou incrível demais.''

Obama não deixou nem escapar o seu nome completo, Barack Hussein Obama. ''Eu ganhei o meu nome do meio de alguém que, obviamente, não imaginava que um dia eu ia concorrer à Presidência''.

Depois de três debates fartos em momentos tediosos e trocas de farpas irrelevantes, fica a certeza: os candidatos tiveram seus melhores desempenhos quando debocharam um do outro e de si mesmos.

PS: Falando nisso, circulam boatos de que a governadora Sarah Palin, candidata a vice-presidente na chapa de McCain, vai aparecer neste sábado no humorístico Saturday Night Live, lado a lado com a atriz que sempre a imita, Tina Fey. Verdade ou não, eu estarei sintonizado.

Surge um terceiro candidato: Joe, o Encanador
por Bruno Garcez (de Washington, 16/10)

Ele tem apenas 34 anos, o que torna qualquer aspiração para a Casa Branca, no momento, um tanto quanto prematura.

Mas nada disso impediu que já tenham começado a circular em sites de internet ofertas de camisetas e broches com o lema Joe, o Encanador 2008.

Somente nesta quinta-feira pela manhã, ele já deu entrevistas a inúmeros programas TV e, modesto, disse que gostaria que os dois candidatos presidenciais o esquecessem.

Joe Wurzelbacher foi alçado à fama na quarta-feira à noite, ao ter sido mencionado dezenas de vezes pelo republicano John McCain e algumas outras pelo democrata Barack Obama.

Agora, como bem destacou o correspondente da BBC Kevin Connolly, Joe é o encanador mais famoso da América, superando até mesmo Supermario, do joguinho Mario Bros.

Seus 15 minutos de fama começaram há poucos dias, quando em um evento de campanha de Obama na cidade de Holland, Ohio, Joe perguntou ao candidato se o projeto de impostos do democrata iria atingi-lo, já que Obama pretende taxar empresas que faturam mais de US$ 250 mil ao ano, justamente o valor da empresa na qual Joe trabalha e que ele sonha em adquirir.

Joe Wurzelbacher
Joe Wurzelbacher foi alçado à fama ao ser mencionado por candidatos

Depois disso, Joe já apareceu dando declarações bombásticas na emissora Fox News, que se diz ''justa e balanceada'', mas é um bastião da extrema direita americana.

O articulado encanador afirmou que o projeto de Obama soava para ele como socialismo.

E após o senador ter dito que Joe estava seguro, mas apenas por ora, em relação a seu temor de sofrer pesados impostos, Joe disse ter ficado ''ainda mais assustado''.

Como é típico daqueles que querem valorizar seu passe, Joe se diz um indeciso, mas sinaliza que ''ficaria honrado em conhecer o senador McCain''.

Sem papas na língua, bom de mídia, um empreendedor com um carisma natural, e, ao contrário de Obama, experiência administrativa - se ele conseguir comprar a tal empresa, Joe será um nome forte para a Casa Branca na próxima eleição.

Talvez ele consiga fazer o que McCain não tem conseguido (e na visão de alguns mais pessimistas, não conseguirá mais): criar empatia junto ao americano comum, branco de escolaridade média.

Foi ao tentar alcançar esse público que McCain indicou a governadora Sarah Palin como sua candidata a vice.

Mas o tiro parece ter saído pela culatra, após terem vindo à tona acusações de que a governadora cometeu abuso de poder e se mostra despreparada para comandar o país.

Nesta hora, John McCain deve estar se remoendo por não haver descoberto Joe, o Encanador antes.

Joe, o encanador
Por Bruno Garcez
(De Hempstead, Nova York, 16/10)

O encanador Joe Wurzelbacher, um morador de Ohio, não devia esperar por isso, mas ele acabou se tornando o ''astro'' do último debate entre Barack Obama e John McCain.

Ainda que em nenhum momento ele tenha pisado no palco ou mesmo sem que sua foto tenha sido exibida.

Joe foi mencionado 13 vezes durante a discussão - 11 por McCain, que o escolheu como símbolo do americano médio avesso a mais impostos - e 2 por Obama.

Há poucos dias, em um evento de campanha realizado por Obama na pequena cidade de Holland, Ohio, o democrata se deparou com um sujeito alto, calvo, que demonstrava desconfiança em relação ao seu programa de impostos.

O moço desconfiado era não outro se não o nosso Joe, o encanador, que McCain transformou na quarta-feira à noite em uma celebridade nacional.

Ainda um ilustre desconhecido, Joe perguntou a Obama se ele acreditava no Sonho Americano (assim mesmo, em caixa alta, na minha interpretação, já que Joe fez a pergunta oralmente, não de forma escrita).

Joe afirmou que estava em vias de comparar uma companhia que fatura mais de US$ 250 mil por ano e estava preocupado que Obama poderia vir a lhe cobrar mais impostos.

Obama deu uma explicação detalhada de seu programa, mas não se sabe se ela foi capaz de convencer a Joe.

Na busca por votos, quarta à noite, McCain procurou tratar de Joe da mesmo forma que se fala de um velho amigo. ''Joe quer comprar o negócio no qual está por todos esses anos, trabalhando 10, 12 horas por dia. E ele olhou para o seu (de Obama) plano de impostos e viu que teria que pagar impostos bem mais altos.''

McCain depois voltou a mencionar o nosso amigo encanador: ''Joe, eu quero te dizer, eu não apenas vou ajudar você a comprar aquele negócio no qual você trabalhou toda a sua vida, eu também vou manter seus impostos baixos''.

Joe foi mencionado tantas outras vezes, que este repórter se viu compelido a indagar a Tucker Bounds, o porta-voz da campanha de McCain, se o republicano acreditava ter saído ontem da Hofstra University, sede do debate, com o voto de Joe, o encanador.

''O voto...ele representa muita gente como ele, que quer ver essa economia sendo construída do chão para cima, tijolo por tijolo, para que comecemos a nos tirar de um buraco, no qual o presidente Bush foi omisso. Ele vai estabelecer um claro contraste entre o seu histórico de reforma e o de Barack Obama...''

Muito interessante isso tudo, Tucker, mas eu queria saber mesmo era de Joe, e não dos próximos passos do senador McCain. (Isso foi apenas um pensamento expresso a vocês, eu não tive a manha de dizer isso pessoalmente a Tucker que, por sinal é um rapaz de porte imponente, com cerca de 2 metros de altura).

Eu daria tudo para descobrir se Joe se deixou cortejar por McCain ou se ele acabou convencido por Obama.

Por favor, quem soubem em quem Joe pretende votar não deixe de me avisar.

A última fronteira
por Bruno Garcez (de Washington, 14/10)

Nos últimos dias, o governo de George W. Bush cedeu em diferentes áreas em que parecia incapaz de ceder até muito recentemente.

Na política externa, um representante de alto nível foi enviado ao Irã para negociar com o país e, poucos meses depois, a administração atual retirou a Coréia do Norte (lembra, aquela do Eixo do Mal?) dos países considerados promotores do terrorismo internacional.

Agora, com o mandato praticamente encerrado, a gestão de Bush cruzou aquela que parecia ser a última fronteira.

Com a decisão anunciada nesta terça-feira de estatizar parcialmente os bancos americanos, o republicano com fama de teimoso e intransigente foi contra um dos cânones sagrados de seu partido.

Antes mesmo de Ronald Reagan, mas principalmente depois dele, o Partido Republicano passou a ter como princípio máximo que quanto menos o Estado apitar na economia, melhor.

Muitos na ala direita do partido votaram contra o pacote de US$ 700 bilhões proposto pelo governo porque julgavam que ele representava a socialização da economia americana.

Mas hoje o governo americano rompe um tabu ao injetar US$ 250 bilhões em bancos privados e, na prática, estatizar nove das maiores instituições financeiras do país, ao se tornar seu acionista majoritário.

A declaração feita pelo secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, um ex-alto executivo do banco Goldman Sachs, praticamente resumiu o espírito dentro do próprio governo.

"O governo possuir ações de qualquer companhia privada é algo que conta com a objeção da maior parte dos americanos - inclusive eu próprio. Mas a alternativa de deixar empresas e consumidores sem acesso ao financiamento é totalmente inaceitável."

É assim em situação de desespero. Os princípios são deixados de lado. E começa-se a agir de forma impensável.

Ronald Reagan deve estar se revirando em sua tumba.

A conquista do Oeste
por Bruno Garcez (de St Louis, 04/10)

Um forasteiro está tentando conquistar o velho oeste, prometendo, tal qual um novo xerife, botar ordem na casa e enquadrar os fora-da-lei.

Mas no oeste americano do século 21, o forasteiro não precisa ser rápido no gatilho como Wyatt Earp ou Doc Holliday, mas sim ter uma verve afiada e ofercer uma mensagem de esperança, como Barack Obama.

E os foras-da-lei não são ladrões de gado nem ''peles vermelha'', mas sim os representantes do sistema financeiro que atuam do outro lado do país.

O oeste e o meio-oeste americano de um modo geral são redutos republicanos, mas neste ano alguns Estados dessas regiões estão mais competitivos que o habitual, e o senador John McCain já dá até um deles como perdido.

McCain acaba de interromper todas suas operações de campanha no Michigan, Estado outrora próspero por ter abrigado a indústria automobilística americana, mas que hoje em dia conta com uma taxa de desemprego superior à de todo o país.

No Missouri, que acaba de abrigar o debate entre os candidatos a vice-presidente, a disputa ainda é acirrada, e, segundo pesquisas recentes, McCain lidera por 48,5% e Obama contaria com 46,8%.

Mas no que depender do empresário Steve Smith, a situação vai mudar logo logo. Smith é promotor de lutas de boxe, ativo militante democrata e proprietário do bar The Royale, em Saint Louis, célebre por supostamente preparar o melhor hambúrguer de Saint Louis.

Mesmo sem ter provado os demais, posso assegurar que o hambúrguer de bife kobe é um dos melhores quitutes da fast food que já pude saborear.

Mas voltemos ao ponto central. Smith diz que Saint Louis é um ponto azul em meio a um oceano vermelho, em menção, respectivamente, às cores pelas quais são identificados democratas e republicanos.

No que depender dele, a ilha azul vai começar a se expandir. Em seu boteco, Smith está registrando eleitores. Aqueles que se registram por lá, se deparam com dois gigantescos cartazes com o rosto de Barack Obama que o empresário pendurou na lateral do bar.

Como Smith é bom de lábia, um bate-papo regado a uma boa cerveja e um rango de boteco, pode, sem dúvida, ajudar os indecisos.

Curiosamente, mesmo o democrata habitual do oeste americano é diferente do militante do mesmo partido da costa leste americana ou da progressista Califórnia.

Como o próprio Smith contou a este repórter, enquanto mostrava o melhor de Saint Luis a bordo de seu Cadillac conversível branco.

O empresário é bom exemplo desse estilo diferente de ser democrata, ele também é um colecionador de armas e já até apareceu no livro Armed America, exibindo o seu revólver Smith & Wesson.

Assim como ele, há também na região os representantes do grupo Rednecks for Obama, algo como Capiras para Obama.

Les Spencer, um dos integrantes do grupo Rednecks for Obama, disse ao colega do serviço farsi da BBC Khashayar Joneidi que suas prioridades ao escolher um candidato são suas visões sobre ''economia, seguro saúde e armas''.

Ele parece ter perdoado o democrata por seu comentário de que a atual crise americana vem fazendo com que moradores de cidades pequenas ''se apeguem a armas e à religião''.

Mas mesmo sem abrir mão de algumas de suas paixões e seu estilo de vida característico, o oeste americano parece estar plenamente em sintonia com as mudanças pelas quais passam os Estados Unidos.

Atualmente, um cantor negro conta com uma faixa entre as dez mais da parada de sucessos de música country, feito inalcançável há anos.

Na terça-feira, a Meca da country music americana, a cidade de Nashville, abrigará o segundo debate entre os candidatos americanos, um deles poderá ser o primeiro afro-americano a chegar à Casa Branca.

Os Estados Unidos enfrentam um momento tão decisivo em sua história quanto a corrida para o o oeste do século 19.

Mas a julgar pela avidez dos americanos por mudanças - ou ao menos por alguém que promete mudanças - desta vez eles poderão reescrever a história e dar a vitória ao Billy the Kid da vez, que, reza a lenda, acabou cravado de balas em uma emboscada.

À sombra de Reagan
por Bruno Garcez (de St. Louis, 03/10)

Ele não foi levado a sério, quando o seu nome despontou como o candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos.

Muitos julgavam-no simplório e despreparado, mas Ronald Reagan acabou impedindo o presidente Jimmy Carter de conquistar um segundo mandato, usando uma linguagem simples, que tratava dos anseios do americano médio.

Sua frase: ''Você está melhor agora do que estava há quatro anos?'' usada no final de um debate presidencial contra Carter representou uma virada de jogo contra o líder americano que, na ocasião, ainda liderava as pesquisas.

O ex-governador da Califórnia compensou o fato de não conhecer muitos temas a fundo com um grande carisma e um talento natural parra os debates e as câmeras – herança de sua longa passagem como astro hollywoodiano.

Reagan veio a se tornar um dos mais populares presidentes americanos, um dos artífices do colapso do império soviético e um líder identificado com um período de opulência e prosperidade na história de seu país.

Olhando para trás, é fácil ver resquícios de Reagan na candidata a vice-presidente na chapa de John McCain, a governadora Sarah Palin.

Ela também foi apontada como simplória e despreparada, mas mostrou-se capaz de eletrizar a base de seu partido, com grande carisma, opiniões conservadoras e um talento natural para as câmeras.

Essas qualidades foram todas exibidas por Sarah Palin no debate de quinta-feira à noite.

Quando todos acreditavam que ela seria arrasada pelo experiente Joe Biden, a governadora compensou sua escassa experiência com seu dom de cativar o americano médio.

E, vale lembrar, não parece ter sido mera coincidência que a governadora do Alasca tenha feito três referências a Ronald Reagan em sua participação no debate de ontem à noite.

Inclusive, reproduzindo, quase que literalmente, uma frase dita por Reagan em um debate contra Carter: ''Lá vai você de novo, Joe'', tanto a frase original como a de ontem foram menções a referências insistentes dos rivais a temas que os dois republicanos preferiam ignorar.

Pode ser que Sarah Palin, ao final desta campanha, volte pura e simplesmente a ser a governadora do Alasca.

Mas se John McCain não chegar à Casa Branca e Barack Obama não cumprir as enormes expectativas em torno dele, pode ser que nós voltemos a nos deparar, nos próximos quatro anos, com a linguagem simples e franca de Sarah Palin.

E, mais importante, com seu dom natural diante das câmeras.

Morrendo pela boca
por Bruno Garcez (de Washington, 30/09)

Pergunta - Um quinto dos americanos não sabem localizar os Estados Unidos em um mapa-múndi. Porque você acha que isso acontece?

Resposta - Eu pessoalmente acho que muitos americanos em nosso país não são capazes de fazê-lo porque algumas pessoas por aí em nossa nação não possuem mapas e nossa educação, como na África do Sul e no Iraque, tais como, todo lugar, como eu acredito que eles...a nossa educação aqui nos Estados Unidos, deveria ajudar os Estados Unidos, deveria ajudar o Iraque e os países asiáticos, para que possamos construir nosso futuro para nossas crianças.

Pergunta - Por que não é melhor (...) gastar US$ 700 bilhões para ajudar famílias de classe média que estão batalhando com custos de seguro saúde, moradia, gás e compras; ajudá-las a gastar mais dinheiro e colocar mais dinheiro na economia em vez de ajudar essas instituições financeiras que tiveram um papel na criação desta confusão?

Resposta - É o que eu digo, como toda americana, eu estou falando que nos sentimos mal com essa posição na qual fomos colocados, pela qual é o contribuinte que tenta fazer o resgate. Mas, no final das contas, o que o resgate faz é ajudar aqueles que estão preocupados com a reforma do seguro saúde necessária para melhorar nossa economia, ajudar a...é preciso que seja sobre a criação de empregos também, melhorar nossa economia e colocá-la de volta no lugar....

As duas respostas são um amontoado de frases pouco coerentes e de difícil compreensão.

Mas a primeira resposta foi dada pela Miss Carolina do Sul em um concurso de beleza.

Já a segunda resposta foi dada por Sarah Palin, a atual governadora do Alasca e companheira de chapa do republicano John McCain, em uma entrevista à apresentadora Katie Couric, da rede CBS.

As respostas de cada uma das entrevistas, ainda que dadas em contextos muito distintos, evidenciam que quem as está dando tem pouca ou nenhuma idéia do que está falando.

A miss Carolina do Sul, ao contrário de Palin - que, por sinal, foi uma candidata derrotada ao posto de miss Alasca na juventude- não está concorrendo a qualquer cargo público e, portanto, não tem chances de chegar à Casa Branca.

Já a governadora do Alasca é a candidata a vice na chapa de um veterano político de 72 anos e que já travou uma batalha contra o câncer.

Não é à toa que muitos, após terem visto a referida entrevista, passaram a clamar para que Sarah Palin seja retirada da chapa republicana.

Uma das vozes mais célebres a fazer o pedido foi o editor da revista Newsweek Farred Zakaria, que assinou um artigo sobre o tema na edição de ontem do Washington Post.

Segundo Zakaria, a resposta de Palin presente nesta página é uma ''tolice e uma ampla torrente de todas as frases feitas sobre economia'' que vieram à cabeça da governadora.

A sucessão de tropeços da líder do Alasca exige, na opinião dele, ''que se admita o óbvio, que Sarah Palin é altamente desqualificada para ser vice-presidente''.

Mas os críticos não estão apenas entre os representantes da chamada ''mídia progressista'' tão desprezada pelas bases conservadoras republicanas.

O senador republicano Chuck Hagel também questionou publicamente a competência da governadora, assim como blogueiros e analistas conservadores.

A prova de fogo - e possivelmente a última chance - para Sarah Palin será o debate desta quinta-feira contra o candidato a vice na chapa comandada por Barack Obama, o senador Joe Biden.

A esperança dos republicanos é que o desempenho dela esteja mais para o da convenção republicana em Saint Paul do que o samba da governadora doida que ela exibiu na entrevista da CBS.

Mas o problema é que no debate, ao contrário do que ocorreu na convenção, não haverá teleprompter para acompanhar o texto.

À beira do penhasco?
por Bruno Garcez (de Washington, 29/09)

As provocações do republicano John McCain em relação ao pacote econômico que foi derrubado nesta segunda-feira no Congresso poderão prejudicá-lo mais do que o imaginado.

McCain havia acusado o rival Barack Obama de pouco ter feito para amainar as divisões partidárias e reivindicou para si um papel de unificador, capaz de unir as duas facções na aprovação do projeto.

John McCain tentou reivindicar papel de unificador durante crise

Mas eis que, mesmo após ele ter anunciado que havia suspenso a sua campanha para ir a Washington negociar o pacote, como fez na semana passada, o republicano acabou se mostrando incapaz - ou mesmo intencionalmente incapaz -de aprovar a proposta junto a seus correligionários.

Ed Rollins, que assessorou a vitoriosa campanha de Ronald Reagan e do ex-governador Mike Huckabee, afirmou que McCain indicou que os republicanos farão de tudo para eleger o indicado de seu partido, mas que "não estão dispostos a pular do penhasco por causa dele".

"Eles fizeram isso por Bush, mas acharam que esta medida era dramática demais para a sua base eleitoral", afirmou Rollins.

