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Atualizado às: 15 de fevereiro, 2004 - 14h10 GMT (11h10 Brasília)
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Centro pioneiro desenterra passado da Guatemala

Cientista analisou restos mortais de três mil guatemaltecos
Cientista analisou restos mortais de três mil guatemaltecos
São muitos os países cuja população desejaria ter o seu passado de instabilidade política, e a violência conseqüente dela, esclarecido. Mas atualmente, e surpreendentemente, a Guatemala é um dos poucos que está conseguindo. Com a ajuda da ciência.

O antropólogo Freddy Peccerelli, diretor da Fundação de Antropologia Forense da Guatemala, lidera desde 1992 uma equipe de cientistas que já analisou e identificou restos mortais de três mil guatemaltecos, mortos durante os 36 anos de guerra civil no país, que provocou a morte de pelo menos 200 mil pessoas.

O trabalho rendeu a Peccerelli um prêmio da Associação Americana para o Avanco da Ciência, cujo encontro anual acontece em Seattle, e convites para ajudar na implementação de projetos semelhantes na Bósnia, em Kosovo e, mais recentemente, no Iraque.

Para Peccerelli, o trabalho de identificação dos mortos tem três objetivos principais: a obtenção de provas científicas da história recente da Guatemala, levar mais dignidade aos mortos e às suas famílias, e punir os responsáveis pelos crimes.

"Esse terceiro item é o mais difícil. Dos três mil casos, resultado da escavação de mais de 150 valas comuns, somente três foram parar na Justica. A burocracia e a lentidão do processo jurídico na Guatemala, aliados à falta de interesse do governo, impedem que os responsáveis sejam punidos."

Ameaças

Nascido na Guatemala, ele conta que já recebeu diversas ameaças de morte por conta de seu trabalho. "Minha família também era constantemente ameaçada. Tive que deixar o país por alguns meses. Mas, depois que passamos a receber apoio das Nações Unidas, nossas condições de trabalho melhoraram".

É a ONU que estaria mediando uma ida do grupo ao Iraque, para analisar os cemitérios humanos que teriam sido criados pelo regime de Saddam Hussein. "O projeto ainda está em fase embrionária", conta Peccerelli.

O cientista também dirige uma fundação de antropólogos latino-americanos, interessados em implementar projetos semelhantes em seus países.

"Os argentinos são os melhores do continente em antropologia forense. Muito do que aplicamos na Guatemala aprendemos com eles. Mas não temos nenhum brasileiro no grupo, o que me surpreende, já que o Brasil também viveu uma ditadura e possui várias famílias que não sabem o destino de vítimas do regime militar", avalia.

O antrópologo afirma que ainda há trabalho na Guatemala por mais 25 anos. E aguarda com ansiedade um laboratório de análise de DNA, que poderá tornar o trabalho mais preciso.

"Por enquanto, escavamos, encontramos os restos mortais, analisamos a causa da morte, sabemos quem foram os culpados cruzando esses dados com documentos e entrevistas com familiares e testemunhas. A análise de DNA ainda é uma coisa rara porque não temos equipamento o suficiente", explica.

Mas descobertas importantes já foram realizadas como, por exemplo, a de que houve realmente um genocídio na Guatemala.

"Confirmamos que 87% das vítimas são de origem maia. Os índios camponeses foram realmente os mais afetados, por razões políticas e étnicas. Verificamos verdadeiras atrocidades nos restos mortais de mulheres e crianças. Não se poupava ninguém", diz o cientista.

A época mais sangrenta da história recente da Guatemala é atribuída aos governos de Lucas García e do general golpista Efrain Ríos Montt, que é acusado por organizações de direitos humanos de ter cometido atrocidades durante o seu governo, entre 1982 e 1983.

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