Eleições 2018: Wilson Witzel, o ex-juiz que venceu a eleição de governador do Rio com discurso linha-dura

Wilson Witzel

Crédito, AFP

Legenda da foto, Governador eleito quer extinguir secretaria de Segurança e criar rede de escolas estaduais militares
    • Author, Luiza Franco
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Tempo de leitura: 4 min

Figura pouco conhecida no Rio de Janeiro até o primeiro turno das eleições, o governador eleito Wilson Witzel (PSC) chegou lá surfando uma onda bolsonarista, associando-se à figura e às ideias do capitão reformado e, agora, presidente eleito. Azarão, só começou a aparecer de forma relevante nas pesquisas de intenção de votos no dia anterior ao primeiro turno.

Sua campanha foi marcada por declarações radicais, a exemplo da ameaça de dar voz de prisão ao seu oponente, Eduardo Paes (DEM), em caso de injúria durante debates e ao afirmar repetidas vezes que pretende permitir que policiais "abatam" pessoas que estejam portando fuzis.

Também teve grande repercussão o fato de que, num comício dele, deputados do PSL quebraram uma placa com o nome da vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL). Witzel estava no palanque no momento do ato.

Em seu programa de governo, ele propõe políticas controvertidas na segurança pública – a área é uma das preocupações mais urgentes da população fluminense. Ex-juiz federal, licenciou-se do cargo para concorrer ao governo. Witzel tem 50 anos de idade, é católico e casado. Ele declarou à Justiça Eleitoral ter apenas um bem, um imóvel, no valor de R$400 mil. Foi fuzileiro naval, defensor público e hoje é sócio de um escritório de advocacia.

Witzel também foi alvo de polêmica com um filho transexual, que o acusou, numa entrevista ao jornal O Globo, de tê-lo usado para se promover.

A estratégia deu resultado, e Witzel foi eleito neste domingo com 59,87% dos votos válidos (ou 4,67 milhões, em números absolutos), ante os 40,13% de Paes (ou 3,1 milhões). Abstenções e votos brancos e nulos totalizam 4,59 milhões.

Veja algumas das ideias e propostas do futuro governador e entenda o que pode mudar com ele à frente da administração estadual.

Violência urbana

A principal proposta de Witzel para a segurança pública é extinguir a Secretaria de Segurança, que ele considera "burocrática", e fazer da Polícia Militar e da Polícia Civil secretarias independentes, subordinadas a um gabinete de segurança do qual fariam parte os chefes da PM, da PC e ele próprio.

Witzel adota discurso agressivo sobre a área de segurança. Seu tom foi endurecendo à medida que tentava se associar à figura de Bolsonaro. Em entrevista à Folha de S.Paulo, feita em junho, o então candidato ao governo do Rio chegou a dizer ser contra a "política de confrontos" da Polícia Militar com traficantes.

Depois, passou a dizer que policiais terão autorização para "abater" uma pessoa que estiver portando fuzil, mesmo que a situação não seja de combate. Para isso, diz basear-se no Artigo 25º do Código Penal: "Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem".

Após anos de queda a partir de 2007, o número de mortes provocadas por policiais vem crescendo desde 2013 e, de forma mais drástica, desde 2015. Homicídios dolosos seguem a mesma tendência.

Em encontro fechado com membros das forças de segurança, Witzel prometeu, se necessário, "cavar covas" e fazer navios-presídio para criminosos. Entre outros projetos, o governador eleito sugere que sejam feitas intervenções nas favelas para facilitar a entrada da polícia e armar a Guarda Municipal nos municípios que assim desejem.

Ele é também a favor do armamento da população, concorda com uso de helicópteros para atirar em favelas durante operações policiais e mostra-se favorável a parcerias público-privadas para a gestão de presídios.

Eleitor de Bolsonaro no Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2018

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Campanha vitoriosa no Rio surfou em onda popular de apoio a Bolsonaro

Educação

Seguindo a linha militarizante de Jair Bolsonaro, Witzel pretende criar uma rede de escolas estaduais militares - pelo menos uma por município. Para ele, a falta de disciplina em sala de aula ajuda a explicar o problema da educação no Estado. Também é contra a abordagem de temas como gênero e sexualidade na escola, na linha do movimento Escola Sem Partido.

Witzel é contrário à lei de cotas raciais, mas se diz a favor de cotas sociais. Em setembro, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou a prorrogação do sistema de cotas para os cursos de graduação nas universidades públicas estaduais do Rio por mais dez anos. O governador eleito disse, em sabatina, que a lei será cumprida.

Economia

O Estado vive grave crise financeira. Witzel diz que pretende renegociar a dívida com a União, cujo pagamento está suspenso por três anos, desde setembro de 2017, quando foi assinado um acordo com o governo federal.

Witzel diz que o Estado deve deixar de depender dos royalties do petróleo. Em seu programa, fala em criar maneiras de estimular o empreendedorismo, por meio de um programa intitulado AgeRio.

Carreira de juiz

Sócio de um escritório de advocacia, Witzel foi defensor público e juiz federal. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, nessa condição, recebia auxílio-moradia, apesar de ter um imóvel próprio na capital fluminense. A prática não é ilegal, mas magistrados que a adotam vêm sendo questionados no âmbito ético.

De acordo com o jornal, dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que ele recebia R$ 4.377 mensais pelo benefício, ainda que fosse dono de um imóvel no Grajaú, zona norte da cidade. Witzel disse que o auxílio é legal e que não tem apego a benefícios. Do contrário, não teria abandonado a carreira de juiz.

Em vídeo revelado pelo jornal O Globo no início do segundo turno, Witzel, durante uma palestra, ensina aos ouvintes uma "engenharia" para receber uma gratificação por acúmulo de funções. À imprensa local, o político negou ilegalidade.

Quando trabalhava na Vara de Execuções Criminais nos Estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, Witzel disse, em entrevista dada ao portal G1 em 2011, que havia sido ameaçado de morte e por isso trocara de região. À época, era também diretor da Associação dos Juízes Federais (Ajufe). "Eles (criminosos) conseguiram me intimidar e isso me fere profundamente. Eles intimidaram um juiz federal. Tive de trocar de área para preservar minha vida. Desde que comecei a ser ameaçado, nunca mais deixei de usar colete à prova de balas", disse ele ao portal.

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