O pacote econômico conta com a desaprovação de boa parte dos eleitores americanos.

E o fato de a proposta ter sido rechaçada, mesmo após as promessas de McCain, vai despertar dúvidas se o candidato republicano, de fato, estava assim tão comprometido em ver a aprovação do pacote.

Sem querer agourar, a sorte de John McCain pode piorar ainda mais.

Nesta quinta-feira, haverá o primeiro debate entre a companheira de chapa dele, Sarah Palin, e o candidato a vice democrata, Joe Biden.

Um artigo assinador pelo editor da revista Newsweek, Fareed Zakaria, e publicado nesta segunda-feira pelo jornal Washington Post afirma que Palin é desqualificada para o cargo e que McCain deve demiti-la.

Após um depoimento sofrível em uma entrevista à rede de televisão CBS, as dúvidas sobre a vice aumentaram consideravelmente e ela está se tornando uma fonte de constrangimentos para a chapa republicana.

Uma chapa que parece já contar com problemas suficientes.

A dança da América branca
por Bruno Garcez (de Saint Paul, 05/09)

Faltava ginga aos senhores e senhoras predominantemente brancos e de meia idade que constituíam a maioria dos presentes ao Xcel Center, em Saint Paul.

Mesmo sem qualquer molejo, a América branca não se furtou a dançar nos intervalos entre um discurso e outro durante a Convenção Nacional Republicana.

Não deixou de exibir seus chapéus nas cores da bandeira e seus cartazes com dizeres patrióticos.

Eles dançaram com a convicção de quem sabe que, mesmo não tendo a mais bela aparência, corpos bem torneados ou destreza no bailado, constituem a alma americana.

Republicano na convenção do partido
Republicanos reforçaram a idéia que a liberdade exige vigilância

E sabem explorar todas as vulnerabilidades dos demais habitantes de seu país.

A convenção deixou isso claro.

O país com o Exército mais poderoso do mundo parece acreditar que o preço da liberdade é a eterna vigilância, a julgar pelas mensagens dos oradores do evento.

Eles reclamaram da ausência de menções a jihadistas radicais e terroristas islâmicos na Convenção Democrata.

Por conta disso, nos quatro dias da convenção republicana, ouviu-se uma fartura de referências aos terroristas que visam destruir tudo que o país deles representa.

Os mesmos senhores e senhoras que condenavam o extremismo vindo de outras partes do mundo empunhavam cartazes com dizeres como ''A mudança virá pela força'' ou aquele que acabou sendo o mote da convenção: ''O país em primeiro lugar''.

Frases que parecem lemas extraídos de 1984, de George Orwell.

Não fosse o senador John McCain ter encerrado o evento em tom mais ameno, talvez fossem as mensagens extremadas as frases que mais marcariam a lembrança da Convenção Nacional Republicana de 2008.

Mas eles estão convencidos de que os Estados Unidos estão mais expostos a perigos do que nunca, que Washington está sendo varrida por uma onda esquerdista e que sequer se dignar a falar com nações hostis é um pecado capital.

E essas idéias acabam ressonando em programas radiofônicos de locutores de direita e nos sermões de pastores conservadores.

Eles podem não saber dançar, mas sabem fazer sua voz ouvida.

Militantes pedem até fim da 'pornografia com pássaros'
por Bruno Garcez (de Saint Paul, 02/09)

Esqueça os discursos, os chapéus nas três cores da bandeira americana e as muitas e muitas mostras de patriotismo, o que não pode mesmo faltar em uma convenção são as opiniões extremadas.

Minha terça-feira, bem como a minha segunda, vale lembrar, foram marcadas pelo contato com pessoas cujos pontos de vista políticos não primam propriamente pela moderação.

Ao sair de meu hotel, dividi um táxi com um apresentador conservador de um talk show em Chicago. Charles tinha uma característica bem distinta da de um locutor conservador de rádio americana. Ele é negro e, contrariando boa parte de outras pessoas de sua etnia, é um republicano contumaz.

Para Charles, os imigrantes ilegais têm de ser expulsos do país, e se eles se recusarem a sair, ''temos que prender seus filhos e suas famílias''. Na opinião do radialista, tais imigrantes são ignorantes e não acrescentam nada aos Estados Unidos.

Quando o motorista somali do carro em que estávamos fez manobras que ele não considerou apropriadas, Charles se voltou para mim e disse: ''Está vendo o que estou dizendo?''

Ontem, foi a vez de cerca de dez mil pessoas tomarem as ruas de Saint Paul.

Muitas delas pareciam não saber ao certo contra o que ou quem protestavam.

''Estamos só querendo interromper o tráfego'', informou um jovem sobre as suas intenções.

Sem motivos aparentes, a não ser os de destruir símbolos do capitalismo selvagem, outro grupo quebrou deliberadamente uma vidraça da loja de departamentos Macy's.

Em meio a tudo isso, ainda me vi, lá pelas tantas, entre a polícia e ativistas anarquistas no exato momento em que policiais colocavam suas máscaras e se preparavam para lançar bombas de gás lacrimogêneo contra a multidão.

Após alguns momentos me debatendo com minha escolha profissional, consegui, felizmente, abandonar o conturbado local.

Mas hoje me deparei com mais militantes portando mensagens fortes. Carregando cartazes com os dizeres ''Pare com a pornografia aviária'', estes ativistas distribuíam panfletos de conteúdo semelhante.

A mensagem (satírica, ao menos em minha avaliação) do grupo Stop Bird Porn, que conta com website e tudo, www.stopbirdporn.org , os observadores de pássaros de meia idade encontram a gratificação erótica ao passarem horas observando aves acasalando.

A pessoa que me entregou o panfleto olhou em meus olhos e disse: ''Senhor, divulgue a nossa mensagem para os republicanos.''

Segundo os militantes da organização, ''tal perversão precisa ser interrompida, caso contrário toda a fibra moral de nossa nação irá para o inferno''.

O radialista Charles e os ativistas quebradores de vidraças não foram capazes de me cooptar, mas quanto aos combatentes da pornografia aviária...bem, eis uma causa difícil de não aderir.

Convenção é o Oscar com gente feia
por Bruno Garcez (de Denver, 26/08)

Em Washington, costuma-se dizer que a capital americana é a Hollywood para gente feia, pois então eu diria que as convenções partidárias são o Oscar com gente feia.

O aparato todo é semelhante, um clima festivo, mas com megaesquemas de segurança, papparazzi por tudo quanto é lado, pessoas se aglomerando para ver os famosos chegando em seus carrões e muita gente perguntando ''quem é ele mesmo?''.

Mas em vez da voluptuosidade de uma Scarlett Johansson, da beleza etérea de Natalie Portman ou do charme latino de Javier Barden, somos brindados com o esquisito congressista Denis Kucinich, delegados e delegados de silhuetas avantajadas e até mesmo o candidato republicano derrotado Rudolph Giuliani, pois festa que se preza tem sempre que contar com um penetra, que, no caso, faz até desfeita com o anfitrião, dizendo que ''Barack Obama não tem condições de ser presidente dos Estados Unidos''.

Como na cerimônia do Oscar, quando você aproveita o prêmio de melhor maquiagem e de figurino para ir ao banheiro ou fazer uma boquinha, o começo do dia, quando senadores obscuros e congressistas que em breve serão sentenciados ao limbo, é o momento em que muitos aproveitam para saborear um hot-dog ou uma porção de nachos.

Assim como no Oscar, há também os momentos pretensamente tocantes, como aquele tradicional videoclipe das pessoas célebres que morreram ao longo do ano. E os inúmeros tributos registrados em vídeo. E assim como na cerimônia hollywoodiana, também há espaço para piadinhas e tiradas espirituosas.

As celebridades também dão o ar de sua graça, mas por ora o único astro que eu vi foi Richard Dreyfuss, oscarizado pelo filme A Garota do Adeus, mas que atualmente está longe de exibir um semblante de galã, com os cabelos grisalhos escasseando e uma barriga protuberante.

Não é à toa que ele interpreta Dick Cheney na cinebiografia de George W. Bush que o cineasta Oliver Stone está rodando.

Aliás, coube a mim também o grato orgulho de responder a dois passantes que indagavam de quem se tratavam as pessoas a quem alguns se aglomeravam para apertar a mão e tirar fotos ao lado.

Um deles foi o já citado Dreyfuss, o outro, o ex-candidato presidencial George McGovern, que em 1972 despertou esperanças entre os democratas semelhantes às despertadas neste ano por Obama, mas que agora não é nem reconhecido por muitos dos mais jovens integrantes de seu partido.

Mas para citar o mote da campanha de Obama, a esperança, há rumores de que Scarlett Johansson ainda vai aparecer por aqui no Pepsi Center. Ficarei no aguardo.

Denver é uma festa
por Bruno Garcez (de Denver, 24/08)

Um total de 15 mil jornalistas de todo o mundo estão na cidade. E os repórteres foram recebidos no sábado com uma festa com comida e bebida gratuita em um parque de diversões de Denver.

Todas as noites há shows para os mais diversos gostos musicais, desde bandas indies, como Clap Your Hands Say Yeah, até o veterano do country Willie Nelson.

A cidade foi tomada por ativistas das mais diversas matizes ideológicas, desde contumazes militantes antiaborto até aguerridos ambientalistas.

A Convenção do Partido Democrata, que tem início na próxima semana, e todos os eventos realizados em torno dela, praticamente transformaram o dia-a-dia de Denver.

Como todo grande evento americano, tudo vira espetáculo. Daí o encerramento da convenção neste ano seguir um formato inédito.

O discurso que marcará o fim do evento não se dará em um centro de convenções, como de praxe.

Barack Obama fará um de seus showmícios, com direito a apresentação de Al Gore, em um estádio de futebol americano, com capacidade para 80 mil pessoas.

Nos Estados Unidos é assim. Tudo vira espetáculo. Eis o porquê de se promover uma convenção para referendar aquilo que todo mundo já sabe, quem será o próximo candidato democrata à presidência dos Estados Unidos.

Para demonstrar que o Partido Democrata é uma grande família, alguns dos que até pouco tempo estavam em campos opostos, como Hillary e Bill Clinton e o dono da festa, Barack Obama, dividirão o mesmo palco.

Mas como em toda boa festa, há sempre os estraga-prazeres.

Na convenção de Denver este papel parece reservado a correligionários(as) da senadora Hillary Clinton, que deverão protestar contra a forma como ela acabou perdendo as primárias para Obama.

Mas, claro, por mais alarde que façam, fica mais fácil calar a voz da dissidência dentro de um estádio lotado com militantes entusiastas, gritando: ''Sim, nós podemos!''.

A festa não pode parar.

Virada de jogo?
por Bruno Garcez (de Washington, 21/08)

Parecia que a eleição já estava no papo para Barack Obama.

Ele tinha a liderança nas pesquisas, a preferência da mídia e a vantagem de ser contra uma guerra impopular, apoiada por seu rival, que, para piorar, também conta com o apoio e pertence ao mesmo partido que o presidente George W. Bush.

Mas então o que foi que levou, subitamente, John McCain a empatar com Obama nas pesquisas e, em algumas, até a passar à sua frente?

As próprias sondagens trazem algumas respostas.

Uma recente pesquisa do Pew Research Center mostrou que quase metade dos consultados disseram já ter ouvido e lido notícias em demasia sobre Obama.

Um sinal de que, ao menos internamente, a recente viagem do senador à Europa, onde foi praticamente recebido como o presidente eleito, pode ter cativado os europeus, mas pode ter sido recebida como um gesto de triunfalismo por parte dele.

A sondagem de hoje do jornal Wall Street Journal que mostra empate técnico (McCain com 45%, Obama com 42% e margem de erro de 3%) oferece outras pistas.

McCain soube, de um mês para cá, explorar com êxitos dois temas, um no cenário nacional, outro, no contexto internacional.

O republicano tem defendido a exploração de petróleo em águas profundas, como uma alternativa à alta de preços do combustível.

A medida, à qual os democratas se opõem, é pouco realista, visto que a utilização do petróleo explorado além das regiões costeiras só se daria dentro de uma década ou mais.

McCain cravou pontos no último mês
McCain cravou pontos no último mês contra Obama nas pesquisas

Mas, ainda assim, a proposta cai bem junto a eleitores cansados de pagar o que consideram uma exorbitâncias na hora de encher o tanque.

O republicano também marcou um ponto ao reagir de forma enérgica à invasão da Geórgia pela Rússia, enquanto que Obama optou por uma resposta mais diplomática para só depois se posicionar de forma mais enfática.

Analistas afirmam que a sorte de Obama poderá mudar a partir da próxima semana, quando acontece a Convenção Democrata, na cidade de Denver.

As convenções, nas quais são ratificadas as candidaturas dos escolhidos do partido, já ajudaram a impulsionar campanhas.

Foi o que aconteceu com Bill Clinton, em 1992, que após a convenção viu o seu índice de intenção de votos subir 16 pontos.

Muitos apostam que para obter um bom resultado, Obama precisará também fazer uma boa escolha para vice-presidente em sua chapa. O anúncio do nome escolhido promete se dar no sábado, mas isso já é tema para a nossa próxima coluna...

A fênix renasce
por Bruno Garcez (de Washington, 13/08)

Ele parecia combalido, sem grande inspiração ou idéias para assumir a dianteira da corrida presidencial ou desferir golpes capazes de ferir o seu adversário.

Mas John McCain já foi chamado de fênix, dado o seu dom de renascer quando todos o dão como morto.

Segundo a correspondente em Washington do Estadão, Patricia Campos Mello, que viajou a bordo do avião do virtual candidato presidencial republicano, fênix é inclusive a alcunha pela qual McCain é conhecido pelos agentes do serviço secreto americano que fazem a sua proteção.

Hoje, o veterano senador, depois de andar a esmo por um longo período em sua campanha, disse a que veio.

A arena em que McCain exibiu a sua capacidade de reviver não poderia ser outra, se não a da política internacional, um terreno no qual ele próprio e seus correligionários não cansam de alardear a sua superioridade sobre o rival democrata Barack Obama.

Por isso, o conflito entre Rússia e Geórgia caiu como uma luva para McCain.

John McCain
Mensagem de McCain foi mais enfática do que a de Obama

Nas críticas à incursão militar russa, ele foi mais longe do que o presidente Bush e, mais importante, bem além dos comentários de Obama, que inicialmente optou por uma linha diplomática para, depois, assumir um tom mais enfático.

Para o republicano, a suposta agressão russa deve ser punida com a possível exclusão russa da Organização Mundial do Comércio e com a saída definitiva do país do G8.

Ele acusou a ação militar de ser uma ''agressão que causou a morte de centenas, se não de milhares'' de pessoas.

McCain se disse ''profundamente decepcionado'' com os russos.

Mas foi enfático ao dizer que os americanos não devem recorrer à opção militar para pôr fim ao conflito e que um embate nuclear ou a retomada da Guerra Fria estão definitivamente descartados.

Quando indagado se as respostas de Bush e de Obama à ação militar foram adequadas, McCain assumiu um ar de altivez, dando a entender que a gravidade da situação não permite que ela seja explorada politicamente.

Enquanto isso, Obama também deu declarações enfáticas a respeito do tema. Mas primeiro falou em tom evasivo sobre uma saída diplomática, para só depois assumir uma retórica mais dura.

E suas declalações foram feitas...em meio às suas férias no Havaí.

Claro que a pesada agenda do democrata também deve dar margem a uma folguinha aqui e ali.

Mas se já havia dúvidas a respeito da aptidão de Obama para lidar com temas de política externa, McCain, ao responder com destreza e agressividade, contribuiu para reforçar a imagem de que neste quesito ele está na dianteira em relação a seu rival.

A empolgação está de volta
por Bruno Garcez (de Washington, 12/08)

O fim da longa e tensa disputa entre Hillary Clinton e Barack Obama deixou a sensação de que o melhor da corrida presidencial americana havia terminado.

Nos últimos meses, viu-se John McCain tentando se manter diante dos holofotes e sua campanha lançando anúncios mordazes sobre a aparente preferência da mídia por seu rival democrata.

Vimos também Obama ser recebido como um estadista na Europa e a imprensa européia cair de amores pelo democrata tal qual os repórteres americanos.

Tudo isso foi um tanto quanto interessante, mas nem remotamente tão empolgante quanto as sucessivas reviravoltas do embate democrata.

Pouco a pouco, as emoções parecem estar voltando. Nesta semana, foi divulgado o cronograma parcial da convenção democrata, que acontecerá no fim do mês em Denver.

O discurso que servirá de pontapé inicial à convenção promete ser marcante. Para falar sobre a a trajetória pessoal e política de Barack Obama, uma pessoa passional, articulada e que conhece o histórico do senador democrata melhor do que ninguém: Michelle Obama.

Hillary está envolvida na campanha de Obama. Mas é sincero?

Hillary Clinton parece (pelo menos parece) estar engajada na candidatura de Obama e vem incitando seus correligionários a aderir à campanha do senador de corpo e alma.

A fim de atrair os militantes da senadora, ela terá um papel de destaque na convenção e discursará no segundo dia do evento, com um pronunciamento centrado em alguns dos temas centrais de sua campanha: seguro saúde e economia.

Mas os últimos dias também deixaram claro que a paz entre Hillary e Obama é mais um acordo tácito em prol da unidade partidária do que uma relação de amor.

A revista Atlantic Monthly divulgou em seu site uma série de e-mails e memorandos da campanha de Hillary que mostram que, mesmo com a disputa virtualmente encerrada, alguns dos principais estrategistas da senadora ainda tentavam convencer superdelegados a ir contra a vontade dos eleitores e fazer da senadora a indicada democrata, e não Obama.

Agora, foi anunciado também que o vice-presidente na chapa democrata será divulgado por um mensagem de texto de celular.

Eu me registrei neste serviço e estava todo pimpão achando que seria um dos privilegiados a receber esta informação. Ledo engano.

Há outros dois milhões cadastrados. Mas, ainda assim, o anúncio se dará nos próximos dias e antes da convenção, que vai de 25 a 28 deste mês.

Mas e quanto a John McCain? Bem, o tema desta coluna era a empolgação estar de volta à campanha. E neste quesito, que me perdoe o veterano senador, mas ele está devendo.

Berlim, Alemanha x Berlin, Pensilvânia
por Bruno Garcez (de Londres, 23/07)

Após alguns dias em Londres, consegui, ainda que momentaneamente, não me deparar com a imagem quase que onipresente de Barack Obama e nem com a paixão mal disfarçada dos repórteres americanos pelo virtual candidato democrata à presidência do país.

Mas vamos ver por quanto tempo isso irá durar. E meu palpite é que o bombardeio de imagens de Obama na mídia européia começa... nesta quinta-feira, quando o senador deverá discursar em Berlim.

Paralelamente à visita do democrata à capital alemã, o rival republicano de Obama na disputa presidencial, John McCain, segue fazendo das tripas coração para despertar alguma atenção.

Por isso, ele resolveu também dar o ar de sua graça em Berlin - não apenas uma única Berlin, mas três: as cidades de Berlin, em New Hampshire; Berlin, na Pensilvânia e Berlin, em Wisconsin.

A irônica escolha das três cidades para exibir comerciais de campanha foi uma forma bem humorada que McCain encontrou para divulgar sua mensagem em importantes Estados e, ainda por cima, obrigar a mídia a dar algum destaque à sua candidatura.

Mas a atenção provavelmente será insignificante se comparada à cobertura da viagem do rival pelo Oriente Médio e Europa, que contou até com a companhia dos três principais âncoras dos telejornais do país, que estão viajando junto com Obama.

