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Preconceito e discriminação são da mesma família, diz chileno
David Poblete Vásquez, um sociólogo chileno de 44 anos, descreve como enfrenta o vírus com a ajuda do amor e apoio de sua mulher, Maria Esther, com quem vive na Argentina: "Eu convivo com o HIV há um pouco mais de 19 anos. Vivo com Maria Esther há mais de 20 anos. Ela é o que há de mais importante na minha vida. Maria Esther me apóia de todas as formas: com meus planos, meus momentos de loucura, meus momentos caóticos. Espero que Deus encontre uma forma de nos deixar juntos por muito tempo. Hoje é terça-feira, dia de médico. Fui eu que resolvi me tratar num hospital público. Lá há tanta gente que às vezes não dão conta do serviço. Você Percebi que chamei minha médica de “você”. Antes só a chamava de “senhora”. Também notei que muita gente me conhece. Acho que ficam surpresos em ainda me ver vivo. Mais tarde, no caminho de casa, fotografei uma árvore que me fez lembrar de Gabriel, um amigo que ficava na sua sombra quando se sentia mal. Notei que aquele pinheirinho cresceu bastante. Há muito tempo, a gente se sentava lá para bater papo e fazer planos. Gabriel se rebelou contra os medicamentos. Não os tomava com regularidade. Era um dia sim, um dia não. Uma grande perda. Eu tomo de 13 a 18 comprimidos por dia. Por que quantidades diferentes? Algumas vezes, eu me esqueço das doses. Fico muito cansado. Hoje, por exemplo, estava escrevendo umas coisas e não consegui datilografar. Às vezes, não dá. Tento lidar com a situação fazendo pequenas coisas que gosto e mantendo os amigos. Eu quero que estejam por perto quando chegar a hora de dizer adeus. Costumo dizer a eles: vocês estão em número certo para dizer “ele não era má pessoa”, “ele era um bom cara”. É muito importante ter apoio da família, ter seu amor e afeição, para qualquer doença. Eu não digo que esta é a pior doença. Mas ter o amor e a proximidade da família é vital. Há uma música de Victor Heredia que diz que só o amor acerta as coisas. Tento tornar os domingos especiais, só para mim e Maria Esther. Nós ficamos na cama até mais tarde e depois arrumamos as coisas em casa. Preconceito Também passo minhas camisas. Acho relaxante. Depois jogo papéis fora e ligo o computador para ler algo relacionado à Aids. A discriminação é grande aqui na Argentina. Preconceito, discriminação são da mesma famílias: são primas-irmãs, tias-avós. E existe muito preconceito na Argentina: se você tem o HIV é porque é drogado, homossexual ou não segue as regras. Há preconceito e hipocrisia de sobra na nossa sociedade. É algo realmente ruim. A primeira vez que fui ao hospital foi terrível. Eu havia perdido a visão de um dos olhos e me atiraram – a palavra é realmente essa – num quarto na ala de doenças coronárias. Puseram na porta um aviso dizendo “Aids” em letras grandes. E lá estava eu, num período realmente crítico para minha saúde, sem ninguém para me limpar, sem ninguém para me trazer água. Algumas vezes, parece que a vida te leva ao limite. Mas eu tento não me deixar deprimir e não colocar em risco meu bem-estar espiritual. Mas é um longo processo." |
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