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Suecos fazem MPB em português com letras de exilado da Marinha | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O grupo A Bossa Elétrica, tido como uma das novas sensações do circuito internacional do dancefloor jazz, se apresenta neste sábado no Jazz Cafe em Londres. O álbum de estréia do grupo, lançado no final do ano passado pela gravadora Raw Fusion, tem o título Eletrificação, e as faixas, cantadas em português, têm nomes como Brazuca, Tudo Está Previsto, Veja o Sol e Maculelê. Essa "brasilidade" toda vem da paixão dos integrantes pela música brasileira. Mas nenhum deles é brasileiro. Todos são suecos e não falam português. As letras foram feitas por um poeta e ex-oficial da Marinha que teve que fugir do Brasil após o golpe militar de 64. Ouça aqui os trechos das músicas: Djavan A Bossa Elétrica foi formada em Lund, no sul da Suécia, cidade conhecida pela sua universidade e por abrigar milhares de estudantes. "O grupo evoluiu de um trio de jazz que eu tinha com o baixista e o baterista", contou Mans Mernsten, tecladista e principal compositor do grupo, à BBC Brasil. "Um dia, um amigo de Estocolmo me mostrou o primeiro álbum de Djavan. Eu me amarrei e decidi que era essa linha de melodia e ritmo que deveria seguir". Os outros músicos foram entrando aos poucos, e hoje todos colecionam discos raros de MPB, principalmente dos anos 70. O tecladista e o baterista, Mons Block, são autoridades no assunto, e constantemente recebem convites para discotecar música brasileira em vários cantos da Suécia. Beco das Garrafas O som de A Bossa Elétrica lembra uma atualização da música feita pelas bandas que pipocavam no Beco das Garrafas ou na boate Stardust, antigos templos do jazz bossa do Rio de Janeiro e São Paulo dos anos 60 e 70, em que se apresentavam bandas como Bossa Três, Tamba Trio ou Jongo Trio. É o tipo de som que faz sucesso há mais de uma década em casas noturnas especializadas em dancefloor jazz (funk, jazz fusion e MPB) no Japão e nas principais capitais européias. Grupos contemporâneos do Japão e da Europa que se inspiram em música brasileira não são novidade nesse circuito. Mas são raras as bandas que se aventuram a cantar em português sem saber falar a língua. A cantora, Miriam Aida, de pai marroquino e mãe sueca, disse à BBC Brasil que, nos primeiros ensaios, o grupo tocava músicas de Edu Lobo, Milton Nascimento e Tom Jobim, " para entender melhor o ritmo, o balanço e as harmonias". "Depois de um certo ponto", contou ela, "passou a ser natural e essencial cantar e compor em português". "Foi aí que resolvemos convidar o Guilem", disse Miriam. Exílio O gaúcho Guilem Rodrigues da Silva, de 66 anos, poeta e oficial reformado da Marinha, que vive na Suécia há 39 anos, é o único brasileiro envolvido no trabalho do A Bossa Elétrica. "Eu fazia letras para outra cantora, que dava aulas para a Miriam", contou Silva à BBC Brasil. "Um belo dia a Miriam me perguntou se queria colaborar com eles, e eu queria." "Ela me mandou uma fita cassete com as músicas, e eu fiz as letras." "Depois sentei com a Miriam e ensinei ela a pronunciar as palavras corretamente", disse Silva. "Ela canta com um sotaque delicioso, ficou muito bom o resultado final." Ele já lançou oito livros de poemas na Suécia. Em 2004, ele lançou no Brasil o seu primeiro livro escrito em português, Saudade e uma Canção Desesperada (Cabincla). Silva vive em Lund e chegou à Suécia em 1966. "Fui o primeiro exilado político latino-americano a chegar à Escandinávia", disse ele. "Eu era oficial da Marinha na época do Golpe de 64. Nosso chefe era o almirante Aragão, um dos poucos almirantes que se mantiveram fiéis a João Goulart." "Todos os que obedeceram ordens do almirante Aragão foram presos ou expulsos." "Fui preso no Rio. Consegui fugir para Recifee, dois meses depois, para Montevidéu, onde estavam o João Goulart, o Leonel Brizola, aquela turma toda." "Passei dois anos no Uruguai e depois fui para a Suécia, onde passei a me sentir em casa." |
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