Não conseguindo disfarçar a frustração e nem mesmo a inveja, a campanha de McCain está divulgando em seu site um divertido vídeo, no qual diferentes figuras da mídia rasgam seda descaradamente para Obama.

Nós vemos o âncora Chris Matthews, da rede MSNBC, dizer que sentiu um calafrio subir por sua perna ao ouvir Obama discursar e que o pronunciamento feito pelo candidato deveria ser objeto de estudo para crianças na escola.

Não pára por aí. Um executivo da rede NBC confessa que é ''difícil permanecer objetivo'' diante de Obama. É fato. É tão difícil que muitos na imprensa dos Estados Unidos optaram por nem sequer tentar.

As escolas britânica e americana de jornalismo são bastante distintas. Diferentemente do que chega a ocorrer nos Estados Unidos, os profissionais britânicos mesmo de setores mais segmentados, como de TVs por assinatura, não podem, como via de regra, manifestar suas opiniões ou favorecer suas posturas individuais.

Eles também têm uma tendência, por vezes até exagerada, de bater inclementemente em políticos, independentemente destes serem de esquerda, centro ou direita.

Desde que cheguei aqui, no sábado, não vi nada remotamente semelhante às posturas ligeiramente tendenciosas como as que presenciei nos Estados Unidos desde a disputa das primárias.

Mas tampouco tenho achado que a notoriamente feroz imprensa da Grã-Bretanha tenha mostrado para Obama garras tão afiadas como as que costuma exibir para políticos de um modo geral, a começar pelo primeiro-ministro do país, sempre tratado com pouca ou nenhuma deferência.

A partir de amanhã ou no máximo na sexta-feira, quando o senador democrata deverá pisar em solo britânico, vou poder ver de perto se a mídia daqui vai permanecer implacável ou se também irá sucumbir à paixão desenfreada por Barack Obama.

O campeão de audiência
por Bruno Garcez (de Washington, 17/07)

A viagem de Barack Obama à Europa e ao Oriente Médio visa reforçar o currículo internacional do virtual candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos.

Mas mais do que agradar aos visitantes, o senador parece mesmo interessado em apostar na audiência americana.

O giro de Obama por Iraque, Afeganistão, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Israel, Jordânia e territórios palestinos merecerá um destaque das emissoras de TVs americanas que não costuma ser reservado nem ao presidente americano.

As três principais redes de TV do país, ABC, NBC e CBS, enviarão para cobrir a visita não os seus correspondentes, mas sim os âncoras de seus telejornais do horário nobre, que deverão entrevistar o candidato em diferentes paradas da viagem.

A cobertura contrasta com a atenção mediana dada a recentes viagens internacionais feitas pelo provável candidato republicano à Presidência, John McCain.

Barack Obama
Viagem de Barack Obama será megaevento de mídia nos EUA

Em março, McCain foi à Grã-Bretanha, França e Israel. Há duas semanas, esteve na Colômbia e no México. Nas duas ocasiões, apenas NBC e ABC deram uma cobertura mais extensa às viagens, enviando correspondentes, mas não apresentadores. A rede CBS não fez sequer isso.

A imprensa européia fica pouco atrás da americana em relação à atenção dada a Obama.

A revista Economist diz que o sentimento anti-Bush está sendo substituído pela Obamamania na Europa. O Financial Times reporta que camisetas estampadas com o rosto do senador já podem ser vistas por várias partes de Berlim e o Guardian já antecipou detalhes da visita há alguns dias.

Em campanhas americanas, atrair a mídia é um bom chamariz para atrair doadores e obter doadores, uma forma garantida de botar a campanha nas ruas e nas TVs e, assim, cooptar eleitores.

Quando se tem, ainda por cima, vantagem nas pesquisas, a coisa pode até parecer um sonho tornado realidade.

Mas isso tudo não significa que Obama pode relaxar e já colher os louros. Significa somente que McCain precisará trabalhar redobrado para reverter a vantagem do rival em diferentes frentes.

Mas na montanha-russa da corrida presidencial, o inesperado muitas vezes ocorre. Até o final do ano passado, ninguém imaginaria que um político novato faturaria a primária de Iowa, torando-se, assim, a maior sensação da política americana.

Novembro ainda está muito longe, mas até lá McCain vai precisar fazer mais do que simplesmente torcer por uma gafe ou um tropeço de seu rival.

O voto dos chorões
por Bruno Garcez (de Washington, 11/07)

O republicano John McCain já admitiu que não entende patavinas de economia. Um comentário que não é exatamente um bônus eleitoral numa hora em que a economia americana parece estar indo ladeira abaixo.

Mas agora existe o sinal ainda menos abonador de que um dos principais assessores econômicos do virtual candidato à Presidência americana também parece não dominar o assunto.

O senador Phil Gramm (republicano do Texas) afirmou que os Estados Unidos se tornaram uma ''nação de chorões'', devido à percepção equivocada de que a economia do país está indo pior do que na realidade, o que ele caracterizou como sendo uma ''recessão mental''.

Mas ao contrário do que pensa o senador, a economia americana não deixa de dar motivos para que muitos americanos cheguem à beira das lágrimas.

Pela primeira vez desde 2002, o Departamento do Trabalho americano registrou aumento nas taxas de desemrego em todas as áreas metropolitanas do país, em relação ao ano anterior.

John McCain
Candidato já admitiu que entende pouco de economia

Hoje, foi a vez de as duas maiores empresas de hipotecas dos Estados Unidos, Freddie Mac e Fannie Mae, sofrerem a maior queda em suas ações em 16 anos.

As duas companhias são responsáveis por metade das hipotecas dos Estados Unidos e foram severamente afetadas pela desaceleração do mercado imobiliário do país.

McCain está sofrendo com o fato de que é associado com as políticas econômicas de George W. Bush, com o fato de visivelmente não ser um apaixoando pelo tema - ainda que esteja tentando, com certa dificuldade, mostrar o contrário - e por já ter dito, somente no mês passado, que a base da economia americana permanece forte.

Nesta semana, o candidato republicano esteve em Michigan, o Estado que muitos analistas dizem já estar vivendo a recessão que poderá ainda acometer o resto dos Estados Unidos.

Em um comício no Estado marcado por um desemprego na faixa de 8,5% a defesa de McCain do livre comércio pareceu cair em ouvidos moucos. Um dos membros da platéia chamou o senador na xinxa e disse que o que o país precisa é controlar o comércio e promover práticas comercias justas.

A tarefa que McCain enfrenta é inglória a pouco mais de cem dias da eleição presidencial. Quando os assessores dele falam o que não devem, a situação não melhora em nada.

Ao menos o espirituoso republicano não perdeu seu ferino bom humor, ao dizer que Phil Gramm é um sério candidato ao posto de embaixador americano em Belarus, caso ele, McCain, chegue à Casa Branca.

Mas ao menos por enquanto os chorões americanos não parecem propensos a rir com ele.

O político das multidões
por Bruno Garcez (de Washington, 09/07)

Toda vez em que ele está na cidade é a mesma coisa. Casa cheia, filas gigantescas, gente disputando ingresso a tapa para vê-lo.

Quando ele pisa no palco, a reação é ainda mais intensa. Não se ouvem só palmas, mas também urros. Os bordões de campanha surgem a cada pausa de seu discurso e às vezes se sobrepõem às suas palavras.

Para coroar a sua capacidade de atrair e eletrizar multidões, Barack Obama anunciou nesta semana que vai realizar o seu discurso como candidato oficial do Partido Democrata não na convenção partidária, como reza a tradição, mas sim em um estádio de futebol americano, com capacidade para 75 mil.

Mas seriam as recepções de astro de rock que sempre cercam Barack Obama um sinal de que a eleição está no papo para ele?

Não, absolutamente, não, e ele sabe disso. Por isso, sabiamente, ainda que muitos de seus militantes mais à esquerda tenham se decepcionado com a guinada, Obama vem mais e mais adotando posturas de centro.

Recentemente, ele causou surpresa quando anunciou que não iria se opor a um projeto de lei apresentado ao Congresso e que dava imunidade às companhias telefônicas envolvidas com o polêmico programa do governo Bush de realizar escutas telefônicas sem recorrer a mandatos judiciais.

Outro terreno em que Obama parece estar revendo sua posição é o de retirar tropas do Iraque - um dos principais motes de sua campanha, durante as primárias.

Agora, o senador democrata afirma que pretende visitar o país nos próximos dias e que, uma vez lá, irá ''refinar'' a sua posição a respeito do tema, consultando os comandantes militares americanos e as autoridades iraquianas.

A transição deu munição ao rival republicano John McCain, que vem acusando o democrata de ter virado casaca em diversos temas.

Mas McCain também tem culpa no cartório, visto que mudou de idéia até em relação a seu malogrado projeto de ampla reforma imigratória, que acabou não sendo aprovado no Congresso.

McCain lutou arduamente pelo projeto, mas agora, de olho nos votos da ala direita do Partido Republicano, diz que prefere reforçar a segurança nas fronteiras americanas e que não aprovaria a sua própria proposta se ela fosse a votação.

Por essas e outras, McCain terá uma árdua batalha para reverter a vantagem de Obama.

Quando chama o rival de oportunista, a acusação pode facilmente se voltar contra ele, quando lança mão do argumento de que ele é pouco experiente em política internacional e antiquado em suas posturas econômicas, Obama contra-ataca dizendo que o republicano representa mais quatro anos para as políticas externas e econômicas equivocadas de George W. Bush.

McCain não é o primeiro rival de Obama a ter dificuldades em conseguir deixar o democrata acuado. Mais recentemente, nós vimos Hillary Clinton esbarrar no mesmo desafio. E sabemos muito bem o que acabou acontecendo com ela.

Coincidência feliz ou...?
por Bruno Garcez (de Washington, 03/07)

Ingrid Betancourt estava há seis anos em cativeiro e os reféns americanos haviam sido capturados há cinco, mas suas tão aguardadas libertações vieram a ocorrer justo durante a visita à Colômbia do virtual candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, John McCain.

Os adeptos de conspirações – e, convenhamos, quem não gosta de uma boa teoria conspiratória?- dirão que a coincidência não foi em vão. Que o líder colombiano, Álvaro Uribe, quis presentear McCain.

O senador republicano tem feito fortes elogios a Uribe e à ação do presidente da Colômbia para conter o narcotráfico e é o único entre os nomes na disputa presidencial americana que faz uma defesa incondicional do projeto de acordo de livre comércio entre Estados Unidos e Colômbia.

O virtual candidato democrata Barack Obama está alinhado com os representantes de seu partido, que domina o Congresso e que engavetou o tratado, sob o argumento de que para ser levado adiante ele precisa incluir salvaguardas trabalhistas e de direitos humanos.

McCain contou ter sido informado de antemão sobre a operação que propiciou a libertação dos reféns, o que, em sua visão, seria um sinal da confiança depositada nele por um líder internacional.

Analistas ouvidos por aqui, como Michael Shifter, do Inter American Dialogue, acreditam, no entanto, que dificilmente a campanha de McCain irá colher expressivos benefícios com a soltura dos reféns.

Mas os efeitos podem ser psicológicos e sentidos de forma mais indireta, podendo se somar à imagem que McCain tenta vender de ser mais experiente e determinado em temas de política internacional do que o rival Obama.

A situação é parecida com a que se deparou Ronald Reagan minutos após sua chegada à Casa Branca. Ele foi recebido com a notícia da libertação dos reféns americanos que vinham sendo mantidos aprisionados na embaixada dos Estados Unidos em Teerã.

Seu antecessor no cargo, o democrata Jimmy Carter, vinha trabalhando nos bastidores para conseguir a libertação, mas, supostamente, o regime dos aiatolás não tinha qualquer simpatia pela então administração americana e preferiu dar uma mãozinha para o seu rival, que venceu a eleição e acabou levando todos os créditos pela libertação.

Mas a Colômbia de Uribe em nada se assemelha ao Irã de Khomeini, que, mesmo 30 anos depois da crise dos reféns, ainda permanece no centro do palco da política internacional americana.

Atualmente, poucos americanos parecem interessados no plano de livre comércio com a Colômbia, tantas vezes defendido por McCain, ou nos benefícios do Nafta (o Tratado de Livre Comércio da América do Norte) para a economia americana.

Aliás, o retrato atual é justamente o contrário. Boa parte dos americanos parece julgar que o livre comércio tem justamente intensificado a crise econômica vivida pelo país.

Em meio à crise atual, o americano médio não está tão preocupado assim com a política de seu país para a América Latina. Mas McCain poderia colher frutos ao acrescentar mais um dado em seu currículo de líder tarimbado, com experiência internacional e respeitado pelos aliados americanos.

Até que ponto isso ajuda, é difícil dizer. Mas não atrapalha em nada.

Quem precisa de Chuck Norris?
por Bruno Garcez (de Washington, 10/06)

Ausente da disputa presidencial, o ex-governador de Arkansas Mike Huckabee fez uma campanha marcada pelo bom humor e por tiradas espirituosas.

Outra de suas marcas registradas foi a presença constante do astro de cinema e rei do sopapo Chuck Norris nos seus comícios.

No sábado, Huckabee voltou a causar surpresa e mostrou que é tão capaz de atos de valentia quanto o próprio Norris.

Mike Huckabee venceu o Caucus de Iowa em janeiro

O governador participava de um almoço na Convenção do Partido Republicano da Carolina do Norte, quando viu, em uma mesa ao lado, o candidato a vice-governador pelo Estado, Robert Pettinger, se engasgar com um pedaço de comida.

''Eu olhei e vi que alguém estava batendo em suas costas. Eu sabia que a pior coisa que se pode fazer é bater nas costas de alguém quando eles estão se engasgando'', afirmou o ex-governador, que conta ter feito um curso de primeiros socorros quando era mais novo.

''Eu simplesmente disse, 'com licença' para a pessoa com quem eu estava sentado, me levantei, coloquei a pessoa que estava batendo nas costas dele de lado e, sabe, nem pensei se eu estava sendo grosseiro ou não, apenas disse, 'com licença', agarrei Robert e apliquei nele a manobra de Heimlich'', relatou.

A manobra é um método para desobstruir as vias superiores bloqueadas por algum corpo estranho. Ela consiste em usar as mãos para fazer pressão sobre o diafragma de quem está se afogando, o que comprime o diafragma e acaba por forçar a saída do tal objeto estranho.

''Eu apliquei a manobra três a quatro vezes, o item saiu e ele ficou bem. Depois, voltei a me sentar e continuei com os meus afazeres.''

O espirituoso Huckabee não perdeu a piada. ''Sabe, eu não queria ver essa carreira política incrivelmente valiosa ser abortada por um pedaço de galinha.''

Talvez essa tenha sido uma das últimas amostras de bons sentimentos desta campanha presidencial, que promete ficar mais e mais feia.

O belo ato não deve, no entanto, garantir a Huckabee a vaga de vice-presidente na chapa do companheiro republicano John McCain.

Mas, claro, tudo pode mudar se ele começar a freqüentar os mesmos jantares que McCain.

Uma pausa para o humor
por Bruno Garcez (06/06)

Sábado cheio... melhor piada da semana coube a Hillary Clinton

Depois de uma longa e exaustiva campanha, de mais de 16 meses e enquanto a nova campanha não começa, é hora de relaxar e dar risada.

Munido de espírito leve semelhante ao do autor destas linhas, bem como de um senso de humor ligeiramente infame, alguém fez circular pela internet um e-mail com a piada "por que a galinha atravessou a estrada?", com respostas oferecidas pelos principais personagens políticos do país.

Cada resposta traduz o estilo peculiar a cada um. Confiram:

"A galinha atravessou a estrada porque era hora de mudança! A galinha queria mudança" - Barack Obama.

"Meus amigos, aquela galinha atravessou a rua porque reconheceu a necessidade de cooperar e dialogar com todas as galinhas do outro lado da estrada" - John McCain.

"Quando fui primeira-dama, pessoalmente ajudei aquela galinhazinha a atravessar a estrada. Esta experiência faz com que eu tenha qualificações únicas para garantir, desde o primeiro dia, que cada galinha deste país possa cruzar a estrada" - Hillary Clinton.

Uma outra boa tirada foi a feita pelo provável indicado democrata, ao fazer campanha no Estado de Dakota do Sul, que abriga o famoso monumento Monte Rushmore, uma montanha onde estão esculpidos os bustos de quatro presidentes americanos.

Indagado se gostaria de ser o quinto líder a ter seu rosto gravado nas rochas do monte, Obama fez uma piada auto-depreciativa sobre suas orelhas de abano.

"Não creio que minhas orelhas caberiam", disse. "Não há tantas pedras assim lá em cima."

Mas a melhor piada da semana coube a Hillary Clinton. Numa aparente vingança contra a imprensa e sua suposta postura pró-Obama, a senadora decidiu promover o seu evento de despedida da campanha democrata neste sábado.

Não será um sábado qualquer. A previsão meteorológica prevê um dia ensolarado e temperaturas que estarão entre as mais elevadas do ano.

Obama e a barreira racial
por Bruno Garcez (04/06)

Ao abraçar a candidatura de Barack Obama, o Partido Democrata optou pelo candidato que se mostrou mais capaz de atrair eleitores às urnas, de levar milhões a se filiar à legenda e a votar pela primeira vez.

Mas se por um lado o partido optou pelo candidato mais inspirador da campanha eleitoral, os democratas também estão assumindo um risco calculado, o de indicar o primeiro candidato negro à Presidência dos Estados Unidos.

Barack Obama
Obama promete mudanças nos EUA

A origem de Obama, filho de uma americana branca natural do Kansas e um africano nascido no Quênia, pareceu, em princípio, reforçar a idéia de que sua candidatura representava uma inovação.

Não só sua mensagem era nova, como até a sua aparência e o seu nome e sobrenome soavam totalmente distintos dos de um político tradicional.

Ele era o candidato pós-racial, uma espécie de Tiger Woods da política.

Mas eis que em meio à campanha, começam a pipocar no Youtube sucessivos clipes protagonizados por Jeremiah Wright, o ex-pastor da Igreja de Trinity, uma congregação afro-americana de Chicago à qual Obama pertenceu.

Como diversos pastores de Igrejas negras americanas, Wright não foge à polêmica. Ele condenou o governo americano por ter lançado ações contra a população negra do país e disse que os atentados de 11 de setembro de 2001 foram um efeito da política externa americana.

O efeito foi devastador, mas Obama reagiu a tempo. Primeiro realizou um histórico discurso sobre as relações raciais nos Estados Unidos. Depois, diante de novas polêmicas protagonizadas por Wright, condenou o ex-pastor, e, neste final de semana, decidiu abandonar a Igreja de vez.

Ainda que apropriadas, as tentativas do senador de apaziguar os efeitos das declarações de seu pastor podem não ter sido suficientes para aplacar as desconfianças e reservas que muitos eleitores ainda têm em relação a um política afro-americano ou a afro-americanos como um todo.

Um dos grupos eleitorais mais fiéis a Hillary Clinton - os homens brancos, trabalhadores de indústrias e com nível médio de escolaridade - dizem estar mais propensos a votar em John McCain do que em Obama, agora que a sua candidata parece estar fora da corrida presidencial.

Tudo indica que os hispânicos, que também votaram em peso em Hillary, seguem a mesma linha.

A campanha de Obama foi quase impecável até o momento. Ele conseguiu contornar todos os aparentes contratempos e cascas de banana deixadas por Hillary.

