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Atualizado às: 09 de dezembro, 2003 - 17h29 GMT (15h29 Brasília)
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Fernandinho Beira-Mar será tema de CD colombiano

Paramilitares colombianos
Grupo escolheu brasileiro, e não paramilitares, para retratar em disco

A vida e as façanhas do traficante de drogas brasileiro Luiz Fernando da Costa vão servir de tema para uma das canções da próximo CD que vai reunir sucessos estilo musical "Corridos Prohibidos", que vem ganhando cada vez mais público na Colômbia.

Em meio a histórias sobre guerrilheiros de esquerda, paramilitares de direita e grandes narcotraficantes colombianos, Fernandinho Beira-Mar vai ser retratado em versos num disco que será gravado todo em português em 2004.

"Sabemos que a nossa música já está fazendo sucesso em algumas cidades da fronteira. A meta agora é conquistar todos os brasileiros", disse o produtor Alirio Castillo. "Neste disco, estarão nossos maiores sucessos, interpretados pelos mesmos músicos, que ainda precisam aprender português."

Fernandinho Beira-Mar ficou conhecido no país depois de ser capturado numa cidade próxima à fronteira com a Venezuela, em abril de 2001. Conforme Castillo, ele foi escolhido como um dos temas do próximo disco porque, apesar de preso, continua movimentando seus negócios, a exemplo do que fazem os traficantes colombianos.

Sucesso

Os seis primeiros CDs do estilo "Corridos Prohibidos" já venderam mais de 600 mil cópias. Dois novos discos foram lançados há um mês e prometem êxito semelhante, apesar de não contarem com a divulgação das grandes emissoras de rádio e televisão colombianas.

Na realidade, não existe nenhuma restrição legal a este tipo de música. Mas há uma espécie de autocensura por parte dos meios de comunicação do país, que temem represálias.

"Nas grandes cidades, as emissoras não tocam por medo", assegura Castillo, ex-executivo de gravadoras multinacionais, que decidiu lançar os 'narcocorridos' em 1996. "Alegam que os 'Corridos Prohibidos' fazem apologia ao delito e divulgá-los seria incitar a violência."

Devido às dificuldades de acesso à mídia, Castillo lançou uma campanha bem-humorada para a divulgação dos CDs que diz "compre-o, porque no rádio você não vai escutar".

Vinganças e Confissões

As músicas são carregadas de balaços, dólares, traições, vinganças e mortes. Narram histórias de grandes traficantes e suas tentativas de exportar maconha e cocaína, as dificuldades para abandonar este tipo de negócio, com lucro fácil e rápido, prisioneiros que ameaçam matar quem lhes entregou à polícia e também confissões de crimes cometidos.

Montanhas de cocaína, cigarros de maconha, armas, seringas e balas ilustram as capas dos CDs.

Multidões de até 15 mil pessoas costumam acompanhar as apresentações dos principais grupos e intérpretes, que, geralmente, usam roupa de couro, chapéu, correntes e anéis de ouro.

Uriel Henao, cantor mais popular do gênero na Colômbia, faz shows todas as sextas, sábados e domingos e cobra, em média, R$ 10 mil por apresentação. Em muitas ocasiões, em áreas de forte conflito.

"Todos nós sabemos que há guerrilheiros, paramilitares e narcotraficantes na Colômbia", assinala o cantor. "Onde não manda um grupo, manda o outro. Infelizmente, ou felizmente, precisamos estar em todos os lugares. Temos de chegar em todos os povoados para trabalhar, mostrar nossa música."

De acordo com o cantor, em algumas ocasiões, são convidados para trabalhar em festas sem saber se as pessoas são narcotraficantes ou qualquer outra coisa.

Henao diz que eles não sofrem qualquer tipo de ameaça ou perseguição porque não tomam partido. Não têm contato ou relações próximas com qualquer grupo ilegal. Apenas cantam a realidade do país.

Mexicano

O gênero, na realidade, não é colombiano. Nasceu no México no início do século passado. Hoje, ainda é popular na fronteira com os Estados Unidos, retratando o tráfico de drogas local.

Na Colômbia, este tipo de música –também conhecida como norteña por ser característica do norte do país – chegou no final dos anos 80 e início dos 90, durante o apogeu dos cartéis das drogas.

Grandes narcotraficantes da época, como Gonzalo Rodríguez Gacha, costumavam pagar grupos mexicanos para compor músicas sobre eles e realizar apresentações na Colômbia.

A partir de 1997, os cerca de 20 grupos que participam dos "Corridos Prohibidos" começaram a escrever suas próprias histórias.

Segundo o analista Ricardo Vargas, as zonas de influência desta produção musical é cada vez mais crescente, devido ao aumento de refugiados internos, marginalizados da sociedade.

"Os 'Corridos Prohibidos' são um dos aspectos da subcultura, que está consolidando um certo tipo de ética e estética da percepção que têm grandes organizações sociais nas zonas produtoras de cultivos ilícitos."

Popular

O gênero tem seguidores em todas as partes do país, como a dona-de-casa Marta Contreras, que foi ao show de Henao, na noite do último sábado, em um bairro popular de Bogotá.

"Acompanho todas as apresentações que posso, porque sempre acontecem em ambiente muito familiar", diz. "A música é muito legal. É muito boa para escutar, para beber e dançar."

O técnico em eletrônica Pablo González gosta das histórias que são contadas, da maneira de vestir e de falar dos grupos.

Rey Fonseca, líder do grupo Los Renegados, diz que cantar um "narcocorrido" é uma maneira de dizer a verdade.

Na avaliação dele, quem diz que este tipo de música faz apologia ao crime quer esconder a realidade da Colômbia. Segundo o cantor, os "Corridos Prohibidos" contam o que se passa no país todos os dias. São histórias verdadeiras, de uma Colômbia marcada pela violência.

"É uma forma muito bonita e expressiva de mostrar a realidade com a voz e as palavras, sem a necessidade de ser jornalista", afirmou. "Somos uma espécie de jornalistas musicais, com o compromisso de dizer a verdade e sem defender um lado ou outro."

Junto com Uriel Henao, Rey Fonseca sonha com a fama no Brasil. Antes, no entanto, espera ansioso pelo início das aulas de português.

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