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Crise argentina leva canto lírico para os bares Com salários congelados há 12 anos, dois tenores e uma soprano do tradicional Teatro Colón decidiram popularizar a ópera e cantar nos bares, restaurantes e festas de Buenos Aires. Eles formaram o grupo “Los Tenores Latinos” e atraem diferentes públicos na cidade, cobrando US$ 300 por espetáculo, como contou à BBC Brasil o tenor Miguel Angel Drappo. “O Colón é a nossa vitrine, a nossa casa, mas hoje ganhamos mais fora dele, nos shows que realizamos nos casamentos, nas festas de quinze anos ou de empresários, advogados ou de embaixadas, por exemplo”, disse. Miguel Angel afirmou que seu salário de tenor do Colón é de 1,8 mil pesos mensais (R$ 1,8 mil), mas que, dependendo do mês, ele e seu grupo podem ganhar pelo menos três vezes mais fora do palco do teatro. “Hoje, financeiramente, vivo melhor como tenor dos bares. E a prova é que nos últimos tempos surgiram outros grupos de ópera”, afirmou. Severino Atualmente, estimou ele, existem cerca de 12 grupos de canto lírico cantando em diferentes lugares da cidade. A informação é confirmada por assessores do Colón, onde 90 tenores, sopranos e mezzo-sopranos, entre outros, integram o coro estável do teatro. Miguel Angel e o tenor Dario Sagegh, junto com a mezzo-soprano Isabel Minguez, realizam todas as sextas-feiras e sábados, espetáculos num restaurante, o Severino, do bairro Villa Crespo, subúrbio da capital argentina. Ali, eles cantam árias, tangos e músicas românticas do momento. “Nós tentamos respeitar o gosto do freguês”, disse, logo após o show. O dono do lugar, Alberto Gabanelli, confessa ser um “tenor frustrado” e que, por isso, contratou os músicos. Num outro ponto da cidade, o bairro turístico do Porto Madero, Norberto Saulino, dono do restaurante Il Gran Caruso, no Dique Três, incluiu os espetáculos de ópera na casa porque, como afirmou, pretende oferecer “cultura” aos seus clientes. “Se não for a ópera, que agrada a tanta gente, as pessoas vão escutar bailanta”, disse, referindo-se à música popular argentina, equivalente ao pagode brasileiro. Norberto contou ainda que na tentativa de ganhar sua freguesia, outros bares e cafés da mesma orla “apelaram” para músicas como o tango. “Mas não tem jeito, as pessoas querem ouvir ópera e lotam a casa todos os domingos”, ressaltou. A Argentina é um país construído por imigrantes italianos e espanhóis e, ao ouvir as árias, muitos dos filhos e netos de europeus se emocionam. É o caso de Norberto, filho de italianos. “Está no sangue”, afirmou. Sentados no Severino, o médico Guillermo Scary e o químico Pablo Gudonez confessaram estar emocionados. “É apaixonante. Adorei. Foi a primeira vez que vi uma ópera e quero ver mais vezes”, disse Scary. “Me emocionei, cantei, comi e bebi. Enfim, muito bom e tudo isso sem a formalidade de estar num teatro.” |
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