|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Análise: O festival Glastonbury 2003
Três dias, dezenas de shows e milhares de litros de cerveja depois, chegou ao fim, no domingo à noite, o festival de Glastonbury 2003, na Grã-Bretanha. O organizador do evento, Michael Eavis, afirmou que a edição deste ano "foi a melhor de todas". Para muitos, no entanto, o festival será lembrado como "o melhor organizado" de todos os tempos. A segurança foi reforçada dentro e fora da muralha de aço que circundava a área do evento, e a organização parece ter provado que consegue manter os problemas sob controle. 'Perigos' Moradores descontentes com o festival não poderão mais reclamar de falta de segurança. Mesmo assim, cerca de 30 delitos foram registrados nas imediações do evento deste ano.
No ano passado, um grupo de bêbados, que não tinham entrada para o festival, arrumou confusão no vilarejo de Pilton, próximo ao local. Já os 136,5 mil que participaram do evento este ano devem levar para casa as boas lembranças do clima e da música de Glastonbury a única implicação relativa à segurança foi um aumento no número de policiais e bem menos criminalidade. As suspeitas de que um aumento na segurança pudesse acabar com o "espírito de Glastonbury" o festival sempre foi conhecido por seu clima de liberdade total não afastaram nem os velhos freqüentadores nem a nova geração. Sol e diversão A maior parte do público foi a Glastonbury em busca de um fim de semana de diversão, longe de tudo e com algumas das melhores bandas do mundo tocando no quintal.
O tempo também ajudou com um sol forte brilhando quase todo o tempo. A música foi boa apesar de o time escalado para o festival não ter sido nada histórico. Poderia-se acusar as bandas principais de já terem passado do seu auge, mas elas provaram que ainda fazem parte da primeira divisão do rock mundial. O Radiohead, que fechou a noite de sábado, estavafeliz com o show, mas teve dificuldades para "vender" as suas músicas mais recentes e menos radiofônicas ao público. 'Morno' Na primeira metade do show, o clima esteve estranhamente morno, sem que a banda tenha conseguido levantar o público. As melhores canções, as mais novas e as mais clássicas, foram reservadas para a última parte do show e, finalmente, conseguiram empolgar a galera. O Radiohead chegou a pedir para outras bandas tocarem a canção Creep para que eles não tivessem que tocá-la e o americano Moby, atração principal do domingo, aceitou o desafio, fechando o seu show com ela. Na sexta-feira, o cantor do REM, o "magrelo" Michael Stipe, fez o público balançar com ele, apesar da vendagem do grupo estar em decadência. E como já era de se esperar, o público foi ao delírio com as canções mais antigas mas nem tudo era nostalgia. Humor Uma das bandas mais bem faladas do evento foi The Darkness, que abriu os trabalhos no festival com um show incrível, encarnando o espírito das antigas bandas de arena dos anos 80 com muito humor. Fala-se até em ter a banda como atração principal no ano que vem, se ela não perder a novidade. O veterano cantor de reggae da Jamaica Jimmy Cliff foi outro destaque do festival, depois de levantar o público com suas canções em uma tarde ensolarada de sábado.
No evento deste ano, ele concorre ao cargo de "veterano que se eternizou" título já requisitado em outras edições por gente como Tom Jones, Rolf Harris e Tony Bennett. A sensação irlandesa The Thrills, a "irmandade pop" texana The Polyphonic Spree e The Flaming Lips que levaram ao palco animais de circo amestrados e esguichos de sangue artificial também se destacaram. Periferia No entanto, valia a pena também deixar os palcos principais e assistir a outras atrações do festival. Uma das melhores opções era a área batizada de Lost Vagueness, que foi expandida e virou uma das principais atrações do evento. A trupe junta artes performáticas com cafonália e humor, tudo dentro do set de um filme de David Lynch. No restaurante, que ficou lotado todas as noites, os fregueses tinham que se vestir a rigor, e o cassino, logo ao lado, também fez bastante sucesso. O público podia ainda ter aulas de dança em um glamouroso salão de bailes coberto por um tapete vermelho e a única coisa que faltava para completar um salão de banquetes no estilo americano era uma torta de cereja. Se a idéia era dormir em grande estilo, o estacionamento de trailers Paradise Lost oferecia noites em trailers por 80 libras (cerca de R$ 377) por pessoa, ou 50 libras (cerca de R$ 235) por hora desde que as regras da casa fossem respeitadas: "comércio de gado fica à discrição da gerência" e "proibição de brigas com punhos descobertos". TV alternativa Para aqueles que sentiram falta dos reality shows da televisão durante os três dias de festival, foi criado o "I'm a hippy, get me out of here" (em tradução livre: "Sou um hippie, me tire daqui", uma paródia do programa de televisão britânico "I'm a celebrity, get me out of here" ("Sou uma celebridade, me tire daqui") em que famosos da Grã-Bretanha tentam "sobreviver" em condições inóspitas em uma selva. Na versão Glastonbury do programa, sete pessoas ficaram trancadas em um trailer durante 12 horas. E se o público se cansasse de tudo isso, havia sempre a possibilidade de ir assistir ao show dos Laundrettas, que ofereciam lavagens de mãos, gim e tônica e cuidados gerais "porque nós gostamos de nos vestir com roupas da década de 50 e ser donas-de-casa chatas". Sem contar com o circo das aberrações, a escultura de uma chaminé gigante e a igreja com um ringue de boxe no seu centro. Atrações como o The Lost Vagueness estavam entre as principais atrações do festival na década de 80 e, segundo o organizador Michael Eavis, a volta deles prova que Glastonbury não perdeu o contato com as suas raízes. Dessa forma, a alegação dele de que este festival foi "o melhor" pode não estar tão longe da realidade ainda que Eavis diga a mesma coisa todos os anos. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||