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Documentários passam a atrair o grande público | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os discursos ideológicos e o tom panfletário que caracterizava os documentários são coisa do passado. Usando novas técnicas, às vezes emprestadas da televisão, eles estão conquistando o grande público. Este ano, o Festival de Sundance nos Estados Unidos teve um documentário como seu filme de abertura: Riding Giants, sobre as origens do surfe. O festival criado por Robert Redford mostrou um recorde de 46 documentários e o mais comentado foi Super Size Me, de Pete Vonder Haar, sobre um homem que passa um mês comendo só no McDonald's contra os conselhos de seu médico e engorda mais de 12 quilos. Aqui na Grã-Bretanha, Touching the Void ganhou o prêmio de melhor filme britânico do ano, desbancando o longa de ficção Simplesmente Amor na diputa pelo Bafta (o Oscar britânico). Fenômeno Lançado há menos de três meses, Touching the Void já é o documentário de mais sucesso nas bilheterias britânicas de todos os tempos. O filme já arrecadou o equivalente a R$ 7 milhões e reconstrói a escalada dramática de dois jovens americanos em uma montanha dos Andes, no Peru. A reconstrução usa os próprios protagonistas da história, quase 20 anos após a aventura, transformada em livro de sucesso. E reveza entrevistas com os dois e cenas dramáticas, como o momento em que um deles toma a difícil decisão de cortar a corda em que o outro está pendurado. O diretor britânico Kevin Macdonald já havia ganho o Oscar de melhor documentário em 2000, com o filme Um dia em Setembro, sobre o sequestro de atletas israelenses por palestinos nas Olimpíadas de 1972, em Munique. Ele acha que tanto os documentários, como o público mudaram: "Os documentaristas estão muito mais preocupados em agradar o público, em divertir, além de informar. Os documentários áridos e educativos do passado não eram feitos para a gente gostar". Já o público, para MacDonald, "está farto da fantasia dos filmes de ficção". E acha que os expectadores sentem falta de histórias que eles sabem que aconteceram ou que pelo menos poderiam acontecer de verdade.
"Há uma força em histórias que as pessoas sabem que são pelo menos baseadas na realidade, que é muito especial", afirma. A mesma força que faz um público menos sofisticado se sentir atraído pelos chamados reality shows da televisão, como o Big Brother. "As pessoas mostram que preferem assistir a pessoas reais reagindo a situações fabricadas na televisão. E um público mais sofisticado tem mostrado que gosta de filmes como o meu, como Tiros em Columbine, Capturando os Friedmans ou Quando Éramos Reis." Marco Tiros em Columbine, que discute a fascinação dos americanos com armas, é considerado um marco deste novo fenômeno. O filme ganhou o Oscar de melhor documentário em 2003 e mostrou que hoje em dia é possível até ficar rico fazendo documentários. O documentário do diretor americano Michael Moore arrecadou US$ 40 milhões de dólares nas bilheterias de todo o mundo. Sem atores caros, efeitos especiais e com custos muito inferiores aos filmes de ficção, os documentários foram descobertos também pelas distribuidoras e estúdios como um meio de fazer lucro sem grandes riscos. Nos Estados Unidos, foram documentários como Capturando os Friedmans e Spellbound, com custos entre US$ 500 mil e US$ 2 milhões, os hits que fizeram a alegria dos distribuidores no ano de 2003. Mas há quem veja a maior popularidade com suspeita: "As pessoas estão falando dos poucos documentários que chegam às grandes telas, porque anteriormente nenhum chegava", analisa Ronaldo Vasconcelos, um brasileiro que trabalha há mais de 20 anos como chefe de produção na Grã-Bretanha e está no momento filmando um longa do Canal 4 britânico na Nova Zelândia.
"As pessoas que gostam de documentários são uma minoria do público, que têm cultura, informação e buscam os documentários porque sabem o que se passa no mundo", afirma. Ele também critica o desaparecimento da cultura de documentários na Grã-Bretanha. "Há 20 anos eu ganhava a vida com documentários de televisão na Inglaterra. Hoje é impossível. Eles estão nos horários de menor audiência e os mais instigantes desapareceram", sentencia. Razões Phil Grabsky, outro diretor britânico de documentários, está lançando seu novo trabalho sobre os refugiados que vivem nas ruínas das cavernas onde foram esculpidos os Budas de Bamiyam, no Afeganistão. Os budas foram destruídos pelo Talebã e viraram refúgio para quem não tem onde morar. O documentário - O menino que brinca nos Budas de Bamiyan – é centrado em Mir, de oito anos. Para Grabsky, os documentários cinematográficos estão também preenchendo uma lacuna deixada pela televisão: a de contar o que acontece no mundo. "Não sei se quem vai ao cinema está em busca da verdade, mas nas sessões do festival em que estou promovendo o filme, em Washington, muita gente depois diz para mim que não sabia nada sobre o Afeganistão", afirma. Segundo Grabsky, é impossível saber o que acontece no mundo assistindo aos telejornais e à televisão americana. Também no Brasil No Brasil, o fenômeno dos documentários começou há dois anos, com Janela da Alma, que levou 140 mil expectadores ao cinema. E foi seguido por outros. Edificio Master, por exemplo, foi visto por 45 mil pessoas. Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund, foi lançado pouco antes e só chegou à televisão. Mas os brasileiros que compram o DVD de Cidade de Deus distribuído na Europa, ganham o documentário como brinde. O documentarista Guilherme Coelho lança seu primeiro longa agora em abril. Fala Tu segue a vida de três rappers cariocas por nove meses. Ele resume o que mudou: "Com novas técnicas e uma nova geração de documentaristas, o documentário deixou de ser chato. O documentário passou a contar histórias de uma forma divertida. Afinal, as pessoas vão ao cinema prá rir, prá chorar, prá se divertir. E o documentário passou a proporcionar esta diversão". O gênero não chega a ameaçar os grandes blockbusters de ficção, mas não se admire se em breve houver um documentário num cinema próximo de você. |
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