Para cooptar esses grupos que torcem o nariz para ele, Obama terá que seguir fazendo uma campanha irretocável e ainda se desvencilhar de possíveis campanhas de difamação lançadas ou pelos próprios republicanos ou por grupos cujas agendas são ligadas à de seu rival.

Nos próximos meses, Obama será, como já vem sendo, acusado de ser antipatriótico, excessivamente liberal, elitista e alheio aos interesses do americano médio.

Para conquistar todos aqueles que ainda não consideram a hipótese de votar nele, o senador precisará provar que ele não é nada do que o acusam de ser.

Ninguém engole "docinho" de político nos EUA
por Bruno Garcez (16/05)

Assim que noticiaram que Barack Obama havia telefonado para uma repórter para pedir desculpas por tê-la chamado de "docinho", pensei: "Bem, deve estar faltando notícia".

Barack Obama em Michigan, onde o incidente aconteceu
Incidente aconteceu durante visita a Detroit, Michigan

Mas pensando melhor, a coisa não é tão simples assim. Nos Estados Unidos, ainda mais após o advento do comportamento politicamente correto, na década de 90, dizer certas coisas em público pode causar danos ireversíveis a uma carreira política.

Dentro desse raciocínio, o comentário de Obama poderia parecer uma maneira de colocar uma profissional do sexo feminino para baixo.

Custo a acreditar que o mesmo procedimento causaria a mesma celeuma se fosse no Brasil. E me recordo de casos ocorridos no Brasil ou envolvendo políticos brasileiros que seriam impensáveis por aqui.

O ex-presidente Itamar Franco saudava as repórteres que cobriam o seu governo com dois beijinhos no rosto e, mais recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou uma repórter que acompanha o seu governo regularmente de "meu amor".

O comentário do presidente não foi visto como sexista ou ofensivo por nenhum dos vários presentes, incluindo a própria repórter, que deu risada do contexto debochado e até afetuoso em que o termo foi usado.

O ex-governador Mario Covas foi ainda além. Certa vez, uma bela repórter portuguesa radicada no Brasil fez uma pergunta durante uma entrevista coletiva. Por conta do carregado sotaque da moça, ao final da indagação ele respondeu: "Minha filha, você é muito bonita, mas eu não entendi uma palavra do que você disse".

Todos os presentes riram, incluindo a própria repórter.

Mas aí reside a principal diferença. Na sociedade americana, a distância entre um(a) repórter e um(a) político(a) é bem marcada, e os momentos informais não chegam a permitir que um deputado, governador ou candidato a presidente chame alguém de "meu bem", "docinho", "querida" ou qualquer outro termo ou comentário que possa ser interpretado como machista ou preconceituoso.

Diferenças culturais à parte, a lição que os políticos brasileiros poderiam aprender com os americanos é a de procurar se resguardar com mais freqüência e não dizer a primeira coisa que vem à cabeça.

Pouparia dores de cabeça e pedidos de desculpas.

Chuva de papel picado
Por Bruno Garcez (de Charleston, 14/05)

Chuva de papel picado pareceu apenas um "efeito especial"

Assim que ela gritou "obrigado, Virgínia Ocidental", o público foi brindado com uma chuva de papel picado nas cores da bandeira americana.

A mesma chuva varreu os eleitores do Estado da Pensilvânia, onde ela foi a vencedora por quase dez pontos de diferença.

Mas aqui na Virgínia Ocidental, o "efeito especial" que costuma marcar o encerramento dos comícios de vitória de Hillary Clinton pareceu tão somente isso mesmo, um efeito especial.

Mesmo com uma vitória esmagadora, a conquista da senadora no Estado foi encarada com desdém pela imprensa americana.

O colunista Dana Milbank, do jornal The Washington Post, comparou a atual etapa da campanha da senadora com o lendário esquete do papagaio da trupe humorística Monty Python, no qual um lojista tenta convencer um consumidor que o animal doméstico dele ainda está vivo, a despeito de todas as provas em contrário.

Os jornalistas presentes ao auditório do Centro Cívico de Charleston, o local do discurso, encararam o pronunciamento triunfante de Hillary com consternação.

Um repórter da emissora Fox News arregalou os olhos e mal conseguiu conter o riso quando ela afirmou que estava "mais determinada do que nunca" em continuar na disputa.

Outra teve reação semelhante quando a senadora pediu que os seus correligionários sigam fazendo doações de modo a manter viva a sua campanha.

Os incessantes comentários de analistas políticos de que Hillary não tem mais condições de alcançar matematicamente o rival Barack Obama em termos de delegados ou de votos populares poderiam ser os sinais mais claros de fim de linha para a campanha da pré-candidata.

Entrevistador "de mentirinha" foi única celebridade de evento

Mas, para mim, o sintoma mais evidente foi outro. Em um evento de campanha de Hillary no final de semana, na cidade de Grafton, na Virgínia Ocidental, nenhum dos célebres âncoras da televisão americana deu o ar de sua graça.

A única celebridade presente era uma que a campanha de Hillary provavelmente preferia que não estivesse por lá. O entrevistador "de mentirinha" Jason Jones, do humorístico Daily Show.

No esquete gravado por Jason, uma jornalista local entrevistava um potencial eleitor, ele chegava por trás, colocava seu paletó sobre os ombros da moça e dizia: "Querida, vamos embora. Tudo acabou".

Um empate com sabor de derrota
por Bruno Garcez (de Indianápolis, 07/05)

Barack Obama e Hillary Clinton saíram cada um com uma vitória das primárias de Indiana e Carolina do Norte.

Mas a impressão de que o desfecho foi um mero empate entre os dois candidatos é enganosa.

Hillary precisava vencer por ampla margem em Indiana, para seguir com chances na disputa. Ter chegado à frente do rival por 2% foi mais que um resultado decepcionante.

Campanha de Hillary tem muitas dívidas
Campanha de Hillary tem muitas dívidas
Na Carolina do Norte, a campanha de Hillary já trabalhava com a idéia de uma derrota, mas esperava que ela se desse por uma margem estreita ou mesmo que a senadora virasse o jogo na reta final.

Ao final da apuração no Estado, Hillary amargou não uma derrota, mas sim um massacre, tendo sido arrasada por Obama por 56% contra 42%.

Muitos analistas já decidiram que a disputa está encerrada, uma vez que para a senadora seria impossível alcançar Obama tanto no voto popular como na contagem de delegados.

"Nós agora sabemos quem será o indicado do Partido Democrata e ninguém irá refutar isso. Às vezes, o candidato em campanha é o último a reconhecer a melhor hora. É como estar na UTI, quando começam a desligar os aparelhos, você não têm mais escolha", afirmou Tim Russert, da rede NBC.

Debaixo de uma foto de Obama de sua mulher, Michelle, a agência de notícias online Drudge Report cravou a manchete "O Indicado".

Os analistas argumentam que a campanha de Hillary está afundada em dívidas e que diante dos resultados de ontem, fica difícil que ela consiga obter novas doações.

Robert Shrum, que trabalhou nas campanhas de Al Gore e John Kerry, disse que o caso de Hillary é distinto do de outros candidatos que, no passado, seguiram em disputas de primárias mesmo sem ter chances de vencer.

Tanto o então governador Ronald Reagan, que desafiou Gerald Ford, em 1976, e o senador Ted Kennedy, que concorreu contra Jimmy Carter, em 1980, permaneceram na disputa até o fim com o intuito de assegurar que, se reeleitos, os presidentes americanos adotariam alguns dos temas que eles defendiam em suas plataformas.

De acordo com Shrum, não é o caso na atual disputa democrata, já que os dois pré-candidatos não possuem sérias divergências em termos de políticas de governo.

Hillary deve se encontrar hoje com superdelegados que apóiam a sua candidatura. Muitos acreditam que o recado que eles darão é que é chegada a hora de sair de cena e apoiar Barack Obama.

Pastor pode enterrar candidatura de Obama
por Bruno Garcez (de Washington, 02/05)

As mais recentes pesquisas podem ser um sinal de que a fascinação por Barack Obama periga estar passando.

A sondagem do instituto Gallup revela que Hillary Clinton agora estaria cerca de 4 pontos à frente do rival, batendo-o nacionalmente por 49% contra 45%,

Na Carolina do Norte, que realizará suas primárias juntamente com o Estado de Indiana, no próximo dia 6 de maio, ela estaria encostando em Obama.

A diferença entre os dois no Estado já foi superior a 10 pontos, mas agora seria apenas de cerca de 7.

Algumas sondagens já apontam que Hillary estaria superando o senador por uma margem estreita em Indiana, quando, há pouco tempo, a disputa estava virtualmente empatada.

As pesquisas têm sido um dos pontos fracos desta eleição, errando, quando não no vencedor, ao menos, em boa parte, na margem da vitória.

Mas elas parecem também refletir que os estragos causados pelas frases bombásticas do reverendo Jeremiah Wright, que foi o pastor do candidato por mais de 20 anos, podem ser mais duradouros do que o imaginado.

Outra sondagem, esta feita pelo Wall Street Journal e a rede NBC mostram uma redução entre os americanos que dizem se identificar com os valores do pré-candidato, um total de 45%, uma queda de 5% desde o mês passado.

Enquanto Obama teve de investir em tentativas de se distanciar do seu polêmico ex-pastor, Hillary seguiu trabalhando avidamente nos temas que julga essenciais junto aos votantes dos dois Estados, como ela mesma resumiu - empregos, empregos, empregos.

Em Indiana, ela prometeu 5 milhões de novos postos de trabalho. A senadora também apoiou a proposta de John McCain de oferecer uma moratória sobre um imposto cobrado sobre gasolina.

Obama acusa a proposta de ser eleitoreira e é contra a idéia.

Mas o discurso populista da senadora parece estar encontrando ressonância junto a muitos americanos, em especial o eleitor médio, branco, sem nível universitário e fortemente atingido pelo desemprego.

A todas estas características soma-se o fato de que este eleitor padrão também desconfia da associação de Obama com um suposto pastor incendiário. Não é à toa que em Estados como Ohio e Pensilvânia, onde este grupo constitui a maioria, ela bateu o rival.

Mesmo que Barack Obama termine por obter a indicação do Partido Democrata, e que o pastor-bomba opte por um súbito voto de silêncio, os astutos republicanos certamente procurarão reavivar a memória do eleitor.

Aliás, este processo já está em curso, com comitês republicanos locais exibindo nas TVs do Mississippi e da Carolina do Norte comerciais negativos contendo imagens de Obama e de Wright.

Tudo isso cai com uma luva para Hillary Clinton, que há meses vem argumentando que Obama é um candidato mais frágil perante John McCain do que ela.

O reverendo Jeremiah Wright poderá provar que ela tem razão.

É hora do filme acabar
Por Bruno Garcez (de Washington, 25/04)

É bem verdade que a disputa entre os dois pré-candidatos democratas vem despertando paixões ocultas, propiciando comparecimentos recordes às urnas e gerando uma onda de engajamento político poucas vezes vista na história recente dos Estados Unidos.

Mas o fato é que a disputa prolongada já começa a saturar até os mais interessados pelo processo, a começar pelos jornalistas que vêm cobrindo as diferentes primárias.

Ouvir jornalista se queixar não é novidade, é rotina. Mas a disputa prolongada vem fazendo com que até os colegas que haviam se tornado verdadeiros viciados no processo das primárias gradualmente abandonem o vício, sem quaisquer sinais de crises de abstinência.

Quando eu disse que estava indo para a Filadélfia, os comentários de alguns conhecidos de profissão não foram coisas na linha de ''você precisa ir a Scranton, a cidade do pai de Hillary'' ou ''não deixe de visitar os bairros negros da cidade, onde há muitos eleitores de Obama''.

Não, nada disso, as afirmações mais constantes que ouvi foram: ''Oba, domingo estou de folga, vou poder visitar o centro da comunidade Amish''. Ou então: ''Que bom que você vem, o Foreign Press Center está organizando duas recepções, com drinques e comida, para a imprensa estrangeira''.

Não pense o leitor que o jornalista médio decidiu montar uma rede no quarto de hotel e saborear uma água de coco, enquanto cobre todos os eventos pela TV.

Não, seguimos indo aos QGs de Hillary e Obama, tirando fotos dos ativistas promovendo buzinaços pelas ruas da cidade, gravando passagens para a TV no comício da vitória de Hillary, etc, etc.

Mas o problema é que a sensação de mesmice que a campanha vem gerando é tremenda.

Parece já ter se falado de tudo. O voto hispânico, o voto feminino, o voto jovem, o voto afro-americano, a elegibilidade de Obama, se a questão racial influi ou não, se os eleitores confiam ou desconfiam de Hillary, se McCain se beneficia com a longa corrida democrata.

Agora, o risco que nos acomete quando passamos para as próximas primáras, as do dia 6 de maio, na Carolina de Note e Indiana, é a falta de assunto

A única garantia de que isso não irá ocorrer é se a competição entre os dois candidatos terminar de vez, graças ao resultado em um dos dois Estados.

Mas, sei não, tenho um mau pressentimento de que esse filme ainda não termina tão cedo.

Enquanto isso, o jeito é dar uma googlada nos sites turísticos para ver o que há de melhor nas praias da Carolina do Norte ou nos lagos de Indiana, na esperança de poder tirar alguns dias de folga entre uma primária e outra.

Quem sabe assim, surge inspiração necessária para escrever alguma coisa nova.

A disputa fere ou ajuda o Partido Democrata?
Por Bruno Garcez (da Filadélfia, 23/04)

Um dos temas recorrentes na corrida eleitoral americana é o de que a longa disputa entre Barack Obama e Hillary Clinton está causando danos ao Partido Democrata.

Os defensores dessa tese argumentam que a candidatura de Obama, que provavelmente obterá a indicação do partido (segundo eles) está sendo minada por uma opositora de seu próprio time, poupando trabalho para os republicanos em novembro.

Ao ressaltar a suposta inexperiência do rival, frisar que ele não tem conseguido vencer em grandes Estados e destacar a desconfiança do eleitor médio americano com a sua candidatura, Hillary estaria oferecendo munição para John McCain usar quando a campanha passar a ser apenas entre um republicano e um democrata.

São argumentos fortes, que parecem quase incontestáveis. Mas se por um lado o longo embate entre os dois candidatos traz prejuízos, ele também vem propiciando ganhos aos democratas.

O partido vem registrando recordes de comparecimento às urnas e ampliando de forma significativa o seu número de filados.

Aqui na Pensilvânia, 15 distritos deixaram de ser predominantemente republicanos e passaram a pender para os democratas.

O Partido ampliou sua presença em 99% das regiões do Estado, enquanto que os republicanos sofreram declínios em 92%.

Os democratas obtiveram desde o ano passado 326.756 mil novos eleitores na Pensilvânia, passando a contar com um total de 4,2 milhões. Ao passo que os republicanos perderam 42 mil, somando agora um total de 3,2 milhões.

O que pude ver aqui na Pensilvânia é semelhante ao que vi em outros Estados que sediaram primárias, desde o gélido Iowa até a ensolarada Califórnia: ativistas indo às ruas carregando cartazes e promovendo buzinaços, batendo de porta em porta para convencer eleitores, disparando telefonemas, milhares fazendo fila e muitas vezes ficando de fora em comícios.

Na Pensilvânia, Obama chegou a quebrar seu próprio recorde, tendo atraído 35 mil pessoas para um de seus eventos, uma platéia que muitas vezes não é vista nem em eventos esportivos.

A campanha vem fazendo com que ativistas dos dois candidatos se espalhem por diferentes Estados americanos. É possível encontrar correligionários de Obama que vieram da Califórnia para fazer campanha no Texas ou de Washington que resolveram dar uma força a colegas da Pensilvânia.

Uma amiga americana que milita por Hillary está agora em Indiana após ter passado longo períodos em Nevada, Pensilvânia, Colorado e Texas para ajudar sua candidata.

Os americanos, normalmente avessos a tratar de política em público, agora falam de Hillary ou Obama com a mesma familiaridade com que tratam ídolos esportivos.

Em meio a isso tudo, John McCain acaba tendo de disputar por espaço na mídia.

É bem verdade que ele pode estar assistindo à longa ópera wagneriana democrata, como comparou um colega da BBC, de camarote, mas, ao menos por enquanto, ele é apenas mais um membro da platéia.

Comentário pode ''amargar'' candidatura de Obama
Por Bruno Garcez (de Washington, 13/04)

O senador Barack Obama passou o dia tentando reduzir os estragos causados pelo comentário de que a atual crise financeira americana vem levando moradores de cidades pequenas da Pensilvânia a se tornarem pessoas ''amargas'' que se apegam à religião e às armas.

No dia seguinte aos comentários, o senador tentou se explicar, dizendo não ''ter se expressado tão bem quanto deveria''.

Mas Hillary Clinton e John McCain foram mais rápidos em tentar explorar a idéia de que Obama é um elitista que despreza parcela expressiva do eleitorado americano.

A campanha de McCain afirmou que o desdém que Obama expressou por valores tradicionais americanos é ''revelador''.

Hillary contou ter crescido em uma família religiosa e que as pessoas de fé que ela conhece abraçaram a sua crença ''não porque elas sejam amargas'' nem por serem ''materialmente pobres, mas por serem espiritualmente ricas''.

Ela lembrou ainda que os americanos que defendem o porte de armas o fazem porque a Segunda Emenda da Constituição americana lhes garante esse direito e que caçar é algo enraizado na cultura americana.

Alguns colegas argumentaram que não há nada demais nos comentários de Obama e que eles foram tirados de contexto.

De fato, eles foram, mas não seria de se esperar que rivais fossem perder essa oportunidade.

Falta pouco mais de uma semana para a decisiva primária da Pensilvânia, um Estado com expressivo eleitorado branco e da classe trabalhadora, que tem preferência por Hillary.

Falando diretamente ao seu público, Hillary disse que alguém que quer ser presidente dos Estados Unidos precisa ''respeitar todos os americanos''.

Muitos aqui dão como certo que Obama acabará conquistando a indicação democrata.

Se consagrada a candidatura do senador, seu comentário dará mais munição ao arsenal dos adversários republicanos.

Vale lembrar que eles já contam em seu cinturão com o pastor Jeremiah Wright, o fato de que Obama não usa uma bandeira americana em sua lapela e seu histórico de votação ''esquerdista'' no Senado.

O túnel do tempo
Por Bruno Garcez (de Washington, 12/04)

No início dos anos 90, o presidente Bill Clinton batalhou pelo aprovação do Nafta, o Acordo de Livre Comércio das Américas, junto ao Congresso americano.

A defesa do livre comércio foi uma das tônicas do governo Clinton e uma sinalização de que sua gestão indicaria um novo rumo para o Partido Democrata, normalmente associado a sindicatos, a práticas protecionistas e avesso a medidas que poderiam se mostrar impopulares junto à classe trabalhadora.

Agora, esse legado parece ter sido totalmente apagado. E os democratas abraçaram velhos ideais do tempo em que amargaram sucessivas vitórias para candidatos presidenciais republicanos.

O Nafta se tornou uma palavra proibida e a proposta de um acordo de livre comércio entre Estados Unidos e a Colômbia custou até o cargo do principal marketeiro da ex-primeira dama Hillary Clinton.

Mark Penn foi obrigado a se demitir pouco após ter se encontrado com autoridades colombianas. Penn participou da reunião na condição de representante de sua firma de lobby, que atende ao governo da Colômbia, não como marketeiro de Hillary.

