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Atualizado às: 17 de novembro, 2003 - 19h26 GMT (17h26 Brasília)
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China esqueceu as vítimas de Aids em Henan

Menina passeia em frente a pôsteres com informações sobre Aids em Pequim
A Aids é um segredo negro em Henan, na China

A grande planície central da China se estende por milhares de quilômetros desde o rio Yang Tsé, ao sul, até Pequim, ao norte.

Esse é o coração da China e uma das regiões mais densamente povoadas da Terra.

Bem no meio dessa área fica a província de Henan, pobre e rural, famosa por sua população imensa de 96 milhões, segundo as últimas estatísticas.

Mas no meio dessa vasta população, Henan guarda um segredo.

Marcados para morrer

A cidade de Shuang Miao, na região nordeste de Henan, é um lugar que passaria despercebido, com suas casinhas de tijolos como outras milhares dessa planície.

mapa da província chinesa de Henan
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Mas Shuang Miao está marcada pela morte.

É a “doença estranha”, como chamam os moradores do vilarejo.

Ninguém ainda contou para eles o que realmente é a causa das mortes: a Aids.

Dos 3 mil habitantes de Shuang Miao, pelo menos 600 são soropositivos para HIV e cerca de 150 já morreram.

A cada semana há um novo funeral. Os campos em torno da cidade estão cheios de novos túmulos.

Angústia e medo

Uma senhora vestida de azul me leva a uma pequena casa de tijolos no coração do vilarejo.

Enquanto eu entrava pelo quintal, um grito terrível saiu da casa.

Eu parei em frente à porta, temeroso do que encontraria no interior.

Lentamente, uma por uma, mulheres saíram pela porta, com lágrimas escorrendo por seus rostos.

Apesar da minha apreensão, fui levado para dentro.

No canto de um quarto, um homem debilitado estava deitado na cama.

Em um primeiro momento, eu não tive certeza de que ele estava vivo, mas ele tossiu.

Ao lado da cama estava uma mulher e duas crianças. Uma delas, uma pequena garota, grita o nome de seu pai. Ele também está chorando.

"Sejam bonzinhos e aprendam as lições direito”, ele sussurra.

Ele sabe que agora a morte está próxima.

Em pé ao seu lado, a mulher mistura angústia e medo. Ela também tem Aids e sabe que pode não demorar muito para ficar doente e ter que deitar na mesma cama.

"O que vai acontecer com as crianças? O que vai acontecer quando eu ficar doente?”, ela pergunta.

Escândalo de sangue

Essas pessoas não são apenas vítimas da Aids. Elas são vítimas de um escândalo gigantesco e criminoso de responsabilidade dos governantes da China comunista.

Nos anos 90, as autoridades do Partido Comunista em Henan incentivaram que fazendeiros pobres vendessem seu sangue.

Unidades móveis de coleta invadiram as vilas rurais.

Milhares de moradores responderam ao chamado.

Mas os coletores de sangue ignoraram quase todos os padrões básicos de higiene.

Equipamento sujo foi usado diversas vezes. Sangues de doadores foram misturados, o plasma foi removido e o que sobrou era devolvido à corrente sanguínea dos doadores.

Paciente com HIV na China
Em Henan, pacientes com HIV não têm acesso a medicamentos

O HIV se espalhou por todo o sistema de coleta de sangue.

Ninguém tem certeza de quantas pessoas foram infectadas, mas calcula-se que pelo menos 500 mil.

Segredo de Estado

Após infectar tantas pessoas de seu próprio país, o governo comunista Chinês está fazendo tudo o que pode para impedir que outros países descubram.

Minha viagem a Shuang Miao não foi aprovada, era ilegal.

As pessoas que me levaram lá arriscaram sua segurança. Os moradores dos vilarejos me disseram que foram alertados por oficiais de que não deveriam falar com pessoas da imprensa e que a situação da Aids em Henan era um segredo de Estado.

Os poucos que tiveram coragem de falar são constantemente ameaçados, violentados e alguns foram presos.

E enquanto continua a negar a crise de Aids em Henan, o Partido Comunista deixa as vítimas morrerem.

Em Shuang Miao, todos os moradores que eu encontrei tinham um pedido: "Você pode trazer algum remédio?”, eles imploraram. “Por favor, nós precisamos de medicamentos”.

Há pouco mais de uma semana, o ministro da Saúde da China fez um anúncio cheio de festa de que tinha planos de providenciar remédios anti-Aids de graça para todas as vítimas da China.

Mas no vilarejo de Shuang Miao não há nem sinal desses medicamentos.

“Eles estão esperando nós morrermos”, disse um dos moradores. "Quando todos morrermos, o problema deles estará resolvido.”

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