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Vírus da Sars é tão forte que poderá desaparecer | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A ausência de registros de pessoas que tenham incubado o vírus da Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave), mas sem que ele se manifeste no organismo, tem animado médicos envolvidos no combate à doença. Segundo especialistas, isso pode ser um sinal de que a doença desaparecerá rapidamente e de forma natural - se os casos já existentes forem tratados de forma adeqüada. Em entrevista à BBC Brasil, o epidemiologista Renato Gusmão, chefe da Unidade de Controle de Doenças Comunicáveis da Organização Pan-Americana de Saúde, nos Estados Unidos, disse que o vírus da síndrome pode ter se tornado forte demais para viver no organismo humano - o que o levaria a desaparecer em breve. Com o desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico para a doença, em breve especialistas poderão saber se o vírus pode infectar pessoas sem fazer com que elas desenvolvam os sintomas da doença. Ação do vírus Segundo o médico Renato Gusmão, o vírus da Sars é tão agressivo para os seres humanos que provavelmente não conseguirá conviver com o seu hospedeiro e, com isso, desaparecerá. "Estou otimista", disse. "Para o vírus, não é interessante que o ser humano morra. Se o paciente morre, o vírus não tem como se alimentar e reproduzir. Trabalhamos cada vez mais com a hipótese de que esse é o caso do vírus da Sars, devido à agressividade e às altas taxas de mortalidade da doença", explica Gusmão. Para as autoridades de saúde, essa descoberta será uma boa notícia em relação à Sars, também chamada de pneumonia atípica. Ela indicaria que, se a doença for tratada de forma adequada, poderá ficar relativamente sob controle, sendo eliminada mais tarde. O médico disse que, ao passar de animais (ainda não se sabe exatamente se do porco ou da galinha) para o homem, o vírus da Sars sofreu mutações - e ainda sofre - para se adaptar melhor ao seu novo hospedeiro. "A espécie humana sofre muito porque entra em contato com um organismo desconhecido e que a ataca de forma agressiva também", explicou. O médico, no entanto, lembra que apenas com métodos de diagnóstico mais precisos os especialistas chegarão a uma conclusão a respeito dessa teoria. "Caso a agressividade da Sars seja confirmada, com as técnicas de controle da doença já existentes - isolamento do paciente, tratamento dos sintomas e notificação imediata dos casos -, não deixaremos que a doença mate tanto", acredita Gusmão. Gripe espanhola O médico diz que a gravidade da Sars é enorme. "Ela é muito semelhante à gripe espanhola, que matou milhões de pessoas no início do século passado e também pulou do animal para o homem." Mas a Organização Pan-Americana de Saúde, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), prevê uma mortalidade menor para a Sars. "Hoje em dia, com governos democráticos e uma rede de saúde muito mais avançada e rápida, é impossível uma doença como a Sars matar tanto quanto a gripe espanhola", explicou o epidemiologista. Gusmão elogiou ainda a força-tarefa mundial que se formou logo após a identificação da Sars. "Foi um belo exemplo da prática da saúde pública. Instituições sem fins lucartivos mostraram-se desde o início empenhadas em detectar o vírus, seqüenciar o seu código genético e isolar pacientes para que o microorgismo não fosse extremamente transmissível." Ele disse que não houve uma preocupação visando o lucro a partir do combate à pneumonia atípica. "Ninguém correu para patentear remédios ou lucrar com a descoberta de tratamentos. E é isso que precisa continuar acontecendo dada a agressividade da Sars." Vietnã O Vietnã, onde a doença apareceu de forma bastante agressiva inicialmente, foi declarado pela OMS como o primeiro país a controlar a Sars. Segundo a organização, as autoridades de saúde vietnamitas perceberam logo o alto contágio da doença e trataram de colocar os pacientes completamente isolados. Já na China, conta Gusmão, houve demora no reconhecimento da gravidade da epidemia. "O governo demorou pelo menos quatro meses para perceber a gravidade do problema. Mas acreditamos que a epidemia irá decrescer no país. Na zona rural, o controle será mais difícil, mas ali também o trânsito das pessoas é menor, fazendo a doença se tornar mais localizada", disse. Novas doenças O especialista lembrou que a Sars deve servir como exemplo para instituições de saúde em todo o mundo, que devem possuir uma rede de comunicação eficaz em todos os países, para futuras epidemias do tipo serem controladas. "A Sars é a primeira grande doença deste século, mas outras podem surgir. Governos e médicos devem agir com a maior transparência possível", afirmou o epidemiologista. Pelo menos três exemplos de novas doenças são alvo de preocupação atualmente. O primeiro é a gripe de frangos na Holanda e na Bélgica. Uma pessoa morreu, e dezenas contraíram conjuntivite devido a um vírus, o que obrigou o sacrifício de milhares de animais nesses países. O segundo exemplo seria uma espécie de encefalopatia espongiforme bovina (mesmo tipo de doença do mal da vaca louca), que estaria afetando caçadores americanos por meio, possivelmente, da ingestão de carne contaminada. O último ainda não afetou seres humanos, mas já matou centenas de babuínos na África: uma infecção que destrói os órgãos reprodutivos, causando dores extremamente fortes. Segundo diversos estudos, o crescimentro da população, a degradação ambiental de hábitats de animais e problemas como falta de higiene podem desencadear diversas doenças novas, que passam de animais para seres humanos. "Por isso, o estabelecimento de uma rede internacional de controle e informação sobre qualquer doença é fundamental", salienta Renato Gusmão. O assunto será discutido a partir do próximo dia 19 na Assembléia Mundial de Saúde. |
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