Tribunal confirma condenação de Lula em caso do sítio de Atibaia e aumenta pena para 17 anos

Lula discursa em evento em Recife

Crédito, EPA

Legenda da foto, Em fevereiro deste ano, Lula foi condenado a 12 anos e 11 meses de prisão no caso do sítio de Atibaia
    • Author, André Shalders - @andreshalders
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Tempo de leitura: 4 min

Os desembargadores da 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) decidiram confirmar a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no caso do sítio de Atibaia e elevar a pena para 17 anos, 1 mês e 10 dias de prisão, além de multa.

A Corte julgou nesta quarta-feira (27/11) os recursos apresentados por diversas partes no processo — entre os apelantes, está o ex-presidente.

Em fevereiro deste ano, Lula havia sido a condenado a 12 anos e 11 meses de prisão neste caso pela juíza Gabriela Hardt, da 13ª Vara Federal em Curitiba.

Lula alega inocência e pede que o processo seja completamente anulado, por causa de supostas irregularidades. O representante do Ministério Público Federal (MPF) também pediu a anulação da sentença de fevereiro — nesse caso, o processo voltaria para a fase das chamadas alegações finais em primeira instância.

Imagem aérea de sítio em Atibaia

Crédito, Google Earth

Legenda da foto, Imóvel em Atibaia pertence formalmente ao empresário Fernando Bittar, mas MPF alega que Lula é seu verdadeiro dono

A preocupação do MPF se refere à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), proferida no começo de outubro deste ano, segundo a qual os réus que não são delatores têm o direito de se manifestar por último no processo.

Isto não era exigido à época e não foi observado no caso do sítio — o que poderia resultar na anulação do caso em instâncias superiores. No entanto, o julgamento do STF ainda não está concluído. Os ministros ainda precisam decidir sobre possíveis limitações de sua própria decisão.

O relator do caso do sítio de Atibaia, o desembargador João Pedro Gebran Neto, se manifestou contra os pedidos da defesa de Lula e do Ministério Público. Foi dele a proposta de aumentar a pena de Lula — e o voto acabou seguido pelos outros dois desembargadores da turma, Leandro Paulsen e Thompson Flores.

Em seu voto, Paulsen resgatou decisões anteriores dos ministros do STF, nas quais estes teriam afirmado que a ordem da fala dos réus só resultaria em nulidade caso a defesa tenha sido prejudicada. E isso não teria acontecido no processo do sítio, segundo Paulsen.

O desembargador afirmou ainda que as provas existentes neste processo são suficientes para afirmar a existência de um "esquema de corrupção que se montou a partir da Presidência da República, com o aval e sob os cuidados do então mandatário máximo da nação".

Qual é a acusação contra Lula?

Protesto a favor de Lula em Porto Alegre

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Militantes se reuniram diante do TRF-4, em Porto Alegre, para se manifestar a favor de Lula

No caso do sítio de Atibaia, o petista é acusado de ter recebido propinas das construtoras OAS e Odebrecht por meio de reformas, em 2010, num sítio no município do interior paulista.

O imóvel pertence formalmente ao empresário Fernando Bittar, mas o MPF alega que Lula é o verdadeiro dono do sítio e o principal usuário do local. Registros de viagens do ex-presidente mostram que ele chegou a viajar para o sítio uma vez a cada quatro dias.

Além de Lula, outras dez pessoas foram condenadas em primeira instância, entre elas os ex-presidentes da OAS, Léo Pinheiro, e da Odebrecht, Marcelo Odebrecht. O ex-presidente nega irregularidades, enquanto os dois empresários são hoje colaboradores da Lava Jato, e confessaram os crimes.

A juíza Gabriela Hardt determinou o confisco do sítio, para ser levado a leilão, o que não aconteceu até agora. Além disso, Lula foi condenado a pagar multa de R$ 423 mil e proibido de exercer cargos públicos por 24 anos e dois meses.

Em nota à época da primeira condenação, a defesa de Lula acusou a Justiça Federal de Curitiba de fazer "uso perverso das leis e dos procedimentos jurídicos para fins de perseguição política".

A defesa destacou que o ex-presidente nunca foi o dono do sítio e que a decisão se baseia num suposto "caixa geral" de propinas das empreiteiras. Não existem, segundo a defesa, provas materiais de que o dinheiro desviado de contratos da Petrobras foi usado nas reformas.

Nova condenação em segunda instância

Manifestantes contra Lula

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Após Lula ser solto, houve protestos contra a decisão do STF sobre prisão após segunda instância

Com o julgamento desta quarta, o caso do sítio de Atibaia resultou na segunda condenação de Lula a ser confirmada em segunda instância.

Em janeiro de 2018, os desembargadores Gebran Neto, Leandro Paulsen e Victor Laus, da mesma 8ª Turma do TRF-4, confirmaram sua condenação no caso do tríplex do Guarujá, em que o petista é acusado de receber propina da empreiteira OAS na forma da reserva e reforma de um apartamento de três andares no balneário paulista.

Na ocasião, o TRF-4 fixou a pena em 12 anos e 1 mês de prisão, aumentando a punição que tinha sido determinada pelo então juiz Sergio Moro. A condenação no caso do tríplex levou Lula à prisão em abril de 2018, e ele deixou a cadeia no dia 8 de novembro deste ano, após o STF decidir contra a prisão condenação após segunda instância.

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