Mas o estrago já estava feito, uma vez que a senadora Clinton é veemente opositora não apenas do tratado com a Colômbia, como, atualmente, até mesmo do Nafta.

Dick Morris, um ex-assessor de Bill Clinton que se converteu em blogueiro e em inimigo de morte do casal, afirma que, enquanto primeira-dama, Hillary fez ávida campanha pela aprovação do Nafta e nunca expressou oposição ao tratado.

Pelo contrário, chegou a acompanhar a votação da resolução no Congresso com atenção e a celebrar o resultado favorável.

O marido de Hillary, ao menos, ainda defende o Nafta e é favorável ao acordo com a Colômbia. A campanha de Hillary diz que a divergência de opiniões é algo natural entre muitos casais.

O senador Barack Obama, cuja campanha é centrada no discurso de mudança e transformação, prefere apostar no tradicionalismo, quando se trata de livre comércio.

Obama também se opõe ao tratado com a Colômbia e ao Nafta. Ele chegou, inclusive, a se mostrar um crítico coerente do acordo de livre comércio para as Américas, destacando que Hillary, sua rival, teria ''virado casaca''.

O senador enfatiza sempre os empregos que o Nafta teria roubado dos trabalhadores americanos.

Os democratas vêm evocando ideais de mudança e transformação, mas, em ano de crise econômica, eles abrem uma exceção quando o tema não cai bem junto a eleitores.

Palanque Privilegiado
Por Bruno Garcez (de Washington, 09/04)

O(a) próximo(a) presidente dos Estados Unidos só precisou ir ao trabalho para fazer campanha na terça-feira.

Todos os presidenciáveis americanos são senadores e participaram da sabatina ao comandante militar dos Estados Unidos no Iraque, David Petraeus, e ao embaixador americano no país, Ryan Crocker.

Cada um deles, como era de se esperar, aproveitou a atenção da mídia para repetir alguns dos bordões que vêm marcando suas campanhas.

O senador John McCain era um dos poucos que pareciam inteiramente de acordo com o general Petraeus, pois apóia a estratégia implantada no ano passado de aumentar a presença militar no Iraque.

Fotógrafos cercam Crocker e Petraeus em sabatina no Senado americano
Fotógrafos cercam Crocker e Petraeus em sabatina no Senado

"Nós percorremos um longo caminho desde 2007", afirmou o senador durane o depoimento de Crocker e Petraeus, lembrando do período em que a estratégia militar americana parecia fadada ao fracasso, mas, desde então, argumentou, a tática de ampliar o número de soldados vêm tendo êxito.

A intervenção de McCain, no entanto, pareceu o retrato da própria campanha do senador, que até o final do ano passado parecia condenada.

A senadora Hillary Clinton, que incialmente aprovou a invasão do Iraque, disse discordar da visão segundo a qual retirar tropas do país constituiria "falta de liderança ou irresponsabilidade".

Em uma frase que poderia ter sido dita em um de seus comícios e quem sabe até já o foi, Hillary afirmou que é hora de pôr fim a políticas fracassadas e de dar início a uma retirada organizada dos militares americanos.

Mais tarde, foi a vez de Barack Obama, que pareceu tentar ir além do tom de político em campanha para mostrar que está "por dentro do assunto" e assim, quem sabe, colocar de lado as acusações de que é inexperiente em temas de política internacional.

O senador defendeu a necessidade de colocar pressão sobre as autoridades do Iraque para que elas comecem a mostrar resultados.

No entender do senador em campanha, é preciso impor uma ofensiva diplomática, que deveria envolver até o Irã, coerente com a mensagem de um candidato que disse que estaria disposto até a se encontrar com inimigos americanos, como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad.

Para Obama, os defensores da atual estratégia americana criaram uma expectativa excessivamente elevada para o que pode constituir um êxito americano no Iraque.

Se for preciso esperar, argumentou o senador, que o país se torne uma democracia multiétnica, alheia à influência do Irã e imune à rede Al-Qaeda, pode ser que os americanos precisem permanecer por lá por duas ou três décadas.

Os depoimentos no Senado continuariam nesta quarta, mas o(a) próximo(a) líder dos Estados Unidos já deu seu recado e deixou seus correligionários e potenciais eleitores felizes.

Ele teve um sonho
Por Bruno Garcez (de Washington, 04/04)

"Deus não pediu aos Estados Unidos que se envolvam em uma guerra sem sentido e injusta. E nós somos criminosos nessa guerra. Nós cometemos mais crimes de guerra do que qualquer nação no mundo, e eu vou continuar a dizê-lo."

Dois meses após ter feito estas declarações sobre a Guerra do Vietnã, a vida do reverendo Martin Luther King Jr. chegou ao fim, quando a bala de um rifle de caça destruiu o seu maxilar direito, atravessou seu pescoço e se alojou em suas costas, no dia 4 de abril de 1968.

Mais de 40 anos após King ter feito sua incisivas críticas contra os Estados Unidos e sua política externa, Jeremiah Wright, um outro reverendo negro, enfrenta críticas semelhantes por declarações feitas contra o governo americano e sua política externa.

Mas o reverendo não é qualquer líder religioso, mas sim o pastor de mais de 20 anos daquele que poderá vir a ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama.

Barack Obama
Obama fez um elogiado discurso sobre as relações racias nos EUA

Wright disse que os Estados Unidos apoiaram "terrorismo de Estado contra os palestinos e os negros da África do Sul" e que o governo americano cometeu crimes em terras estrangeiras e matou um número maior de pessoas do que aqueles que foram mortos nos atentados de 11 de setembro de 2001.

Os comentários obrigaram Obama a se distanciar de seu pastor e de seus sermões e a realizar um elogiado discurso sobre as conturbadas relações racias nos Estados Unidos.

Anos antes de ser morto, Luther King discursava na capital americana sobre um sonho, o de ver um dia "filhos de escravos e de proprietários de escravos sentados juntos à mesa da irmandade", um sonho "profundamente enraizado no sonho americano".

Consta que nos anos 60, muitos ativistas de direitos civis tentaram persuadir King a se candidatar por um terceiro partido à presidência dos Estados Unidos, mas seus correligionários relatam que, mesmo após considerar o pedido com atenção, o reverendo chegou à conclusão de que seu destino não era a política.

Mais de 40 anos após as palavras utópicas de King, uma pesquisa realizada pela rede CNN mostra que 76% dos americanos acreditam que os Estados Unidos estão prontos para serem liderados por um negro, um número 14% superior ao de dois anos atrás.

A liberdade a que King almejava não se limitava aos negros, mas se referia também a brancos que ele esperava conseguir libertar das amarras do racismo e da intolerância por meio de seu discurso integrador.

Se Martin Luther King ainda estivesse entre nós, aos 79 anos, ele poderia acompanhar a possível chegada de um negro à Casa Branca, eleito predominantemente pelo voto de brancos, e repetir seus dizeres dos anos 60: "Enfim, livres".

Na lona?
Por Bruno Garcez (de Washington, 01/04)

Ela não tem mais chances matematicamente, conta com menos superdelegados, com menos votos populares e sua permanência na disputa democrata tem contribuído apenas para enfraquecer o provável candidato democrata.

É esse o argumento dos que querem que a senadora Hillary Clinton abandone a disputa para decidir quem será o próximo candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos e apóie Barack Obama.

Alguns líderes ilustres dos democratas já o dizem abertamente, caso do senador Patrick Leahy, de Vermont, que afirma que a permanência de Hillary na corrida vem beneficiando mais ao republicano John McCain do que qualquer ação ou slogan lançado pelo próprio McCain.

Alguns, como o presidente do partido, Howard Dean, e a líder da Câmara, Nancy Pelosi, clamam por um desenlance rápido da disputa, argumentando que a corrida não pode continuar até a convenção democrata, em agosto.

Hillary diz que tem 'muito em comum' com Rocky Balboa

Como um desfecho só se dará com um dos candidatos abrindo mão da candidatura, e como Obama lidera em todos os quesitos, a mensagem dos dois líderes só pode ser uma indireta a você sabe quem.

Em meio ao terreno minado enfrentado pela senadora, um dos seus correligionários, o deputado Emanuel Cleaver, do Mississippi, se arrisca a fazer uma previsão: a de que a Presidência dos Estados Unidos ficará com... Barack Obama!

O jornal Wall Street Journal relatou recentemente que um grupo de deputados que apóiam Hillary tanto na Carolina do Norte como em Indiana estariam dispostos a anunciar seu apoio a Obama antes da realização das primárias de seus Estados.

Mas, se a senadora parece não ter mais opções e se até mesmo destacados membros de seu partido e correligionários parecem querer que ela faça um retorno antecipado ao Senado americano, o que ainda mantém Hillary na disputa?

Uma das hipóteses, que me parece um tanto exagerada, é a de que ela queira justamente provocar a derrota de Obama para McCain e assim retornar em 2012 como a candidata democrata.

Uma hipótese que parece ingênua, visto que Hillary provavelmente sabe que muita coisa muda em quatro anos, que o diga a ascensão de Obama.

Outra possibilidade, e essa não merece ser desconsiderada, é a de que ela poderá vencer todas as principais disputas adiante, a começar pela Pensilvânia, no próximo dia 22.

E, mesmo não alcançando Obama no voto popular, poderia fazer valer sua tese, a de que a dinâmica está a seu favor e de que ela é mais elegível do que o rival.

Hillary poderá até mesmo vir a superar Obama no voto popular, caso o Partido Democrata opte por realizar novas primárias no Michigan e na Flórida, onde ela contaria com a preferência dos eleitores.

Por essas e por outras, mesmo com as opções se esgotando, ainda é cedo para descartar Hillary. Hoje, ela chegou até a se comparar ao célebre pugilista das telas Rocky Balboa, que acabava vencendo suas disputas mesmo depois de tomar muitos socos e de ir à lona várias vezes.

"O senador Obama diz que está cansado da campanha. E seus correligionários dizem querer que ela termine. Você já imaginou se Rocky chegasse no alto daquelas escadarias do museu de arte e dissesse: 'Bem, acho que já fui longe o bastante'?", indagou Hillary.

E acrescentou: "Não é assim que funciona, em se tratando de terminar a luta, Rocky e eu temos muito em comum. Eu nunca desisto".

Mas, ao contrário do que acontecia com o personagem de cinema, na luta para ganhar a candidatura, Hillary poderá acabar perdendo por nocaute técnico.

Dura na queda
Por Bruno Garcez (de Washington, 31/03)

A crescente pressão para que Hillary Clinton deixe a corrida presidencial não apenas está caindo em ouvidos moucos como parece ter efeito inverso: o de mobilizar os simpatizantes da senadora.

Foi assim no Texas e em Ohio, quando muitos, já pela segunda vez, equivocadamente, davam a candidatura de Hillary como encerrada.

Os militantes texanos da ex-primeira-dama dispararam telefonemas, enviaram e-mails e bateram de porta em porta em um esforço que, surpreendentemente acabou superando a azeitada máquina montada pelos jovens e entusiastas ativistas de Barack Obama e resultando na vitória.

Como diz o ex-presidente Bill Clinton em um email enviado a simpatizantes da candidata, Hillary não é do tipo que desiste.

A meta da senadora seria tentar superar Obama no voto popular, uma vez que alcançar o rival em número de delegados é tarefa muito difícil, praticamente impossível, segundo alguns analistas.

Ela argumenta que vai levar a disputa até a convenção do Partido Democrata, em agosto, contrariando algums dos principais líderes democratas, entre eles o presidente Howard Dean, que gostariam de ver a corrida encerrada, no mais tardar, até julho, um mês após a última primária.

Simpatizantes de Obama dizem que a saraivada de ataques lançadas pela campanha de Hillary contra Obama vem minando a candidatura do rival e quem poderá sair ganhando é John McCain.

Há quem argumente na imprensa americana que a tática de Hillary seria mesmo essa, a de entregar a eleição para McCain, a fim de que ela possa voltar a se candidatar dentro de quatro anos.

Mas por mais calculista e adepto de artimanhas que seja o casal Clinton, essa hipótese parece algo delirante, já que seria apostar demais na sorte.

De toda forma, Hillary não age como quem contempla a hipótese de desistir.

A propósito, no próximo dia 9 de abril, Elton John fará sua primeira apresentação solo em Nova York desde 2000, em um concerto especialmente destinado a angariar fundos para a candidatura da ex-primeira-dama.

Sinceramente, quem está disposto a pagar US$ 250 por ingresso ou é muito fã de Elton John ou não acredita mesmo que Hillary esteja em vias de desistir.

McCain seria o melhor para o Brasil?
Por Bruno Garcez (de Washington, 26/03)

Há muito se diz que os republicanos podem até ser impopulares em outras partes do mundo, mas que, para o Brasil, um presidente americano saído das fileiras do partido do presidente George W. Bush poderia ser a melhor opção.

A explicação de analistas é de que os democratas seriam mais protecionistas e mais avessos a tratados de livre comércio internacionais, ao passo que os republicanos seriam o oposto disso.

Pois o republicano John McCain, o único dos presidenciáveis na atual disputa que é contra os subsídios que os americanos destinam ao etanol e o único a apoiar incondicionalmente acordos de livre comércio, foi além.

Em um discurso realizado nesta quarta-feira, McCain falou que o G8, o grupo que reúne os sete países mais ricos do mundo e a Rússia, deveria incluir nações emergentes como o Brasil e exlcuir os russos.

Para o candidato republicano, o G8 precisa voltar a ser um "clube" de democracias de mercado, em que não teriam vez países como a Rússia, onde os princípios democráticos estariam caindo em desuso.

Para Chávez, John McCain parece ser 'um homem de guerra'

O presidente venezuelano Hugo Chávez parece pensar de forma distinta.

Em uma recente entrevista, o líder da Venezuela afirmou que McCain parece ser "um homem de guerra", que ameaça a Rússia e a China e que acredita que Bush foi tolerante demais com ele, Chávez.

Chávez concluiu: "De vez em quando, alguém diz: 'pior que Bush, impossível', mas eu não sei, não".

Nos dois encontros que presenciei entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, os dois líderes sempre pareceram estar risonhos e plenamente à vontade, tal qual velhos amigos.

Ao contrário do governo Chávez, talvez para o Brasil seja preferível mais do mesmo a um governo democrata que poderia sinalizar com barreiras adicionais para produtos brasileiros.

Ainda mais em se tratando de um possível governo republicano que não apenas é mais aberto em temas econômicos, mas que se refere ao Brasil como uma potência emergente.

Algo que soa como música para um governo que tem se empenhado em obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

O velho calção de banho, o dia pra vadiar...
Por Bruno Garcez (de Washington, 24/03)

Hillary Clinton apresentava sua justificativa para ter cometido "erros" no relato sobre sua viagem à Bósnia, em 1996.

John McCain, notoriamente avesso a temas econômicos, apresentava suas propostas para como o governo deve conter a crise no setor imobiliário.

Mas as "propostas" do senador para o setor acabaram sendo mais sobre o que o governo não deve fazer do que propriamente sobre aquilo que ele acredita que precisa ser feito.

Barack Obama nas Ilhas Virgens
Enquanto isso... Obama se 'reenergiza' nas Ilhas Virgens

A rede CNN exibia a participação de Chelsea Clinton em um evento de campanha em uma universidade de Indiana, onde foi indagada por um dos participantes se achava que a credibilidade de sua mãe fora arranhada pelo escândalo de Monica Lewinsky.

"Wow, você é a primeira pessoa a me fazer essa pergunta nas creio que 70 universidades a que já fui. E não acredito que isso seja de sua conta", afirmou a filha da presidenciável democrata, despertando aplausos dos presentes.

Enquanto isso, longe, muito longe, da Pensilvânia, onde Hillary concedia uma entrevista, da Califórnia, onde McCain falava sobre economia, e de Indiana, onde Chelsea enquadrava um estudante mais irreverente....

O senador e presidenciável Barack Obama descansava. Mais especificamente, o destino escolhido pelo pré-candidato democrata para aproveitar alguns dias de férias com sua família foram as praias das Ilhas Virgens.

Os órgãos de imprensa chegaram inclusive a respeitar a paz pretendida pelo candidato. Apenas a rede CNN fez uma breve entrevista com Obama no local.

E a Fox, a primeira emissora a desencavar o local escolhido pelo casal Obama para tirar férias, exibiu com orgulho por repetidas vezes as imagens do senador de boné e óculos escuros posando para uma foto ao lado de uma menininha de seis anos.

Estar ausente da trilha da campanha eleitoral não é, no entanto, uma garantia para Obama de que alguns dos problemas que ele enfrentou recentemente não voltarão a atormentá-lo.

Nesta terça-feira, a rival Hillary Clinton finalmente entrou na discussão sobre a linguagem supostamente inflamatória do ex-pastor do senador, Jeremiah Wright.

Hillary disse que Wright "não teria sido o pastor" dela e acrescentou que "você não pode escolher a sua família, mas você pode escolher que Igreja pretende freqüentar".

De volta à campanha nesta quarta, Obama deverá responder essa e outras farpas jogadas pela rival e deverá procurar expor novas fraquezas da senadora, após ter se reenergizado nas areias das Ilhas Virgens.

Eu aumento, mas não invento
Por Bruno Garcez (de Washington, 24/03)

A mais nova bravata da pré-candidata democrata Hillary Clinton foi ter dito que em 1996 ela desembarcou para uma visita oficial à Bósnia debaixo de fogo cerrado de atiradores.

Hillary contou que teve de dispensar a cerimônia de recepção que lhe havia sido reservada e correr para o carro que a levaria para uma base militar.

O relato não consta da autobiografia da senadora e não condiz com as imagens que integram um vídeo enviado para os jornalistas nesta segunda-feira pela campanha de Barack Obama.

Nas imagens, ela aparece desembarcando sorridente ao lado da filha, Chelsea, enquanto conversa com soldados e participa da cerimônia da recepção da qual diz ter saído fugida.

No entender dos correligionários da senadora se tratou de um engano cometido por Hillary, já que havia relatos de que atiradores estavam operando na região em que seu avião pousou.

Mas os ativistas pró-Obama afirmaram se tratar mais de uma vontade de enganar do que de um engano cometido.

Hillary, no entanto, parece ser reincidente. Sua afirmação de que ela ajudou a trazer paz à Irlanda do Norte foi refutada pelo ex-líder da Irlanda do Norte Donald Trimble.

Trimble afirmou que não se recorda de Hillary ter feito muito mais do que acompanhar Bill Clinton. E disse que há uma diferença entre ter sido ''torcedora'' e estar entre os ''jogadores''.

Mas os ativistas da senadora acreditam que ela entrou no jogo, sim, ao se encontrar com lideranças católicas e protestantes da Irlanda do Norte.

E, assim, ainda que indiretamente, ajudou a semear as sementes da paz.

Quer Hillary apenas aumente ou também invente, o fato é que os recentes relatos só fazem reforçar a imagem associada à senadora de que ela é capaz de fazer qualquer coisa e, especialmente, falar qualquer coisa, para se eleger.

O meu voto vai para McCain... Meghan McCain
Por Bruno Garcez (de Washington, 19/03)

O seu pai é tido como um republicano de mente independente, que não se curva à cartilha do partido, nem se furta a expressar opinões que lhe custarão votos.

Mas na família McCain, a verdadeira independente, ou melhor, a verdadeira 'indie', é a filha de 23 anos do senador, Meghan McCain.

Meghan é uma blogueira de mão cheia e, em seu blog, costuma listar suas canções favoritas do momento.

