Crime, ciência e drag queens: brasileira é finalista de concurso de doutorados explicados em clipes

Clipe de Natália Oliveira
Legenda da foto, Cientista pernambucana diz que iniciativas assim ajuam a aproximar o público da ciência | Foto: Reprodução
    • Author, Rafael Barifouse
    • Role, Da BBC Brasil em São Paulo

A princípio, a série "CSI", bailes de drag queens em Nova York na década de 1980 e as ruas de Recife não têm muito em comum, mas, para a pernambucana Natália Oliveira, eles têm tudo a ver.

A cientista misturou tudo isso ao transformar sua tese de doutorado em clipe e tornar-se a única brasileira entre os finalistas de um concurso da revista Science, uma das mais importantes publicações da área do mundo.

Há dez anos, a revista e a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês) criaram a competição, chamada Dance seu PhD, para desafiar pesquisadores a explicarem seus doutorados por meio da dança. A ideia é divertir e informar ao mesmo tempo, criando uma ponte entre os laboratórios e o público.

Legenda do vídeo, 'Temos que aproximar a ciência do público', diz brasileira finalista em concurso de clipes

Vale qualquer estilo, contanto que o autor participe. E é o que Natália faz no vídeo de pouco mais de cinco minutos, produzido com a ajuda de amigos.

"Podem estranhar e dizer que isso não é um trabalho sério, mas é bom quebrar esse paradigma", diz a pesquisadora de 28 anos, doutora em Biologia Aplicada que agora cursa pós-doutorado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

"Cientistas buscam resolver problemas do mundo. Então, quanto mais gente entender e se engajar com a ciência, melhor. Especialmente agora que a área brasileira passa por um momento difícil."

Clipe de Natália Oliveira
Legenda da foto, Vídeo usa passos do vogue, estilo de dança criado por drag queens nos anois 1980 | Foto: Reprodução

Biossensores

Dançando pelas ruas do Recife e nos corredores e laboratório da universidade, Natália explica no clipe sua tese sobre o uso de biossensores para identificar fluidos corporais em cenas de crimes, mesmo que o autor tenha tentado apagar seus rastros com materiais de limpeza.

A sugestão de participar do concurso veio de um professor que sabia do envolvimento da cientista com teatro. Ela comprou a ideia e levou para o grupo de dança do qual participa desde o início do ano, o Vogue 4 Recife.

O inspiração da coreografia vem do vogue, um estilo de dança criado em bailes de drag queens no Harlem, em Nova York, que teve seu auge em meados dos 1980 e início dos anos 1990 e foi tema do documentário Paris is Burning (1990).

Clipe de Natália Oliveira
Legenda da foto, Natália diz que a ciência forense sempre despertou seu interesse | Foto: Reprodução

O clipe traz Natália e seus amigos "lacrando", como se diz na cultura gay, com passos de dança que tornaram-se famosos em todo o mundo pelas mãos da Madonna, com a música - e clipe - Vogue.

"A ideia era explorar a representatividade das pessoas que fundaram essa cultura, como as drag queens, mulheres trans, gays negras e latinas e as travestis", conta ela. E, ao mesmo tempo, explicar sua tese de doutorado: "Funciona como o aparelho que o diabético usa para medir o nível de açúcar no sangue, mas para fluidos biológicos em locais de crimes".

Ciência forense

Natália já havia trabalhado com essa tecnologia em seu mestrado, usando biossensores para detectar o vírus da dengue. O próximo passo foi aplicar a técnica às ciências forenses, uma área que sempre despertou seu interesse. Por isso o clipe faz referências à série americana CSI, em que uma equipe de peritos busca desvendar crimes.

Clipe de Natália Oliveira
Legenda da foto, Tese da pesquisadora trata de método de detecção de DNA em cenas de crimes | Foto: Reprodução

"Sempre fui muito fã da série, mas depois, quanto mais conhecia sobre a ciência forense, mais via que o programa retratava as coisas de uma forma que não era real", diz Natália, que deixou para trás a ciência forense da ficção para se dedicar à do mundo real.

"Há uma carência do mercado, porque muitos testes desse tipo não conseguem detectar materiais biológicos depois que a cena do crime é limpa."

Natália trabalhou por dois meses na elaboração do clipe e da coreografia, o gravou ao longo de duas tardes e levou uma semana para finalizá-lo. O trabalho é um dos quatro finalistas entre os vídeos de Química. Há ainda disputas em Biologia, Física e Ciências Sociais. A votação vai até hoje - o público pode indicar seus favoritos pelo site.

O vencedor de cada uma das quatro categorias, eleito pelo júri com base em critérios científicos, artísticos e na união desses dois aspectos, receberá um prêmio de US$ 500 (R$ 1.620). Dentre eles, será determinado o grande ganhador, cujo autor receberá um prêmio adicional de US$ 500 e participará da conferência anual da AAAS nos Estados Unidos.

Natália diz estar "com as melhores expectativas possíveis" e "convocando todo mundo" que conhece para ajudar na promoção do vídeo.

'Cortes significativos'

Clipe de Natália Oliveira
Legenda da foto, Clipe é finalista de concurdo realizado pela revista Science há dez anos | Foto: Reprodução

"Só tem nós do Brasil, isso é bom para divulgar o trabalho que fazemos aqui. A ciência tem uma linguagem bem técnica, e isso pode ajudar a torná-la mais acessível", diz a cientista pernambucana, para quem isso ganha ainda mais importância diante do momento pelo qual passa essa área no país.

"Muitos cientistas e professores estão fechando laboratórios por causa do corte de programas de apoio e financiamento", afirma, citando como exemplo a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos afirmando que a falta de verbas inviabilizou suas condições de trabalho por aqui.

Natália conta que "cortes significativos" em financiamentos de agências de incentivo como CNPq e CAPES fizeram o Laboratório e Imunopatologia Keiko Azumi, da UFPE, onde ela fez suas pesquisas, abrir um edital para doações privadas para garantir a continuidade dos trabalhos.

"A maioria das instituições de ensino superior estão passando por isso hoje. Quem dependia de recursos públicos foi diretamente afetado pelos recentes cortes em ciência e tecnologia", diz Natália.

"Temos de mudar essa ideia de que a ciência não é disponível e acessível ao público. Só assim as pessoas vão entender o que fazemos e nos apoiar ainda mais neste momento difícil."

Clipe de Natália Oliveira
Legenda da foto, Natália diz que engajar o público é importante para ter seu apoio em 'momento difícil' da ciência no país | Foto: Reprodução