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Atualizado em: 01 de julho, 2003 - 22h20 GMT (19h20 Brasília)
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Repórter da BBC Brasil conta como foi tocar em Glastonbury

O cantor Andy Baron e o guitarrista Eric Camara
Eric (dir.) e Andy Baron se apresentaram em Glastonbury

Subi no palco Leftfield, no Festival de Glastonbury, com um frio – quer dizer, uma massa polar – na minha barriga.

Logo depois, vi que nem tinha motivo para tanto: o público de Andy Baron & the Believers naquela sexta-feira não ia passar de uma meia dúzia de gatos pingados.

Fazer o quê? Eram 19h00, tinha acabado de acontecer um intervalo na programação da barraca e, para completar, tivemos a concorrência – no mínimo desleal – do Suede, que se apresentou na mesma hora.

Mas os ingleses são engraçados. Basta ouvirem música ao vivo que eles vêm igual a formiga no açúcar.

Histórico

Constatei isso com mais certeza do que nunca nesses três dias de festival. Foi começar a tocar e eles foram entrando aos poucos.

Já vinha observando isso desde que comecei a tocar com Andy Baron em 2000, quando me mudei para Londres.

Nos conhecemos graças a um anúncio de jornal e, daquela primeira formação sou o único remanescente na banda.

Nesses dois anos, levamos o nosso reggae-com-rock-calipso-pop para vários locais aqui por Londres e arredores. Curiosamente, nossos maiores públicos foram fora da Grã-Bretanha.

Em 2001, abrimos os shows do Steel Pulse, dos Gladiators e do Morgan Heritage em Toulouse, na França, para umas 20 ou 30 mil pessoas.

E no fim do ano, gravamos em Paris uma participação em um dos principais programas de música na TV francesa.

No ano passado, tocamos no Rox Festival, no litoral sudeste da Grã-Bretanha e voltamos a Paris neste ano.

Contatos

Não que alguma dessas apresentações tenha nos garantido fama suficiente para tocar em Glastonbury.

Entramos no festival graças ao nosso empresário, que fez os contatos com os organizadores do Leftfield – uma barraca meio "esquisitona", que entre atrações musicais variadas incluiu um debate com Tony Benn, um dos mais importantes políticos da esquerda britânica.

Glastonbury é meio assim: música em todos os lugares e atrações para todos os gostos. Tinha até comediantes e artistas de circo se apresentando por lá.

Por ser "artista" – assim, entre aspas, porque, imaginem só, fui barrado ao tentar assistir ao show do Supergrass dos bastidores por não ter credencial – eu tinha direito a entrar em algumas (poucas) áreas fechadas ao público.

Por falar nisso, voltando à estréia de sexta-feira, passadas as primeiras músicas, já tínhamos algo que pudesse ser chamado de público.

Pensando bem – cá entre nós – se a gente não conseguisse reunir mais de 14 das quase 140 mil pessoas que esgotaram os ingressos do festival, seria melhor desistir logo.

Lotação

E como tinha gente em Glastonbury. No show do Jimmy Cliff, um dos pontos altos do festival para mim, foi difícil até andar do camping para o lugar do show.

E olha que nem tentei ver o Radiohead, talvez a atração principal dos três dias, porque os Super Furry Animals – um grupo que gosto muito mais e fez um show excelente – estavam tocando ao mesmo tempo em outro local. Lotado, claro.

Macy Gray, a cantora que mostrou a bunda (mas tenho para mim que a música dela empolgou a galera bem mais) para o público umas quatro vezes? Lotado.

O longevo REM, que fez um show mais energético que muita garotada? Hiperlotado.

Yes, aqueles dinossauros do rock progressivo que – quem diria – estrearam, com Rick Wakeman e companhia, em Glastonbury no mesmo ano que eu? Lotado.

Mesmo o nosso camping, fora da área aberta ao público, estava lotado. Tinha fila até para o chuveiro (comunitário).

Mimos

Mas não posso reclamar: pelo menos tínhamos chuveiro. Conheço gente que pagou o ingresso e que passou três – ou quatro – dias sem ver banho.

E não foi só esse privilégio que o nosso status de artista nos permitiu.

Podíamos, também, desfrutar de bares – com música ao vivo, claro – que ficavam abertos a noite toda, enquanto os outros respeitavam as leis britânicas e paravam de funcionar às 23h00.

Fomos até convidados a tocar em um deles depois do nosso show de sexta-feira.

Lá no Leftfield, por sinal, perto do fim da nossa apresentação, estavam todos os nossos gatos pingados dançando e pedindo "mais um".

Nosso empresário contou que a diretora musical do Unicef também gostou do que viu e ouviu e prometeu "fazer alguma coisa no futuro".

Conseguimos até vender rapidinho os cinco CDs que levamos para lá.

Se tivéssemos mais um, acho até que sairia fácil.

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