Na seleção da filha do senador republicano constam alguns dos mais destacados nomes da cena indie contemporânea, como Arctic Monkeys e Clap Your Hands Say Yeah.

A família McCain durante evento de campanha
Típica foto 'careta' que não entraria no blog de Meghan (à esq.)

Mas Meghan também contempla o punk rock dos Sex Pistols e o proto-punk de Iggy Pop, a neo-psicodelia de The Mars Volta ou o hip hop de Lupe Fiasco.

A eclética blogueira nos brinda ainda com sugestões capazes de deleitar os nostálgicos de diferentes gerações, como Bob Dylan, The Doors, Pink Floyd e Siouxsie and The Banshees.

As demais páginas do blog de Meghan também indicam um comportamento distinto do que se esperaria de uma filha de candidato.

Os cinco filhos do ex-presidenciável Mitt Romney estampavam em seu blog mensagens de apoio, como "Agora é a hora de que todos os nossos leitores aumentem a carga e nos ajudem a assegurar a indicação''.

Chelsea Clinton é uma garota-propaganda da mãe, que participa avidamente de comícios e eventos de campanha e que se nega terminantemente a dar entrevistas para quaisquer jornalistas.

Meghan McCain
Filha de senador tem gosto eclético que vai de The Fratellis a Dylan

Mas Meghan é diferente. Em seu blog, ela exibe uma tatugem, aparece em fotos participando de um karaokê com membros da campanha de McCain e inclui imagens do senador, descrito como ''papai'', fazendo churrasco, e não em cima de um palanque.

Fomada em artes e ex-estagiária do programa humorístico Saturday Night Live, Meghan é uma jovem de 23 anos que escreve e se comporta não como uma filha de candidato, mas, antes de tudo, como uma jovem de 23 anos.

De vez em quando é bom lembrar que ainda existe algum terreno para a espontaneidade na corrida presidencial americana, onde cada passo parece ser calculado.

Um belo discurso, mas e os votos?
Por Bruno Garcez (de Washington, 18/03)

Barack Obama tentou dissipar o mal-estar gerado pelas declarações consideradas racistas e inflamatórias feitas por seu ex-pastor, Jeremiah Wright, com aquilo que sabe fazer melhor: discursar.

E o fez em grande estilo, com um pronunciamento cercado de elogios, no qual o senador evocou, como em outras ocasiões, a sua história pessoal.

Obama disse que não poderia negar Wright, o homem que o trouxe para o cristianismo e que batizou suas duas filhas, da mesma forma que não poderia negar a sua avó, uma mulher branca.

O senador lembrou que sua avó confidenciou ter sentido medo ao ver um homem negro se aproximando dela e que ela já endossou estereótipos raciais que o chocaram.

Barack Obama
Em discurso, o senador Barack Obama evocou sua história pessoal

Para Obama, tanto o comportamento de sua avó como as declarações de Wright são sinais de que a questão racial ainda é um tema muito arraigado no inconsciente coletivo americano.

O senador afirmou nunca ter sido ''ingênuo ao ponto de acreditar que poderíamos superar nossas divisões raciais em um único ciclo eleitoral ou com uma única candiatura - particularmente uma tão imperfeita quanto a minha''.

Mas seus correligionários pareciam pensar de forma diferente, e o próprio candidato dava sinais de que conseguiria se projetar passando ao largo do tema racial, não fosse por uma ou outra gafe por parte da campanha adversária.

Alguns dos padrões recorrentes da disputa democrata, no entanto, mantiveram o tema vivo, mesmo em Estados em que Obama venceu Hillary Clinton, como o Alabama, onde a rival obteve um total de 75% do voto branco, contra 25% de Obama, ou na Louisiana, onde a cifra foi de 58% para a senadora contra 30% para o senador.

Dentro de algumas semanas, ele irá encarar a primária da Pensilvânia, um Estado em que o eleitorado branco e de classe trabalhadora tem um peso muito forte.

O desafio do senador, agora ainda mais árduo, será conseguir cooptar esse eleitorado tradicionalmente leal a Hillary.

Feito isso, ele enfrenta uma tarefa ainda mais difícil: mostrar que é capaz de atrair eleitores brancos, de diferentes camadas sociais, em uma eleição geral.

Se não der mostras claras de que está à altura desse feito, Obama irá falhar no teste de elegibilidade e a sua candidatura estará seriamente ameaçada.

Obama parte para a ofensiva
por Bruno Garcez (de Washington, 17/03)

A campanha do senador Barack Obama afirmou que ele partirá para a ofensiva contra a senadora Hillary Clinton nesta semana.

Os ativistas de Obama irão questionar a honestidade e a confiabilidade de Hillary, que julgam ser algumas das principais fraquezas da senadora.

Na semana passada, o marketeiro de Obama, David Axelrod, indagou o que a senadora estaria tentando esconder, ao não divulgar sua declaração de impostos.

A campanha de Hillary retrucou, dizendo que Obama enveredou por uma campanha extremamente negativa.

Em um aparente surto de amnésia, após o comercial do telefonema às três da manhã, os correligionários da senadora disseram que eles têm feito uma campanha predominantemente positiva e apenas vêm respondendo aos ataques do adversário.

Enquanto os democratas se degladiam, o republicano John McCain já posa de Estadista internacional.

Nesta semana, o senador McCain realizará um evento para angariar fundos para sua campanha em Londres, onde deverá se encontrar com o primeiro-ministro Gordon Brown.

McCain também tem encontros previstos com o francês Nicholas Sarkozy e o rei Abdullah, da Jordânia.

Ele chegou ao Iraque, nesta segunda, às vèsperas do conflito no país completar cinco anos.

McCain chegou a ser ridicularizado no passado, quando, em uma de suas visitas ao Iraque, fortemente vigiado por militares americanos, ele disse se sentir mais seguro em um mercado de Bagdá do que em certas partes de Washington.

Agora, diante da belicosidade demonstrada pelos dois postulantes democratas, a frase do senador soa mais condizente com a realidade.

Questão racial começa a dominar corrida democrata
por Bruno Garcez (de Washington, 13/03)

Um desdobramento ruim para os dois pré-candidatos democratas é o de que a questão racial está começando a dominar a disputa entre Hillary Clinton e Barack Obama.

Na mesma semana em que Obama venceu no Estado do Mississippi com 92% dos votos dos eleitores negros, a ex-candidata democrata a vice-presidente, Geraldine Ferraro, que integrava o comitê de finanças de Hillary, se viu forçada a renunciar.

Geraldine dissera, em uma entrevista, que Obama não estaria na atual posição se ele fosse um homem branco e que ele não estaria onde está se fosse uma mulher, independentemente da cor, acrescentando que, atualmente nos Estados Unidos, o sexismo é mais intenso do que o racismo.

Nesta quinta, Hillary se desculpou pelos comentários de sua antiga assessora bem como os feitos pelo seu marido, o ex-presidente Bill Clinton.

Durante a disputa na Carolina do Sul, Clinton havia minimizado a conquista de Obama no Estado, lembrando que o reverendo Jesse Jackson também havia vencido por lá.

Correligionários dos dois candidatos têm dado com a língua nos dentes
Correligionários dos dois candidatos têm dado com a língua nos dentes

O comentário foi uma tentativa velada de condicionar um êxito em um Estado com forte eleitorado afro-americano ao fato de o candidato vencedor ser negro também. Clinton apenas ''esqueceu'' que o senador branco John Edwards também havia vencido uma primária no Estado.

Antes disso, um outro episódio feio. ''Alguém'' vazou para a imprensa uma foto feita há dois anos, na qual Obama aparece usando um turbante e trajes típicos. A imagem foi registrada durante uma viagem do senador ao Quênia.

Alguns dos polêmicos simpatizantes de Obama também não têm ajudado muito o senador. É o caso daquele que foi o seu pastor, em Chicago, o reverendo Jeremiah A. Wright.

Em alguns sermões, disponíveis no YouTube, Wright tem comparado Obama a Jesus e dito que Hillary não sabe o que é crescer em um país e numa cultura ''controlados por pessoas brancas e ricas''.

Wright foi além, ao dizer que ''Hillary nunca foi chamada de crioula'' e que Bill Clinton, ao contrário do que pensam muitos na comunidade afro-americana, não foi bom para os negros.

''Ele fez conosco o mesmo que fez com Monica Lewinsky'', afirmou, enquanto fazia um gesto simulando uma relação sexual.

Obama tem procurado se distanciar do tom raivoso da pregação de Wright, dizendo que tais mensagens não têm lugar em sua campanha.

Mas a dúvida é se o ressentimento e a divisão entre eleitores negros e brancos já não estaria sendo expressa nas urnas.

O apoio a Obama entre os votantes negros têm crescido. E muitos eleitores brancos, particularmente os mais velhos e das zonas rurais, têm sido leais a Hillary.

Se essa tendência se intensificar, os democratas poderão chegar divididos à eleição presidencial de novembro, independemente de quem for o candidato, e entregar a eleição para os republicanos.

Qual dos males é o maior?
por Bruno Garcez (de Washington, 11/03)

A primeira mulher a concorrer ao cargo de vice-presidente dos Estados Unidos declarou que o senador Barack Obama não estaria tendo o mesmo destaque que vem recebendo se fosse branco e não negro.

Geraldine Ferraro, que integrou a chapa do democrata Walter Mondale, derrotada em 1984 por Ronald Reagan, ajudou a angariar fundos para Hillary Clinton e integra a campanha da senadora.

Geraldine Ferraro
Geraldine já foi candidata a vice-presidente

Em uma entrevista, ela disse acreditar que Hillary é vítima de preconceitos muito mais arraigados dos que os que atingem - ou não atingem, no entender dela - o senador Obama.

''Se Obama fosse um homem branco, ele não estaria nessa posição. E se ele fosse uma mulher (de qualquer cor) ele não estaria nessa posição. Acontece que ele tem sorte de estar onde estar.''

Geraldine disse que a mídia tem dado uma vida boa a Obama porque os órgãos de imprensa são ''muito sexistas'', mas que o tratamento em relação a Hillary tem sido duríssimo.

Como costuma acontecer quando frases que soam como gafes são emitidas, as condenações vindas de ambos os lados vieram rápido.

Hillary disse não concordar com os comentários e os qualificou como lamentáveis. Obama classificou as afirmações de Ferraro como palavras que induzem à discórdia e à divisão.

Quando todos esperavam que ela fosse se retratar, Geraldine lamentou apenas que suas afirmações tenham sido vistas como um sintoma de racismo, mas foi além, em uma entrevista posterior.

''O sexismo é um problema maior'', argumentou. ''Na cabeça de muita gente ser sexista é OK, mas não é OK ser racista.''

Obama vem obtendo vitórias expressivas em Estados em que há grandes eleitorados afro-americanos. Hillary tem contado com o apoio leal das mulheres.

Será que a opção por um(a) ou por outro(a) tem sido marcada, consciente ou inconscientemente, por sexismo ou por racismo?

O escândalo e a disputa democrata
por Bruno Garcez (de Washington, 10/03)

O escândalo que atingiu o governador de Nova York, Eliot Spitzer, não traz uma implicação para a corrida presidencial... ao menos por enquanto.

Spitzer, acusado de ter recorrido aos préstimos de uma rede de prostituição de luxo, havia manifestado apoio à senadora Hillary Clinton.

Mas horas após a polêmica ter vindo à tona, a campanha de Hillary reagiu com destreza, rejeitando o apoio do governador.

Em tese, os republicanos da ala conservadora poderiam explorar politicamente o incidente e tentar jogar lama em supostas práticas ilícitas dos rivais longe da arena política.

Mas a verdade é que o partido do presidente George W. Bush, que se elegeu com o forte auxílio de conservadores sociais, também está com a imagem manchada no que diz respeito aos pecados da carne.

É difícil esquecer o episódio envolvendo o congressista Larry Craig, que teria solicitado por sexo com um homem em um banheiro no aeroporto de Minneapolis.

Mas, como não poderia deixar de ser, a ala conservadora aproveitou para tirar uma casquinha do partido rival, como uma comentarista da rede de TV Fox News, emissora que não é conhecida propriamente por sua isenção jornalística.

De acordo com a analista ouvida pela Fox, o chamado ''cliente número 9'', que teria sido o governador Spitzer, não é adepto do sexo com prevenção. De acordo com ela, ''quando for para a cadeia, ele terá plenas possibilidade de não praticar sexo seguro''.

Tudo que importa é ganhar
por Bruno Garcez (de Dallas, Texas, 07/03)

A imprensa e os analistas políticos repetiram pela terceira vez o erro que já haviam cometido antes da primária de New Hampshire e das prévias eleitorais da chamada Superterça: o equívoco supremo descartar a senadora Hillary Clinton e julgá-la fora da disputa democrata.

Com as três últimas vitórias, no Texas, Ohio e Rhode Island, ela ganhou projeção, ou ''momentum'', para usar o termo da moda por aqui, e os possíveis tropeços da campanha de Obama e de seus assessores só fazem contribuir para o tal ''momentum''.

O mais recente deslize foi o de Samantha Power, a assessora da campanha de Obama na área de política internacional e autora, por sinal, de uma elogiada biografia de Sérgio Vieira de Mello.

Em um comentário em ''off'' feito ao jornal The Scotsman, Power chamou Hillary de ''um monstro'', em referência à campanha agressiva que a senadora promoveu contra o rival em Ohio.

Resultado: o jornal poublicou os comentários, a assessora se viu forçada a pedir demissão e a campanha de Hillary reagiu prontamente, enviando emails para os correligionários da senadora.

Nas mensagens, Terry McAuliffe, presidente da campanha de Hillary, afirma que o comentário segue a mesma linha dos ataques lançados contra Hillary nos anos 90.

E acrescenta: ''Isso não é a política da esperança. É o mesmo tipo de política centrada em ataques que vemos de tempo em tempo''.

Aproveitando a passagem por Dallas, vale lembrar os pensamentos de um genial frasista originário da cidade texana, o pérfido e maquiavélico personagem televisivo J.R. Ewing, segundo o qual, ''tudo o que importa é ganhar''.

Longe de insinuar que a senadora Clinton compartilha da maldade do saudoso vilão da série Dallas, mas ela seguramente parece ser guiada pelo mesmo princípio.

Com a campanha do rival dando uma forcinha, não é preciso grande esforço para colocar em prática outra máxima de J.R. Ewing. ''Fique de olho nos seus amigos, porque seus inimigos cuidarão de si mesmos.''

Vitórias de Hillary revivem discussão sobre votos da Flórida e de Michigan
por Bruno Garcez (de Austin, Texas, 06/03)

Em seu discurso de vitória no Estado de Ohio, Hillary Clinton lembrou de todos os Estados americanos que conquistou na corrida presidencial, mas citou, entre eles, Michigan e Flórida.

O detalhe é que ambos os Estados foram punidos pelo Partido Democrata por terem antecipado a data de realização de suas primárias.

E, com isso, os delegados destes Estados - um total de 156 no Michigan e 210 na Flórida - não terão representação na convenção do partido em agosto deste ano, e os votos computados em suas primárias não tiveram validade.

Hillary é acusada de querer mudar regras no meio do jogo

Os republicanos também aplicaram uma punição, mas não tão severa quanto a dos democratas. Eles reduziram o número de delegados destes Estados pela metade.

As primárias republicanas nos dois Estados perderam parte de sua importância e a disputa democrata, vencida por Hillary, passou a ser uma não-disputa, já que, acatando regras do partido, a maioria dos candidatos concordou em não fazer campanhas nos dois Estados.

Mas tudo isso pode mudar se depender não apenas de Hillary, mas também de alguns inesperados aliados, entre eles o governador republicano Charlie Crist, da Flórida, e da democrata Jennifer Granholm, de Michigan.

Os dois líderes assinaram um comunicado conjunto pedindo que seus partidos revejam suas decisões e promovam novas primárias no Estado.

Quem não está nada contente com a idéia é o senador Barack Obama. A campanha do senador afirma que a proposta é uma tentativa da senadora Clinton de mudar as regras no meio do jogo.

Se levada adiante, a proposta poderá intensificar ainda mais a tensão já existente entre as campanhas de Hillary e Obama.

E gerar um profundo antagonismo entre os aguerridos militantes de ambas as partes.

A virada de Hillary?
por Bruno Garcez (de Austin, Texas, 04/03)

Os analistas políticos americanos não se cansam de apontar possíveis desdobramentos que se verão após as primárias desta terça-feira. Hillary irá perder no Texas e em Ohio? Irá vencer em Ohio e sair derrotada no Texas? Vencerá Obama, mas por apenas uma margem estreita? Ou obterá duas vitórias convincentes que farão reviver a sua campanha?

Os marketeiros de Hillary já travam uma guerra psicológica com a campanha do rival. Afirmam que se Obama não vencer tanto em Ohio como no Texas, ele irá demonstrar que não é capaz de derrotar John McCain em uma eleição geral, em novembro.

O argumento deles é que Obama tem a faca e o queijo na mão. Conta com muito mais recursos financeiros e vem de uma sucessão de vitórias.

Os ativistas pró-Obama argumentam que a capacidade da equipe de Hillary de reinterpretar os episódios recentes a seu bel prazer está chegando ao fim e que, após os êxitos que esperam obter nesta terça, não restará outra opção mais digna à senadora se não a de se retirar da disputa e apoiar o candidato rival.

Mas a paixão da militância de Hillary no Texas e as primeiras manchetes desfavoráveis ao senador podem indicar que o inferno astral da senadora está terminando e o de Obama, apenas começando.

Após o senador ter feito uma série de críticas ao Nafta, o tratado de livre comércio entre os Estados Unidos, México e Canadá, veio a público a informação de que um de seus assessores econômicos teria sinalizado à embaixada do Canadá nos Estados Unidos de que a posição de Obama seria uma postura de campanha, não necessariamente uma indicação da posição real do senador a respeito do tratado.

O indiciamento nesta semana de Tony Rezko, o outrora doador de campanha de Obama, poderá também propiciar revelações que causem constrangimento e afugentem potenciais eleitores.

O porta-voz da campanha de Hillary resumiu o espírito de sua equipe: ''Se nós acordaramos na quarta-feira e a senadora Clinton tiver vencido em Ohio e no Texas, o jogo vai ser outro.''

Quem achava que tudo seria decidido no Texas, pode se preparar para possíveis novas emoções.

Hillary ri para não chorar
por Bruno Garcez (de Austin, Texas, 02/03)

Hillary Clinton deixou de lado as agruras da campanha para dar um pulo rápido até Nova York, o Estado que representa no Senado, para uma breve, porém divertidíssima, participação no lendário programa humorístico Saturday Night Live.

A atração começou com uma reprodução do debate da semana passada entre Hillary e Obama, transmitido pela rede MSNBC.

No debate do Saturday Night Live, a humorista Amy Poehler, que imita Clinton, ''explicou'' que ela seria a melhor candidata para combater os interesses das grandes corporações, porque é preciso alguém ''tão irritante, tão mandona, com uma personalidade tão desagradável que, no final das contas, os grandes interesses dirão: 'Basta! Nós desistimos! A vida é curta demais para lidar com essa mulher horrível'''.

Em seguida, os apresentadores passaram para uma série de perguntas pressionando Hillary a mostrar seus conhecimentos de política internacional, pedindo que ela dissesse o nome do provável novo presidente da Rússia - como de fato ocorreu no debate verdadeiro.

Hillary ficou ao lado de sua imitadora no SNL
Hillary ficou ao lado de sua imitadora no SNL
No esquete humorístico eles também indagaram o nome do ministro das Relações Exteriores da Nigéria e o do vice-embaixador de Sri Lanka nas Nações Unidas.

O apresentador em seguida dava as respostas e pedia a Obama que respondesse às mesmas perguntas.

Quando o quadro terminou, o programa exibiu uma ''resposta editorial'' ao debate dos candidatos, que começou com a imagem de Hillary Clinton sentada.

''A cena que vocês acabaram de ver foi uma reprodução, em termos, do debate da semana passada'', afirmou Hillary, arrancando risos da platéia. A candidata disse que gostou do quadro porque adora a imitação que a humorista Amy Poehler faz dela.

Em seguida, a própria Amy apareceu em cena. ''Eu adorei sua roupa'', afirmou a senadora, ao ver a comediante com um traje idêntico ao seu, mas acrescentou: ''Mas eu quero os brincos de volta''.

Amy em seguida reproduziu a já lendária risada estridente e nervosa da senadora, que indagou: ''Eu realmente rio desse jeito?''

Mas a melhor fala foi quando Hillary respondeu como estava indo sua campanha. ''Ah, a campanha está indo muito bem. Por quê? Você ouviu dizer o contrário?''

Rudolph Giuliani fez piada com a própria campanha no programa
Rudolph Giuliani fez piada com a própria campanha no programa
O programa também contou com a participação do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, que disse que a campanha dele foi um pouco como os quadros do Saturday Night Live: "Eles começam bem, mas não sabem como terminar''.

Fora da disputa presidencial, para Giuliani, não resta muito mais a fazer se não rir dos próprios infortúnios.

A situação de Hillary, ao menos por enquanto, é distinta. Ela ainda tem chances de virar o jogo na próxima terça-feira.

Mas a sua participação no quadro humorístico desperta algumas reflexões. Se ela tivesse, desde o início, mostrado seu lado mais humano, engraçado, talvez os eleitores tivessem demonstrado mais empatia em relação à sua candidatura e sua campanha poderia não ter descarrilado diante da locomotiva Barack Obama, um candidato bem-humorado e bom de tiradas espirituosas, capaz de cativar os votantes com seu carisma.

O risco é que é capaz de agora Hillary só ter uma saída: a de rir para não chorar.

Crítica de Bush é empurrãozinho para Obama
por Bruno Garcez (de Laredo, Texas, 29/02)

O presidente George W. Bush criticou o senador Barack Obama por este ter dito que estaria disposto a se encontar com líderes internacionais com políticas hostis aos Estados Unidos.

Entre os líderes com os quais Obama teria dito que estaria disposto a manter encontros sem pré-condições estaria o de Cuba, ou "os" de Cuba, já que o próprio Raúl Castro teria indicado que irá sempre buscar conselhos junto ao ilustre irmão barbudo.

Bush disse que Obama deveria se concentrar na disputa democrata

Para Bush, um encontro com dignatários deste naipe seria contra-produtivo e concederia legitimidade a um governo que fez do abuso aos direitos humanos a sua praxe.

Mas Obama afirma que a política americana para com Cuba já mostrou há anos que é um fracasso.

Virulento, Bush fez sua mais direta intervenção na corrida presidencial até o momento e disse que Obama deveria se concentrar na sua disputa com a senadora Hillary Clinton.

E acrescentou que, até o momento, nenhum dos dois é o candidato democrata para concorrer à Casa Branca.

Mas a popularidade de Bush atualmente é tão baixa, na faixa de menos de 30%, que uma crítica dele pode contribuir para que alguém acabe sendo, de fato, o candidato democrata à Casa Branca.

Um certo senador pelo Estado de Illinois agradece.

As piadas superaram o duelo
Por Bruno Garcez (de Austin, Texas, 27/02)

Quem esperava que Hillary Clinton partisse com ampla munição para cima de Barack Obama no debate de segunda-feira à noite se decepcionou.

Os dois candidatos abiram o debate transmitido pela rede MSNBC com um longo - de 16 minutos, segundo o mediador Brian Williams - e tedioso vai e vem sobre supostas diferenças entre seus programas de saúde e comentários inidôneos a respeito do projeto de Hillary para a área feitos pela campanha de Obama.

Após a soporífero intercâmbio, Obama tentou apontar Hillary como tendo sido uma entusiasta do Nafta recém-convertida à crítica do acordo comercial. A senadora retrucou que o próprio senador também parece ser um neo-convertido. Mais um round sem vencedor, apenas o tédio.

Mas os destaques acabaram sendo os de bom humor demonstrados por, quem diria, Hillary.

No início do debate ela se mostrou algo tensa e incomodada com o aparentemente tratamento favorável dado pela mídia americana a Obama.

Começou com uma reclamação algo ranzinza e tentou quebrar o gelo com uma piada, que não chegou a provocar muitos risos, mas deve ter feito com que muitos espectadores deixassem a TV de lado, para fazer uma busca no YouTube.

Ela lembrou a sátira exibida no fim de semana, pelo tradicional programa humorístico Saturday Night Live, que ridicularizou a suposta fascinação da imprensa por Obama.

Primeiro, Hillary se queixou de que em todos os debates a primeira pergunta cabe sempre a ela, insinuando favorecimento ao rival, e acrescentou: "Se alguém assistiu ao Saturday Night Live, talvez nós devêssemos perguntar se Barack está confortável ou se ele precisa de uma outra almofada''.

Mais tarde, os realizadores do debate exibiram um clipe de um comício no qual Hillary tirou uma casquinha do discurso de "esperança" de Obama, despertando fortes risadas dos presentes ao seu evento de campanha.

''Os céus vão se abrir e corais celestiais irão soar'', afirma Hillary em tom sarcástico no trecho do discurso, enquanto agita os abraços. Assimilando o golpe, foi a vez de Obama sorir e dizer: ''Isso foi bom. A senadora Clinton mostrou um bom desempenho'', ao que ela reagiu com uma gargalhada.

Ambas as passagens descritas não contribuíram para que nenhum eleitor indeciso fizesse a sua cabeça, mas, ao menos para mim, serão os momentos de um tedioso debate que ficarão guardados na memória.

O que me faz lembrar: é hora de ir vasculhar no YouTube pelo Saturday Night Live da semana passada. Esse programa, sim, parece ter valido à pena.

A disputa democrata fica feia... de novo
Por Bruno Garcez (Washington, 26/02)

O aperto de mão e a troca de amabilidades entre Hillary Clinton e Barack Obama no debate transmitido pela rede CNN na semana passada já parece coisa de um passado distante.

É difícil - ou mesmo quase impossível - acreditar que o debate que será realizado nesta terça-feira e que será transmitido pela rede MSNBC seguirá o mesmo tom.

Ainda mais após a virulenta troca de acusações entre as campanhas dos dois pré-candidatos democratas.

Nesta segunda, o site noticioso Drudge Report divulgou uma reportagem ilustrada com uma foto de Obama vestindo trajes típicos somalis e um turbante.

Obama em trajes somalis
A foto foi tirada em viagem pela África em 2006
A imagem data de dois anos atrás, quando o senador visitou cinco países africanos, entre eles o Quênia, onde a foto foi tirada, terra natal de seu pai.

De acordo com o Drudge Report, a foto foi circulada em um email entre assessores de Hillary. Um deles teria se perguntado no texto do email se uma imagem semelhante que mostrasse Hillary em vez de Obama não renderia intermináveis manchetes de jornais.

O fato é que foi a foto de Obama que rendeu intermináveis manchetes.

A campanha do senador reagiu com fúria. Os assessores de Obama qualificaram a suposta divulgação da foto como uma prática vergonhosa voltada para afugentar eleitores.

Os militantes pró-Hillary responderam dizendo que não há nada de mais em ser fotografado usando trajes típicos e que Hillary o fez em inúmeras viagens internacionais. Mas eles só vieram a dizer que não foram eles os responsáveis pela divulgação da imagem no final da tarde, quando a foto já estava no ar desde a manhã.

Some-se a isso as acusações trocadas entre Hillary e Obama ligadas ao Nafta, o acordo de livre comércio firmado entre Estados Unidos, Canadá e México. Obama diz que a senadora foi uma ardorosa defensora do tratado, que, segundo ele, teria provocado a perda de empregos de americanos.

Hillary desmentiu as afirmações, disse sempre ter sido uma crítica do Nafta, arquitetado por seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, e jogou a batata quente de volta para Obama, acusando o senador de ter sido ele próprio um entusiasta do Nafta. E que declarações de Obama endossam isso.

Diante de tamanha troca de sopapos, não é fácil vislumbar um clima amistoso no debate desta terça e, pior, muito menos nos próximos dias da campanha para a primária do dia 4 de março, quando Texas e Ohio irão às urnas.

Ralph Nader não assusta tanto quanto em 2000
Por Bruno Garcez (Washington, 25/02)

O anúncio de que o advogado e ativista dos direitos dos consumidores Ralph Nader vai se candidatar à corrida presidencial causou um certo mal-estar entre os democratas.

Os militantes do partido ainda carregam o trauma da eleição de 2000, quando o então vice-presidente e candidato democrata Al Gore perdeu para o republicano George W. Bush por uma diferença ínfima de votos na Flórida.

Na ocasião, Nader obteve milhares de votos, e muitos democratas acreditam que ele foi decisivo para a derrota de Gore.

Agora, a situação é razoavelmente diferente. Os dois postulantes à indicação democrata para concorrer à Casa Branca, Barack Obama e Hillary Clinton, vêm se insurgindo contra o papel desempenhado pelas grandes corporações na política americana, o que acaba esvaziando um pouco a possível campanha de Nader.

O candidato do Partido Verde americano fez do combate aos interesses das grandes corporações o mote de sua campanha presidencial em 2000.

Em 2008, com 73 anos, o que faz dele o candidato mais velho na disputa presidencial, superando o veterano John McCain, de 71, Nader não tem o mesmo apelo.

Aquele que poderá ser o indicado democrata para concorrer à Casa Branca, Barack Obama, é visto como um defensor de novos ideais, um ardoroso adepto de mudanças e de políticas capazes de transformar os Estados Unidos, que vêm cativando os eleitores democratas.

Neste domingo, Obama saudou o papel de Nader como ''heróico'', mas desdenhou a candidatura do advogado, dizendo: ''Lá vai ele de novo, a cada quatro anos ele faz isso''.

Mas, ainda assim, os democratas estão alertas. E, nos bastidores, já estariam até buscando formas de complicar a candidatura de Nader e de dificultar o acesso do ''candidato do terceiro partido'' às cédulas eleitorais em Estados que terão grande peso na disputa presidencial.

Virando o jogo...no gogó
Por Bruno Garcez (Washington, 21/02)

A senadora Hillary Clinton espera começar a virar o jogo na corrida eleitoral americana nesta quinta-feira, no debate que será realizado pela rede CNN, no Texas.

O Estado que sedia o debate entre ela e o senador Barack Obama é o mesmo que será palco daquele que pode ser o ''duelo final'' para decidir quem será o indicado do Partido Democrata para concorrer à Casa Branca, nas prévias do próximo dia 4 de março.

Será o segundo debate somente entre ela e Obama. A campanha de Hillary acredita que o senador sempre sai perdendo quando debate com ela. Que ele pode até ser um orador mais talentoso, mas que ela é melhor em apresentar propostas e em expor fraquezas do rival.

Hillary havia proposto a Obama a realização de debates semanais, mas o senador declinou e só aceitou realizar dois. A senadora o acusou de estar fugindo da reta, mas a campanha de Obama revidou dizendo que ele já havia participado de 18 debates televisivos com candidatos democratas.

Hillary espera superar Obama no debate desta quinta
Hillary espera superar Obama no debate desta quinta

O principal marqueteiro da campanha de Hillary, Mark Penn, tem enfatizado que Obama seria uma escolha arriscada, com pouca experiência em crises internacionais, mais vulnerável aos ataques republicanos e à atual crise econômica americana.

Essa deverá ser a linha adotada pela senadora no debate. Ainda não se sabe bem o quê, mas acredita-se que Hillary poderá sacar algo da cartola para superar Obama.

Quer seja uma denúncia ou uma coleção de frases de efeito e bordões, Hillary terá que caprichar para que seu desempenho seja bom o suficiente a ponto de motivar eleitores a irem às urnas e cravarem seu nome.

Ela precisa de uma vitória muito convincente no dia 4 de março, no Texas e em Ohio, possivelmente com uma vantagem de mais de 20% sobre Obama.

Uma conquista que talvez exija algo mais do ser boa de gogó.

Tropeços, mas não o suficiente para perder
Por Bruno Garcez (Washington, 20/02)

Nos últimos dias, a campanha de Barack Obama cometeu alguns deslizes que poderiam ter custado votos ao senador.

Primeiro, a notícia de que ele pegou emprestado, como disseram os militantes pró-Obama, ou plagiou, como apontaram os ativistas pró-Hillary, trechos de discursos já feitos pelo governador de Massachusetts, Deval Patrick.

Depois, foi a vez de a esposa do senador, Michelle Obama, ter dito que pela primeira vez em sua vida adulta estava “realmente orgulhosa” dos Estados Unidos, “porque parece que a esperança está finalmente voltando”.

Os comentários renderam uma avalanche de críticas, mas a maior parte delas feitas pelos segmentos mais conservadores da imprensa americana.

Por sorte, os eleitores de Wisconsin e do Havaí, Estado natal de Obama, pareceram ignorar tais microescândalos.

E a imprensa também tem dado uma mãozinha. Os repórteres americanos e, talvez, até a imprensa mundial, parecem tão fascinados pelo equivalente político à Beatlemania que se tornou a campanha de Obama que vêm poupando o candidato de um rígido escrutínio.

A esperança da rival Hillary Clinton em não ser solapada de vez pela sucessão de vitórias de Obama poderá se dar no início de março.

No dia 3 do mês que vem, um dia antes das decisivas primárias do Texas e de Ohio, será indiciado Tony Rezko, um empresário de Illinois acusado de fraude e extorsão.

Até recentemente, ele era um dos doadores de campanha de Obama, mas quando os escândalos emergiram, a campanha do senador procurou se distanciar de Rezko e chegou a doar contribuições feitas por ele a instituições de caridade.

Durante o indiciamento, poderão surgir detalhes embaraçosos para Obama sobre a compra de um terreno pertencente à mulher de Rezko que teria sido adquirido pelo senador por preços abaixo do valor de mercado.

Mas isso, é claro, se a imprensa julgar que o episódio merece a atenção devida ou se preferirá se deixar levar pelo amor incondicional à candidatura de Barack Obama.

O silêncio de Chelsea
Por Bruno Garcez (Washington, 19/02)

Chelsea Clinton estará nesta terça-feira no Havaí, fazendo campanha por sua mãe, a senadora Hillary Clinton.

O apertado calendário eleitoral americano impede Hillary de ir a todos os Estados da campanha, já que muitos chegam a inclusive realizar primárias simultaneamente.

E a senadora se vale do cacife de seu marido, o ex-presidente de Bill Clinton, mas também vem contando com o auxílio de Chelsea.

Chelsea Clinton no Havaí
Chelsea faz campanha no Havaí
A jovem de 28 anos fez campanha por sua mãe na Califórnia, o primeiro Estado em que a senadora conseguiu superar Obama entre um de seus principais grupos eleitorais, os jovens.

No distrito eleitoral de Nebraska onde Chelsea fez campanha, Hillary teve uma performance muito superior ao que obteve em outras regiões do Estado.

Mas quer por ser uma pessoa reservada ou por traumas gerados pelo escândalo sexual que envolveu seu pai durante seus anos na Casa Branca, Chelsea se recusa a falar com a imprensa.

Até mesmo uma repórter-mirim de 9 anos e estudante da quarta série não foi capaz arrancar uma resposta de Chelsea.

A jovem se desculpou, mas acrescentou: ''Infelizmente, eu não falo com a imprensa e isso se aplica a você, infelizmente. Apesar de eu ter achado você uma gracinha''.

Episódios recentes pouco contribuíram para Chelsea vencer sua reserva. Um repórter da rede MSNBC criticou o uso que o casal Clinton vinha fazendo de Chelsea na campanha e as ligações feitas pela jovem para atrair superdelegados.

O jornalista afirmou que eles estavam ''cafetinando'' a filha, gerando indignação da própria Hillary e de assessores ligados a ela.

Uma coisa é certa. Ao evitar a média, Chelsea se previne de erros como os de seu pai, que volta e meia dá arroubos públicos de ira perante os repórteres ou que tem feito declarações infelizes, tentando trazer a questão racial para o primeiro plano na corrida eleitoral.

Chelsea vem provando que existe sabedoria no silêncio.

Como parar Obama?
Por Bruno Garcez (de Washington, 14/02)

É essa a pergunta que a campanha de Hillary Clinton está se fazendo, mas a resposta não é nada clara.

Barack Obama
Obama tem despertado grande empolgação com seus discursos

A senadora parece estar investindo no caminho certo, mas poderá ser muito tarde para reverter a maré de vitórias de Obama.

Sua nova gerente de campanha, Maggie Williams, além de uma assistente leal, que acompanha a senadora há décadas, é uma afro-americana, o que pode ser um aceno para um grupo eleitoral que tem votado em peso em Barack Obama.

Hillary vem também destacando as diferenças entre o plano de saúde defendido por ela, que é universal, e o do rival, que é pago.

Nos comícios, ela vem procurando abrir mão de seu lado professoral, de quem domina todos os temas e pode falar sobre eles por longos e tediosos minutos, e tem passado a ilustrar os temas que julga importantes com causos sobre personagens que encontrou nas trilhas da campanha eleitoral.

Mas seus discursos não geram um terço da empolgação provocada pelos de Obama.

E as diferenças com o rival ficam patentes em diferentes momentos. Nos útlimos dias, Obama revelou sua declaração de imposto de renda e pediu que ela fizesse o mesmo. Hillary, por sua vez, disse que só o faria se fosse eleita presidente.

A decisão não a favorece e reaviva lembranças de negócios escusos aos quais o casal Clinton foi associado, durante a presidência do marido da senadora, quer justa ou injustamente.

No momento, só resta a Hillary esperar que os eleitores do Texas e de Ohio, que até o momento têm favorecido a senadora nas pesquisas de opinião, não se deixem contagiar pela Obamamania até o dia 4 de março, quando serão realizadas as primárias nos dois Estados.

Hillary poderá, no entanto, receber um "presente" de última hora. No próximo dia 3 de março, começa o julgamento de Tony Rezko, um ex-doador de campanha e amigo de Barack Obama, preso por fraude, extorsão e lavagem de dinheiro.

Só o tempo dirá se a lama que poderá emergir do caso vai respingar em Barack Obama.

Boca de urna californiana
Por Bruno Garcez (de Los Angeles, Califórnia, 05/02)

A reportagem da BBC Brasil foi a um posto de votação na região de Hollywood, o Hollywood Women's Club, e indagou em quem os eleitores votaram e o que justificou a escolha. Eis as respostas obtidas:

David Memens - ''Barack Obama. Li o livro dele. Gosto de suas idéias sobre governo. Ele tem uma perspectiva nova, está no Senado há pouco tempo. Tem idéias novas e vai levar nosso país em uma nova direção'.

David Sims - ''Barack Obama. Ele vai tirar nossas tropas do Iraque. E vai fazer isso mais rápido do que os outros candidatos. É um bom nome e parece ser a melhor opção''.

Franciso Jiats - ''Hillary. Ela tem as mesmas idéias que Bill Clinton, que fez muito, não apenas por nós, os hispânicos. Ela demonstrou que é muito humana com as pessoas, com gente de qualquer raça, latinos, negros. Confio nela''.

Arlene Williams - ''Barack Obama é o candidato mais empolgante para o eleitorado. Está fazendo com que muita gente que nunca votou compareça às urnas. Vamos ter dias difíceis pela frente e vamos precisar de gente inspiradora como ele''.

Yvette Green - ''Barack Obama. Ele representa a mistura que são os Estados Unidos. Haverá muita mudança se ele chegar ao poder.''

Vyecheslav Volochka - ''Votei em Clinton, porque não tinha outra escolha. O Partido Republicano não era opção. E não acho que Barack Obama fosse uma escolha. Ele tem menos possibilidades de governar o país''.

Valentina Volochka - ''Hillary Clinton. Ela tem mais experiência do que Barack Obama''.

T. Holly - ''Barack Obama. Uma nova direção''.

Despertando para Obama
Por Bruno Garcez (de Los Angeles, Califórnia, 05/02)

Seja qual for o resultado da votação da Super Terça-Feira, uma coisa é certa, o senador Barack Obama já pode se sagrar um vitorioso.

Hope Romanus despertou para Obama

Não se trata de cantar vitória antecipada, mas simplesmente de avaliar os efeitos da candidatura Obama em todos os Estados Unidos.

Em Iowa, ele cativou eleitores independentes, em Nevada, atraiu republicanos. Na Carolina do Sul, atiçou as paixões dos eleitores negros, que lhe deram uma vitória consagradora.

Na Califórnia, ele está conseguindo romper barreiras étnicas, ao atrair hispânicos normalmente fiéis ao casal Clinton.

A professora Hope Romanus, uma mexicana-americana de terceira geração, é uma das eleitoras latinas de Obama no Estado e contou à BBC Brasil que ''despertou'' para Obama durante o discurso que ele realizou na convenção democrata de 2004.

Ela afirmou ainda que em momentos de medo, como o atual, as pessoas tendem a preferir um sobrenome conhecido, daí a preferência por Hillary - que também seria um reconhecimento de tudo que o casal Clinton fez em prol da comunidade latina nos anos 90.

Mas acrescentou que ''essa maré está mudando''. E que ''quanto mais conversamos com hispânicos de Los Angeles, mais conseguimos votos para Barack Obama''.

Talvez não seja o suficiente para garantir uma vitória do senador, mas a candidatura de Obama tem despertado paixões em pessoas normalmente alheias ao processo eleitoral e que não se dariam ao trabalho de ir votar nem mesmo nesta Super Terça-Feira.

Hope tenta explicar o porquê desse fenômeno: ''Ele traz uma mensagem de unidade, de unir as diferentes raças e tendências políticas. De fazer com que todos se aproximem e encontrem valores comuns. É o único candidato na disputa capaz de fazer isso.''

Ofensiva telefônica
Por Bruno Garcez (de Los Angeles, Califórnia, 05/02)

Militantes pró-Obama no café em Los Angeles
Militantes pró-Barack Obama se reúnem em um café de Los Angeles para fazer ligações e enviar emails para eleitores indecisos, convocando-os a votar no senador.

A estimativa deles é realizar quase 500 mil ligações até a votação desta terça-feira, na Califórnia.

Hillary a cavalo
Por Bruno Garcez (de Los Angeles, Califórnia, 05/02)

Stephen Phul (à direita) e Joni Berby são moradores de Los Angeles que optaram por unir duas de suas paixões.

Joni, Stephen e seus cavalos

''Amamos cavalos em primeiro lugar'', afirmou Joni, explicando por que trouxe alguns de seus puros-sangues para desfilar em plena Hollywood com cartazes de apoio a Hillary Clinton.

''Acho que ela poderá trazer os nossos soldados de volta e fazer algo em defesa dos sem-teto'', diz ela.

Hillary e Obama mano a mano
Por Bruno Garcez (de Miami, Flórida, 31/01)

Pela primeira vez na corrida presidencial, Hillary Clinton e Barack Obama se enfrentarão em um debate tendo apenas um ao outro como adversário.

O ''duelo'' será realizado nesta quinta-feira à noite, na Califórnia, e transmitido pela rede CNN.

A última discussão entre os pré-candidatos democratas ainda contou com a presença do ex-senador John Edwards, que abandonou a corrida presidencial nesta quarta-feira.

No último debate, Hillary e Obama se engalfinharam durante quase o evento inteiro, e Edwards chegou a dizer que ele, Edwards, representava ''a ala adulta do Partido Democrata'', diante do que julgou ser uma conduta imatura e repreensível dos dois candidatos.

Resta ver se estando totalmente livres para brigar a senadora e o senador vão procurar agir com mais civilidade do que o demonstrado nas últimas semanas ou se retomarão as trocas de farpas dos últimos debates.

Difícil avaliar qual a tática que poderá render mais votos ou então afugentar os eleitores democratas que ainda estão indecisos.

Surge um favorito
Por Bruno Garcez (de Miami, Flórida, 30/01)

Com a vitória do senador John McCain na primária da Flórida, surge o primeiro favorito para obter a indicação para disputar a Presidência.

O senador John McCain
McCain manteve o seu conhecido estilo sem papas na língua

Durante a campanha no Estado, o principal rival de McCain, o ex-governador Mitt Romney, vinha louvando as suas capacidades como administrador para cooptar os eleitores.

McCain, fiel a seu estilo sem papas na língua, retrucou que de fato Romney era um administrador, mas que existem muitos administradores por aí. Ao passo que ele, McCain, é um líder.

A Flórida vencida por McCain não foi apenas o primeiro grande Estdo da corrida presidencial, mas também o primeiro que se parece de fato com os Estados Unidos atuais.

O Estado tem uma grande diversidade étnica, com expressivas minorias hispânicas e negras, e forte diversidade religiosa.

A Flórida também foi severamente atingida pela crise do setor imobiliário, com muitos moradores tendo caído na inadimplência, devido à falta de recursos para pagar suas hipotecas.

Muito se falou que o apelo de McCain não alcançava o republicano médio, que ele só se saía bem em Estados com forte voto de eleitores independentes.

Mas a Flórida provou que essas máximas estavam equivocadas. E a campanha de McCain quer mostrar que o êxito em um Estado tão tipicamente americano é um sinal de que John McCain está a um passo de ser o candidato republicano na disputa à Casa Branca.

As próximas etapas da corrida
Por Bruno Garcez (de Columbia, Carolina do Sul, 27/01)

Após ter vencido Hillary Clinton por 28 pontos de diferença na Carolina do Sul, Barack Obama chega revigorado para a chamada ''super terça-feira'', quando mais de 20 Estados realizam primárias simultaneamente, no dia 5 de fevereiro.

Na Carolina do Sul, os ativistas pró-Obama fizeram uma campanha pesada, investindo até nos condados menos populosos do Estado, fazendo telefonemas, batendo de porta em porta e enviando e-mails. E eles pretendem repetir a dose nos grandes Estados.

Consta que a campanha de Hillary, ciente da derrota iminente, deixou a Carolina de Sul de lado e passou a investir em outros Estados da super terça-feira.

Hillary ainda conta com vantagem, segundo as pesquisas, em grandes colégios eleitorais, como a Califórnia, Nova York e Nova Jersey.

Mas a campanha de Obama espera conseguir exportar a mensagem de esperança e união defendida por seu candidato para alguns destes Estados.

Neste domingo, a candidatura do senador pelo Estado de Illinois recebeu um belo reforço, o apoio anunciado por Caroline Kennedy, a filha do presidente John Kennedy.

O peso simbólico desse apoio é ainda maior, visto que Obama tem sido associado às mensagens de esperança e união defendidas por John Kennedy nos anos 60.

O azarão
por Bruno Garcez, Columbia, Carolina do Sul (26/01)

''Alguém viu o debate desta semana? Fiquei feliz de ter sido o representante da ala adulta do Partido Democrata''. Assim o ex-senador John Edwards comentou sua participação no mais recente debate da corrida eleitoral americana, no qual Hillary Clinton e Barack Obama passaram a maior parte do tempo trocando acusações.

Segundo Edwards, é esse tipo de postura do senador e da senadora que faz com que muita gente perca o interesse pela política nos Estados Unidos.

Se diferenciar dos dois candidatos que promovem uma briga de foice para obter a indicação do Partido Democrata para ser o candidato presidencial é a única chance de Edwards. Aqui, na Carolina do Sul, ele deposita seus derradeiros esforços. Ele nasceu no Estado e fez sua carreira política no Estado vizinho, a Carolina do Norte.

John Edwards
Edwards: Tudo ou nada para a 'ala adulta do Partido Democrata'

Mas o ex-senador reconhece que a sua batalha será difícil. Ele afirma que sua campanha conta com muito menos recursos que as dos rivais - e atribui isso ao fato de que o Obama e Hillary obtiveram doações feitas por representantes da indústria farmacêutica e da de companhias de seguros.

Edwards diz que sua postura de ''outsider'' faz dele o azarão entre os democratas. ''Sou um azarão até mesmo aqui na Carolina do Sul''.

O ex-senador não venceu até o momento nenhuma das prévias eleitorais. Por isso, a primária deste sábado representa tudo ou nada para Edwards. Na última parada da corrida eleitoral, ele por pouco não terminou sem nada, tendo se contentado com um modesto terceiro lugar e 4% dos votos, muito, muito atrás de Hillary e Obama.

O fim da chapa Hillary-Obama ou Obama-Hillary.
Por Bruno Garcez, de Las Vegas (21/01)

As inúmeras trocas de acusações entre as campanhas de Barack Obama e de Hillary Clinton levam a crer que uma reconciliação entre os dois parece cada vez mais remota.

E, com isso, uma chapa que seria uma dupla dos sonhos da política americana, Hillary-Obama ou Obama-Hillary, corre o sério risco de ser apenas isso mesmo, um sonho.

Ativistas da campanha de Hillary com quem conversei afirmam que essa chance não existe mais, diante de supostas maquinações feitas pela campanha de Obama e de tentativas de distorcer as palavras de Hillary.

O senador deu uma declaração que caiu como uma bomba junto aos simpatizantes de Hillary, ao dizer que o presidente Ronald Reagan mudou os Estados Unidos de uma maneira que Bill Clinton não foi capaz de mudar.

O próprio Clinton deu o troco, afirmando que as tentativas de Obama de cortejar os eleitores republicanos estão se valendo de argumentos historicamente incorretos e vão atormentar o senador mais à frente na campanha.

O senador, por sua vez, também argumenta que Bill Clinton tem feito uso de inverdades, ao apontar supostas incoerências em sua oposição à guerra do Iraque e acusar seus ativistas de terem usado táticas intimidatórias para atrair votantes em Nevada.

Do jeito que a coisa está, fica difícil imaginar Hillary ou Obama subindo ao palanque alheio para discursar em favor do candidato que for o escolhido do Partido Democrata para concorrer à presidência.

Já ouvi essa antes...e ainda vou ouvir de novo.
Por Bruno Garcez, em Las Vegas (19/01)

Um dos percalços de acompanhar cada parada da corrida eleitoral americana, mais grave, inclusive, do que o cansaço, é que você começa a decorar todos os bordões, as palavras de ordem e até mesmo as piadas e causos contados pelos pré-candidatos.

Já perdi as contas de quantas vezes eu já ouvi o senador John McCain contar uma anedota sobre um marinheiro bêbado; o trágico relato feito por Hillary Clinton sobre um soldado que perdeu a mão durante a guerra do Iraque; e o senador Barack Obama falar sobre esperança e mudança.

Obama, cioso da tendência dos candidatos em repetir relatos, chegou a brincar, introduzindo uma divertida história, em um comício em Las Vegas, dizendo: ''Quando foi a última vez mesmo que contei isso? Ah, foi em Las Vegas'', despertando risos da platéia.

Foto: Bruno Garcez
Embora prometa mudanças, até Obama repete as mesmas histórias

Mas a história era nova para mim. Tratava-se da origem de seu bordão ''Fired up, ready to go'', algo como ''Pegando fogo e pronto para a largada'.

Em resumo, e bota resumo nisso, ele disse que a frase foi criada por uma recatada senhora de uma cidadezinha da Carolina do Sul célebre por criar bordões que colam na mente de todos.

Pouco após ouvir a frase durante um de seus comícios, sem entender direito o que estava acontecendo, Obama conta que ela já havia sido incorporada por membros de sua comitiva. ''E aí, chefe, pegando fogo?'', eles indagavam. E ele respondia: ''Pronto para partir''.

Ao menos um relato novo engraçado, pensei, ao sair do comício. Mas era tudo ilusão. Ao comentar que a história de Obama fora o ponto alto do evento com uma colega, que havia acompanhado mais comícios do senador do que eu, ela me olhou com frieza e sentenciou: ''Ele sempre conta essa história''.

Algo que me diz que, em breve, eu também serei capaz de recitar de cor a história da senhora de estatura diminuta e vestida como quem está em vias de ir à missa, mas que é capaz de criar bordões eletrizantes.

É a economia, seu burro!
Por Bruno Garcez, de Detroit (15/01)

Em 1992, o mote da campanha do então pré-candidato democrata Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos era ''it's the economy, stupid!'', que nas mãos do autor destas linhas mereceu a livre tradução que pode ser vista acima.

Naquela época, Michigan já não vivia mais seus dias de glória. A indústria automobilística, que valeria à cidade de Detroit o título de ''cidade dos motores'', já estava em decadência e o desemprego era crescente. Não é à toa que Bill Clinton venceu a primária em Michigan daquele ano.

Agora, a situação se agravou, o desemprego do Michigan é o mais alto do país. E os republicanos que fazem campanha no Estado só falam sobre a economia e parecem ter até roubado algumas idéias da cartilha democrata, criticando o livre comércio e pedindo verba do governo federal para revitalizar o Estado.

Detroit já foi conhecida por ter sido a cidade que deu ao mundo algumas das melhores bandas de rock de todos os tempos, como os White Stripes e os Stooges, e por ter sido o berço da gravadora de soul music Motown, que nos brindou com a genialidade de Stevie Wonder e Marvin Gaye.

Daria gosto ver os candidatos em campanha citando essa riqueza cultural, mas diante da crise atual, nem o mais ardoroso fã de Iggy Pop e Stevie Wonder consegue alimentar tais devaneios. Quando ele começa a sonhar, vem uma vozinha na sua mente e diz: ''É a economia, seu burro!''

Tensão racial entra na disputa
Por Bruno Garcez, de Washington (11/01)

Comentários feitos pela senadora Hillary Clinton, por seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, e por pessoas ligadas à campanha de Hillary, vem despertando acusações de racismo, feitas por militantes pró-Barack Obama e por ativistas negros.

A tensão começou a crescer quando Hillary criticou Obama por ter supostamente se comparado a Martin Luther King. Ela contrastou a suposta escassa experiência do candidato com o histórico de King. E acrescentou que o lendário ativista de direitos civis conseguiu implementar políticas antiracistas ao colaborar com o presidente Lyndon Johnson.

Muitos ativistas afro-americanos acusaram Hillary de procurar minimizar a importância de King. Assistentes da senadora refutaram isso e acusaram a campanha de Obama de oportunismo. O comentário feito por Bill Clinton de que a mensagem de Obama era um ''conto de fadas'' jogou mais lenha na fogueira.

Para dissipar as tensões, o presidente Bill Clinton se explicou em uma entrevista para o programa de rádio do reverendo e ativista negro Al Sharpton.

Momentaneamente, a tensão pode até ser aplacada. Mas muitos militantes afro-americanos já estão dizendo que a derrota de Barack Obama na primária de New Hampshire teria sido motivada por racismo. A questão racial é um tema espinhoso que tanto Hillary como Obama tratam com extrema cautela, com medo de assustar eleitores brancos e negros.

O jogo só acaba quando termina
Por Bruno Garcez, de Washington (10/01)

Muitos já desdenharam da máxima futebolística atribuída ao ex-presidente do Corinthians Vicente Matheus, mas, ao nos depararmos com resultados recentes da corrida eleitoral americana, percebemos que ela é dotada de profunda sabedoria.

Analistas políticos, jornalistas e institutos de pesquisa já estavam quase sentenciando a morte da candidatura da senadora Hillary Clinton quando, subitamente, ela deu a volta por cima e venceu a primária do Estado de New Hampshire, deixando para trás o rival Barack Obama. Algo parecido ocorreu do lado republicano, com a vitória de John McCain, cuja campanha contava com baixo orçamento e que já havia perdido vários assessores.

Para os republicanos, a próxima batalha ocorre na semana que vem, no Michigan. Hillary e Obama voltarão a se degladiar dentro de duas semanas na Carolina do Sul. Até lá, e depois disso, a corrida ainda deverá ter inúmeras surpresas, escândalos, ataques e denúncias.

PS - É possível que comecem a pipocar rumores relativos ao autor destas linhas, que ele teria sido um dos que endossou a tese do ''já ganhou'' pró-Barack Obama. Munido da oratória que estou adquirindo com a campanha eleitoral americana, retrucarei que minhas frases foram tiradas de contexto, distorcidas e que aqueles que me acusam o fazem porque temem sangue novo no bloguismo eleitoral. Mas, sei não, se nada disso colar, o jeito vai ser recorrer a marqueteiros e militantes tão eficazes quanto os de Hillary e McCain.

Lágrimas de crocodilo?
por Bruno Garcez, de Concord, New Hampshire (08/01 )

Foi uma pergunta inocente, que mais parecia destinada a quebrar o gelo. A senadora Hillary Clinton participava de um evento de campanha destinado a eleitores indecisos na manhã de segunda-feira em uma cafeteria de New Hampshire, quando foi indagada como é que ela fazia, em meio à correria da campanha, para sair de casa bem vestida e com o cabelo arrumado, por exemplo?.

Em princípio, Hillary sorriu e disse que, em alguns dias, conta com ajuda de outros. E ainda brincou que essas nunca são, no entanto, as fotos que vão parar nos sites de internet.

Em seguida, a senadora reagiu de forma inesperada, especialmente se levado em conta sua fama de pessoa fria. Interrompeu sua fala, retomou a frase com a voz embargada e mal conseguiu conter o choro.

Para muitos, uma reação bolada por marketeiros para reaviver sua campanha. Mas a emoção da senadora pareceu genuína. Ela começou a falar sobre o quão desgastante é a campanha, lembrou que não quer ver seu país andar para trás, afirmou que, para ela, isso é uma questão pessoal, que a eleição não é um jogo.

Acrescente-se a isso o extremo cansaço provocado pela maratona de comícios e eventos e percebe-se que chorar não é assim tão difícil.

Uma das especulações sobre o porquê de o senador Barack Obama ter superado Hillary nas pesquisas é que ele teria feito uma campanha mais vibrante, que despertou emoções dos eleitores. Talvez, quem sabe, se a senadora tivesse deixado vazar um choro espontâneo aqui e ali ela iria não só se soltar mais um pouquinho como também teria criado mais empatia em Iowa e em New Hampshire.


A corrida pela Casa Branca está a todo vapor nos Estados Unidos. Os dois candidatos na disputa superaram inúmeros obstáculos para conquistar a indicação de seus partidos e prometem uma das mais memoráveis campanhas presidenciais da história americana para novembro deste ano.

A BBC Brasil vai acompanhar diretamente dos Estados Unidos as principais notícias e eventos da disputa eleitoral.

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